OPINIÃO

Quando rir é proibido

Leio uma notícia que mais parece piada – e de mau gosto: Coreia do Norte proíbe risadas e sorrisos por 11 dias. A notícia seria risível se não fosse lamentável saber que Kim Jong-un determina essa medida como forma de reverenciar o décimo aniversário de morte de seu pai, Kim Jong-il, como se a dor de seu luto devesse ser obrigatoriamente sentida por todos.

Li essa notícia justamente no intervalo de uma das leituras que ando fazendo ultimamente: “Do que riem as pessoas inteligentes? Uma pequena filosofia do humor”, de Manfred Geier (Tradução de André Delmonte e Kristina Michahelles. São Paulo, Ed. Record, 2011). Nesse livro, justamente no capítulo “O prazer do riso”, em que o autor faz um apanhado geral da abordagem de Freud sobre os chistes, pode-se encontrar a seguinte síntese: a boa piada é um presente para os ridentes.

Rir e fazer rir são atitudes que, na perspectiva psicanalítica, implicam não só um trabalho de raciocínio como também um “pequeno ganho de prazer”. Assim, sua proibição, bem como a de outros pequenos divertimentos (segundo a notícia também estão abolidos o consumo de álcool e a prática de atividades de lazer), acaba por pretender impor a toda uma população uma condição desprazerosa de ser e estar no mundo. Um presente de grego, como diria o ditado.

Mas a proibição do riso não é, de modo algum, novidade na História. E por falar em grego, no mesmo livro citado, em capítulo intitulado “O riso é expulso da filosofia”, o autor aborda o caso do filósofo Platão, que preconizou um Estado ideal onde a vida virtuosa e a reflexão séria não permitiriam a existência do riso. Em obras como “Politeia” e “Filebos”, por exemplo, o pai da Academia atentava para “os malefícios do prazer do riso”, em que são censuráveis tanto o objeto risível (algo e/ou alguém inferior) quanto o sujeito ridente (que se julga, indignamente, superior).

Toda essa memória discursiva que vê o riso de maneira negativa foi tomada como pano de fundo para o romance policial genial de Umberto Eco: em “O Nome da Rosa”, na biblioteca de um mosteiro medieval, aqueles que se atrevessem a ler – e rir com – alguns livros banidos (no que se incluía a parte da obra de Aristóteles que se dedicou à Comédia) pagariam com a própria vida por tal ousadia. Mais ou menos como na Coreia do Norte.

Alguém poderia indagar: isso quer dizer, então, que para fugir do “peso” dessa tradição (neo)platônica de proibição ao riso, tudo seria permitido em termos de humor? Piadas machistas, homofóbicas e racistas, por exemplo, poderiam circular impunemente? É mesmo válido em termos de humor que é proibido proibir?

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, eu diria. Em certos casos, fica muito evidente onde há mais ofensa do que humor. A esse respeito, por exemplo, pensemos na recente polêmica em torno do filme brasileiro “Amor Sem Medida”, uma comédia romântica em que o ator Leandro Hassum interpreta um personagem com nanismo, efeito físico conquistado graças a técnicas de computação gráfica. A discussão gerada a partir das piadas capacitistas que aparecem na trama possibilita a reflexão de que, em uma sociedade minimamente democrática, não se admite mais rir e inferiorizar (no sentido de zombar) de figuras que historicamente têm sido ridicularizadas e inferiorizadas (zombadas), como anões, por exemplo.

Mas essa discussão só pode surgir e se desenvolver a partir de um debate amplo e respeitoso, não de uma proibição cabal e autoritária. Que haja o debate!

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