CULTURA

Rádio Potiguar chega aos 80 anos em processo de transformação

Por Jeferson Rocha

Um companheiro para quem está em casa, no carro, no trabalho, no transporte público… nas horas mais tristes ou alegres, levando informação, entretenimento, prestação de serviço, conectando pessoas. Tem sido assim há 80 anos em nossas terras. Sim, estamos falando do rádio, essa mídia que chegou ao Rio Grande do Norte através das ondas da Rádio Educadora de Natal (REN), em 29 de novembro de 1941.

A emissora, que posteriormente passou a ser conhecida como Rádio Poti, foi um marco na comunicação em nosso estado por vários anos e seu legado não se apaga, porque ela foi – e ainda é – inspiração para tantos profissionais e emissoras concorrentes que se transformaram para estar cada vez mais conectados com o povo Potiguar. 

Pessoas como o professor Hélcio Pacheco de Medeiros, do Departamento de Comunicação Social da UFRN que, desde cedo, ouvia a emissora.

Professor Hélcio Pacheco I Foto: Socorro Vale

“No período em que a Poti esteve presente na vida cotidiana das famílias, das pessoas, ela informou, animou, entreteve e esteve muito presente em nossas vidas. Eu lembro, quando criança, escutava alguns programas, músicas, horóscopo, ‘O galo informa’, novelas… Então, para mim, foi uma presença muito constante, e ela foi e contribuiu muito para a vida de nossa cidade”. 

Para além da Poti, a data serve para lembrar que nosso rádio tem uma trajetória importante que precisa ser lembrada, comemorada e refletida por todos que consomem e gostam dessa mídia – ouvintes, empresários, profissionais e pesquisadores. Isso porque a importância do rádio pode ser vista desde seu surgimento e a partir de todas as suas adaptações sofridas pelos surgimentos de novas mídias e tecnologias.

Nessa trajetória de 80 anos, os potiguares ouviram, além da Poti, emissoras como Rádio Cabugi, Eldorado, Nordeste, Trairy, Tropical, – de Natal -, além da Rural de Mossoró, Natal e Caicó,  da Libertadora, Difusora e Tapuyo – de Mossoró, Currais Novos AM, Curimatau – de Nova Cruz, Centenário – de Caraúbas, Ouro Branco – de Macau, e Princesa do Vale – de Açu. Algumas delas ainda existem, em um total de mais de 50 emissoras entre AM e FM, e cerca de 70 rádios comunitárias licenciadas, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

 

12 FM’s em Natal

45 Emissoras em FM 

15 AM’s – Pelo menos duas estão desligadas: a própria Rádio Poti e a Rádio Eldorado de Natal Ltda

76 Emissoras de Rádio Comunitárias Licenciadas

Fonte: Anatel

A chegada da FM

Os números apontam para um crescimento na quantidade de emissoras e na diversidade de conteúdos. Ao longo dessas oito décadas, o rádio de Natal se transformou em diversos aspectos, dentre eles, um dos maiores foi a chegada do rádio em Frequência Modulada (FM). A primeira emissora, foi a Rádio Natal Reis Magos, popularmente conhecida como 96 FM, que começou com uma programação gravada da Rede Transamérica, que não tinha muita identidade com o gosto musical da maioria da população da capital potiguar. 

Ênio Sinedino atua no rádio FM há 40 anos I Foto: Jeferson Rocha

Aos poucos, a emissora foi se adaptando e, segundo Ênio Sinedino, atual diretor da 96, a rádio começou a ser referência por apostar num diferencial: “Naquela época, final da década de 80, o rádio FM era para a elite e a gente percebeu que, nas festas da juventude, o que as pessoas ouviam e dançavam não estava tocando na rádio. A gente percebeu isso e decidimos trazer o popular – que tocava no AM- para nossa rádio, o que causou um alvoroço à época, mas acabou sendo um sucesso”, avalia Sinedino.

Mas, as mudanças no cenário do rádio estão para além da 96. Entre os anos 90 e 2000, os ouvintes potiguares presenciaram a chegada de outras rádios FM, como as Rádios Comunitárias, Educativas, Legislativas, Militar e Universitária. Outro grande marco recente, foi a migração e o desligamento das emissoras de Amplitude Modulada (AM): a CBN, Nordeste Evangélica e Rural passaram a transmitir em FM e a Rádio Globo Natal sumiu, dando espaço para a Jovem Pan News Natal FM.

Mais notícias

Estúdio da 88,9 FM – Foto: Anastácia Vaz

Nessa trajetória, o jornalismo é um dos marcos importantes na atualização do público. Nos anos iniciais, a capital fervilhava com os noticiários das grandes emissoras com notícias locais, nacionais e internacionais, com famosos programas como Patrulha da Cidade, da Cabugi AM, Jornal Regional, da Rádio Rural  e O Galo Informa, da Poti. Mas as produções foram enfraquecendo, principalmente no período da ditadura militar, e reaquecendo na nova democracia. Na década de 90, chegou à Natal a filial da Central Brasileira de Notícias (CBN Natal), substituindo a rádio Trairy, com informações jornalísticas 24 horas por dia e inserções de notícias locais. 

Mas, foi nos anos 2000 a renovação do jornalismo com o Jornal 96 e a ampliação de radio jornais diários das concorrentes como 94FM, 95FM, 98FM, e da Rádio Universitária, considerada à época de sua fundação, a com maior espaço de notícias locais do FM, pautada no jornalismo público e na prestação de serviço com jornalismo independente, pelo fato da emissora não ter ligação a nenhum grupo político ou de interesse econômico.

FM UNIVERSITÁRIA

A rádio ligada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) com uma programação musical diversificada que abrange desde o forró, chorinho, bossa nova, samba, até o rock e músicas instrumental, com destaque, dentre as demais, para a valorização do músico e da cultura potiguar em programas de entretenimento e jornalismo. 

E essa programação cativa ouvintes como Jorge Lima, jardineiro no Campus Central da UFRN, que vê no rádio a alegria do seu dia: “Eu já ligo assim que chego no trabalho e passo o dia todo cuidando das plantas, ouvindo  boa música e também fico informado do que acontece na Universidade e na cidade“.

O compromisso com o jornalismo público é um dos desafios da Universitária FM. A jornalista Maralice Freitas, atualmente, uma das editoras do Programa das 6, destaca que a “informação com independência em um jornalismo público é o grande legado e um desafio para a nossa equipe que é pequena e trabalha com poucos recursos. Mesmo com essas dificuldades, a gente percebe a necessidade de buscar, diariamente, construir um jornalismo que atenda ao interesse público com foco na cultura local -característica de nossa emissora – e no desenvolvimento social com respeito aos direitos humanos”, registra.

Durante mestrado, Maralice Freitas pesquisou sobre o papel do jornalismo público na FM Universitária I Foto: Jeferson Rocha

FUTURO

Apesar da corrida tecnológica e de todas as transformações recentes, ao invés de ficar para trás, o rádio tem conseguido acompanhar essas mudanças. Para Sinedino, essa experiência se percebe porque a mídia está em um momento de muita relevância e produtividade: “Vivemos uma quebra de paradigma de que só a TV poderia ofertar áudio e imagem, e o rádio, hoje, pode oferecer o áudio com imagem e isso nos coloca em outro patamar, a nível de veículo de comunicação, então eu estou acreditando muito nesse momento do rádio. Acho que a tendência é se profissionalizar mais e rivalizar com a TV e, claro, apostar em conteúdo de qualidade, diferenciando-se dos players e agregadores de conteúdo”.

Já o professor Hélcio Pacheco, espera que nosso rádio acompanhe as transformações mundiais e continue contribuindo para o desenvolvimento social com o fortalecimento da comunicação regional. “Eu vejo que o futuro dessa mídia tende a se transformar: a gente vê em alguns países da Europa que as ondas Hertzianas foram desativadas para ficar só a internet e eu vejo que esse é o caminho, vai ser uma nova trajetória da comunicação radiofônica. E espero que o rádio aqui do Brasil, e principalmente aqui em Natal, acompanhe essa trajetória, essas transformações, e continue contribuindo para a história da cidade a história do nosso estado em termos de informação, de educação, de entretenimento, de música, e possa despertar novos talentos e que ela seja uma presença constante na vida das pessoas”. 

MEMÓRIA

Sede da Rádio Poti, na Av. Deodoro, está abandonada I Foto: Jeferson Rocha

Hoje, a pioneira Rádio Poti está silenciada. A frequência de 1.270 AM não pode ser mais sintonizada, assim como sua sede, na Avenida Deodoro, reflete abandono: com paredes caindo e muros pichados, com algumas propagandas que nada têm a ver com o brilho daquela que já chegou a ter auditórios lotados, novelas de grande audiência, jornalismo ativo e esporte que transmitiu os grandes momentos de nossa história.

Pensando nesse esquecimento e na necessidade de manter essa memória, os pesquisadores Adriano Gomes e Edivânia Duarte, lançaram o e-book Rádio e Memória: As narrativas orais na reconstrução da história da Rádio Poti com depoimentos de pessoas que fizeram parte da história da emissora, organizando os fatos marcantes dessa trajetória.

Além da publicação, os autores, junto com outros pesquisadores da UFRN, UERN, IFRN e independentes, estão realizando um trabalho voluntário de levantamento de memórias de pessoas que fizeram e fazem parte do rádio potiguar em registros de áudio e vídeo que devem ser publicados, em breve.

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