DEMOCRACIA

Vitória da Esquerda no Chile teve participação recorde do povo nas urnas mesmo com voto não obrigatório desde 2010

Mais de 8,4 milhões de chilenos saíram de casa neste domingo (19) para participar da eleição que elegeu o candidato de esquerda Gabriel Boric o próximo presidente do país, substituindo Sebástian Piñera.

Em números absolutos, essa foi a maior votação da história do Chile numa eleição presidencial.

O recorde, até então, havia sido no 2º turno de 2009, quando 7,2 milhões de pessoas votaram. No entanto, até aquele ano o voto era obrigatório, o que deixou de ser a partir de 2010, após aprovação de projeto de lei no Congresso Nacional.

Em números percentuais, a vitória de Gabriel Boric sobre o extremista de direita José Antônio Kast levou 55,6% dos eleitores às urnas, mais gente até do que a quantidade de chilenos que saiu de casa para votar no plebiscito que decidiu mudar a Constituição do país.

Numa comparativo entre a votação do 1º para o 2º turno houve um aumento de mais de 1,2 milhão de chilenos participando do processo eleitoral. Em 21 de novembro, o pleito contou com 7.026.608 votantes.

Em novembro, em entrevista à agência Saiba Mais/ComunicaSul, a cientista política venezuelana e professora da faculdade de Economia, Governo e Comunicação da Universidade Central do Chile Neida Colmenares Mejías explicou que, para além do voto não obrigatório, outros fatores também precisam ser levados em conta ante ao baixo comparecimento do povo no processo eleitoral:

– Não acho que a baixa participação popular nas eleições do Chile se explique unicamente pelo voto voluntário, até porque na Venezuela o voto também não é obrigatório é o povo participa. No Chile, há uma desconexão entre a cidadania e a elite política, o que vem desde antes. O neoliberalismo não é apenas uma expressão econômica nem apenas livre mercado. O neoliberalismo também tem uma expressão cultural e política na despolitização, na sociedade de consumo, na sociedade do individualismo, onde eu separo o bem comum do meu interesse individual. E não deveria interessar essa dissociação, do meu interesse individual para me libertar… eu não tenho que entrar em contradição com o bem comum, tenho que conversar com o bem comum”, analisa.

Mobilizar a população chilena para sair de casa era um dos grandes desafios de Boric no 2º turno, de acordo com a maioria dos analistas políticos do Chile. Isso porque no 1º turno, o ultra-direitista José Antônio Kast terminou à frente do candidato da Frente Ampla, embora a diferença tenha sido de apenas 2,1%.

A participação popular era tão importante que logo no início da manhã surgiram denúncias em Santiago de que os empresários de transporte público haviam reduzido a frota em 50% para dificultar a chegada das camadas mais pobres nos locais de votação. Um dos líderes do movimento dos Trabalhadores Sem Teto no Brasil, Guilherme Boulos (PSOL) externou a crítica nas redes sociais:

Assim como no Brasil em 2018, a eleição no Chile em 2021 foi marcada por dois projetos políticos distintos de sociedade: um democrático, representado por Gabriel Boric, e outro autoritário e protofascista, personificado em José Antônio Kast, herança da ditadura de Augusto Pinochet, com quem sua família tinha estreitas ligações e ele mesmo é um admirador.

A ditadura de Pinochet durou de 1973 até 1990. Logo, com um candidato tão identificado com tempos de medo, violência e tortura, a maioria dos chilenos preferiu a democracia.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"