OPINIÃO

Quantos Alves cabem no projeto do PT para o RN ?

Na ressaca vitoriosa de 2018, após a eleição de Fátima Bezerra no 2º turno, o discurso majoritário dizia que o povo potiguar havia imposto uma derrota histórica às oligarquias no Rio Grande do Norte. De uma só vez, caíram Garibaldi Alves (MDB) e José Agripino Maia (DEM).

Rogério Marinho (PSDB), menos por representar uma família tradicional e mais pelo justo reconhecimento de “pai do desemprego no Brasil”, também naufragara. E embora tenha traçado um percurso político distante da família, Carlos Eduardo Alves (PDT) entrou na lista tanto pelo sobrenome como pela ousadia de usar Jair Bolsonaro como tábua de salvação no sprint final da campanha.

O problema é que, na política, não existe derrota nem vitória definitiva. E cá estão os Alves, mais uma vez, assumindo certo protagonismo nos debates sobre as chapas em formação para a disputa eleitoral de outubro. E com requintes de crueldade: podendo compor, desta vez, a chapa com o Partido dos Trabalhadores.

A dúvida que mais martela a cabeça de analistas políticos e da própria militância petista é se o comando do PT estaria disposto a “entregar” o Estado daqui a quatro anos aos Alves novamente só para “garantir” a vitória em 2022.

O questionamento tem uma razão de ser: o vice-governador de um eventual segundo mandato de Fátima é um potencial candidato ao Governo em 2026. A menos que se aposente da política, o natural é que a governadora, caso reeleita, renuncie em abril de 2026 para concorrer ao Senado. E com a caneta e a chave do cofre nas mãos, o vice assumiria o comando e governaria pelo menos até dezembro.

A vaga na chapa petista foi o cardápio principal de um jantar em Natal oferecido no final de agosto de 2021 e que contou com a presença de Garibaldi, Walter, Fátima e de um ilustre convidado: Luiz Inácio Lula da Silva que, ao que tudo indica, foi quem “esquentou” e serviu o prato a Walter Alves.

Não bastasse a insólita aliança com o MDB local, confirmada pelo chefe da Casa Civil Raimundo Alves, está em curso a costura de uma reaproximação entre o PT e Carlos Eduardo Alves. Perdido no xadrez político eleitoral, ora acenando para o Governo, ora para a Oposição, interessa ao ex-prefeito de Natal a vaga no Senado. Sem espaço e holofotes desde a derrota em outubro de 2018, Carlos voltaria à cena com oito anos de mandato e boas chances de viabilizar seu grande sonho: governar o Estado.

Em contrapartida, Fátima neutralizaria em tese parte da rejeição que o PT tem na capital e, de quebra, Ciro Gomes perderia o palanque no Rio Grande do Norte, onde Lula já tem quase 70% das intenções de voto.

E é sempre bom revisitar o passado.

A chegada de Lula à presidência da República em 2003 só foi possível também a partir de um rearranjo nas composições e alianças nos Estados, o que deixou lideranças estaduais do PT a reboque do projeto nacional.

Foi o que aconteceu no Rio Grande do Norte, quando os petistas foram obrigados a abrir mão da disputa pelo comando do Estado com Lula no Palácio do Planalto para apoiar Wilma de Faria, então estrela do PSB.

Não por acaso, a ascensão de Wilma e a consolidação do wilmismo em território estadual coincide com o voo e a evolução de Fátima Bezerra no parlamento federal, sempre ampliando votações e chegando a 2010 como a deputada mais votada da história do Estado, recorde nunca alcançado por nenhum adversário.

As duas, que alternaram embates e alianças, se reencontrariam como adversárias pela última vez em 2014, na histórica vitória de Fátima para o Senado.

A participação direta de Lula nas negociações estaduais para costurar a grande e ampla aliança capaz de derrotar Jair Bolsonaro nas urnas em outubro é sinal de que o PT potiguar pode precisar, mais uma vez, ceder espaço para aliados circunstanciais em nome de um projeto maior.

A história, aliás, foi muito cruel com o PT do Rio Grande do Norte, único Estado do Nordeste onde um petista não conseguiu governar com Lula ou Dilma na presidência da República.

Fátima foi consagrada nas urnas como a primeira governadora a ultrapassar a marca de 1 milhão de votos, mas teve no Governo Federal sempre um oponente, com tentáculos no Estado sentados em dois ministérios.

Com o favoritismo de Lula e de Fátima, segundo todas as pesquisas de intenção de voto até aqui, a história pode reservar um novo capítulo à professora Maria de Fátima Bezerra, que voltaria a ter trânsito livre no Palácio do Planalto, assim como tinha na época do Parlamento.

Mas para que isso aconteça, o PT precisará dos Alves ?

E quantos deles caberiam no projeto do PT para o Rio Grande do Norte ?

Não custa nada perguntar.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"