OPINIÃO

Quis evitar teus olhos

“Quis evitar teu olhos, mas não pude reagir…”, já dizia Lulu na famosa canção “Quando um certo alguém”. E olha que eu já tinha escutado sobre você, de como era especial, sua energia, sua personalidade, seu charme, e até ouvi falar do tanto que combinava comigo… Desde então, não faltaram convites pra te conhecer. Um casal de amigos me garantiu que te amar seria fatal. Falavam que em você havia uma tal troca onde tudo era permitido, o que deixava a ideia do encontro ainda mais fantástica do que poderia imaginar.

Mas foi num dia despretensioso, no fim de umas férias em que ninguém podia ir mesmo a lugar nenhum, devido ao surto de omicron, que eu finalmente cedi àquela vontade que sempre me atraiu: a de visitar Olhos D’água, vulgo zóin, lugar pertinho de Brasília, a cerca de uma hora e meia de estrada, num ponto fora da curva ali, na altura de Alexânia, em Goiás. E eis que numa manhã de domingo, lá fomos eu e minha amiga revolucionária Tânia, com um casal maravilhoso e singular: Lourdes e Hans. Todos conquistados nos treinos de funcional, no parque de Águas Claras, em Brasília.

Nem sei se o nome de Hans se escreve desse jeito, pois é suíço, mas acho que ele nem se importaria com a escrita, e sim em não se importar com absolutamente nada, já que foi educado exatamente. para isso. Quanto mais perto chegávamos de você, Zóin, mais dificil era nossa conexão com o mundo exterior, aquele que na verdade é interno, porque sinal de celular nunca foi abraço ou toque, e fica limitado às redes daquela tela que se alimenta da gente até exaurir a bateria de ambos: a nossa e a do aparelho.

E chegou um momento em que foi preciso usar todos os sentidos pra te econtrar, Zóin, menos o GPS, que esse nunca ajudou mesmo, quando de fato necessário. Fomos descobrindo, com os nossos olhos mesmo, já que sem qualquer sinal, o caminho até seu coração, que fica naquela vila em torno de uma igreja, onde você pulsa e reverbera luz, alertando aos desavisados que ali não vive apenas uma cidade, mas mora um povo hospitaleiro, repleto de cultura e pleno de tranquilidade.

Descemos do carro ansiosos por te conhecer melhor. Dei de cara com uma Variant, carro que marcou a minha vida toda, uma vez que meu pai nos trouxe de Natal para Brasília, os quatros filhos, na parte de trás de um modelo desses, que baixam o banco, como transformers, e que nos permitiram passar a viagem deitados em colchões, sem sequer cinto de segurança, numa época em que colocar quatro crianças assim num veículo não representava qualquer contravenção de trânsito. Vi outros dois modelos de Variant naquela mesma praça, super bem conservadas, que também me tiraram água dos olhos.

Entramos numa bodega e, para abrir os caminhos, provei logo 3 cachaças nesta primeira venda aberta ao lado do carro estacionado: Verga Tesa, Nó de Cachorro e Pau de Tenente. Todas maravilhosas, embora o vendedor as acusasse de leves, o que nem combina com cachaça. Chegamos na Menina dos Olhos já em êxtase, certos de que o passeio valeu à pena, mesmo que ainda no começo. Fomos recebidos pelo sorriso da dona da Menina dos Olhos, que é um convite pra querer ainda mais daquele lugar.

Seguimos pro bistrô da Chris, ao lado da pousada, onde a magia de Zóin continuou nos impactando de tantas formas, que não queríamos sair nunca mais. Experimentamos dos pães às geleias artesanais, todas feitas com muito capricho, sem contar toda a alma e história que envolveu a criação daquela iniciativa. Para resumir: mulheres lindas e incríveis dominam a porra toda ali, com amor e maestria, e estão prestes a fazer muito mais. Foi o que senti. Deixaram carreiras estressantes, de uma carga pesadíssima, e conseguiram vencer para além do “sistema”.

Mais tarde, naquele mesmo bistrô, a música me invadiu e trouxe Dona Cecília pra dançar comigo. Desculpe aí quem não sabe quem é Dona Cecília, mas ela é somente a maior personalidade de Zóin, e cara, eu tava dançando com ela, saca? Muita honra isso. Nem sei se eu mereço tanto. Meus amigos foram embora e eu não consegui deixar Olhos Dágua. A sensação era de que nos pertencíamos: Zóin e eu.

Depois, fomos todos pro Tenda (eu e outros amigos, que lá chegaram para me resgatar), onde rolava um sambinha derradeiro. Ainda visitei Dona Cecília, que possui um bar em frente à igreja (o que, só pelo simbolismo, já acho do caralho!) e, por onde passa, segundo defende, a linha do Tratado de Tordesilhas. Tomei lá mais uma dose de Verga Tesa, seguida de boa explicação de Dona Cecília de como a medida funciona pro seu marido. Pois não é que começamos uma amizade, gente? Ela está sim entre as minhas mais novas amigas de infância, oras!

E ainda que eu não tenha conhecido esse lugarejo em plena “Feira do Troca”, que tanto me recomendaram, foi nessa hora que esqueci de vez da necessidade de voltar pra casa, me jogando no sambinha do Tenda, numa esquina de Zóin, e dali em diante, até trocar os pés, quando então meus amigos me deram aquela carona de volta à realidade, que nem sei se agradeço ou reclamo. É que naquele momento senti que era preciso muito mais tempo pra aproveitar melhor cada pedacinho desse lugar, ao qual estou eternamente condenada a voltar quantas vezes ele me pedir, sem contar as vezes em que eu simplesmente quero e pronto.

Porque afinal, ninguém precisa mesmo voltar pra casa, quando já se sente nela, como num colchão fininho, mas cheio de história, onde dormem quatro irmãos, no banco de trás rebaixado de uma Variant.

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