Uma ode ao riso
Natal, RN 16 de jul 2024

Uma ode ao riso

22 de janeiro de 2022
5min
Uma ode ao riso

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A notícia pegou o senhor Honori-Atô de surpresa. Naquele ano, a celebração das festividades fúnebres em homenagem ao imperador morto vinha com o seguinte decreto:

Prezado e honrado povo da terra de Xuan Khan!

Fica decretado, a partir desta data e durante onze dias, em tributo aos onze anos de morte de nosso reverendíssimo imperador Xi Vão-Xão, que ficam expressamente proibidos os seguintes atos: ingerir ou vender bebidas alcoólicas; praticar atividades de lazer; rir ou provocar o riso. Aqueles que decorrerem em falta a este decreto pagarão com pena capital!

Tenho dito!

Sua máxima e venerável presença, o Imperador Xi Vão-Xin

O senhor Honori-Atô ouviu aquela notícia no rádio com certa apreensão. Todo ano, a população do pequeno país esperava com certo temor aquele fatídico mês de outubro, quando os cidadãos eram obrigados a reverenciar a morte do antigo imperador, pai do atual. E ai de quem não entrasse no clima de luto oficial e peremptório. Haveria de sentir a fúria
sanguinolenta do imperador. E não se sabe quem era mais sanguinário, o pai falecido ou o filho vivo.

O senhor Honori-Atô desligou o aparelho de rádio, pegou o guarda-chuva e saiu, trancando a porta do cômodo que ocupava no pequeno prédio do centro da capital. Caminhando pela calçada, pensava no dilema em que se encontrava.

Todas as noites, quando voltava para casa após as doze horas de trabalho na fábrica de relógios, se servia da sopa de legumes que trazia da rua e se posicionava em frente ao velho aparelho de TV, onde assistia antigas fitas de Charles Chaplin e Buster Keaton. Eram suas fitas de alegria! Por mais que fossem episódios reprisados centenas de vezes, o senhor Honori-Atô
divertia-se a valer, soltando gargalhadas ruidosas que podiam ser facilmente ouvidas na vizinhança.

E agora? O que faria ele naqueles dias de decreto? Ficar sem ver seus episódios de toda sagrada noite seria desorganizar totalmente sua rotina, ele ficaria perdido!

Seu Honori-Atô seguia assim pela rua, já sentindo uma ligeira aflição no peito, quando uma cena lhe chamou a atenção. Na barraca de comidas onde costumava comer seu desjejum, um outro cliente, ao pegar seu pedido, desequilibrou-se na calçada e caiu. Dois circunstantes ali próximos, ao verem a cena, não puderam se controlar e estouraram em espontâneo riso. Um
guarda municipal, por sua vez, vendo os dois rindo, encaminhou-se carrancudo para eles, apito já na mão em riste, mas os dois não contaram batata e saíram em disparada ladeira abaixo.

Aquilo só aumentou ainda mais a aflição de seu Honori-Atô. Se ligasse seu aparelho e visse suas velhas fitas de cinema mudo, não conseguiria controlar seu riso e certamente seria denunciado.

A primeira noite, seu Honori-Atô venceu com muita honradez. Nem tanto por pensar na honra do falecido a quem sua seriedade prestigiava, mas sim porque arranjou um livreto de palavras cruzadas e conseguiu se entreter até o sono chegar. A segunda noite, seu Honori-Atô também conseguiu driblar com maestria já que trabalhou duas horas extras e chegou em casa bem cansado, dormindo, portanto, bem cedo.

Na manhã do terceiro dia de decreto, seu Honori-Atô acordou um tanto melancólico. Ao sair para ir trabalhar, notou que a barraca de comidas não estava mais no lugar de sempre. Indagou com o olhar a dona da botica em frente, que se limitou a murmurar, dando de ombros:

– Riu demais...

Seguiu seu trajeto, com o semblante sério. Todos olhavam uns para os outros, como se à espreita de uma risadinha que fosse, algo que quebrasse aquele clima reinante tão taciturno. Mas, naquela atmosfera de terror pelos sussurros que corriam sobre as consequências do decreto imperial, nada parecia mesmo ter graça.

Quando chegou a noite do décimo dia, seu Honori-Atô já não aguentava mais aquela tortura.

Na TV, depois de tomar sua sopa, no único canal a que a população tinha acesso, a opção era um suplício só: algumas notícias oficiais e depois, com o hino grandiloquente do país, a programação se encerrava.

Seu Honori-Atô foi se deitar extremamente mal-humorado, praguejando mentalmente todos os piores palavrões contra a décima quinta geração do imperador morto. Rolou na cama até não aguentar mais e afinal decidiu-se: que diabos, faltava um dia só, ninguém haveria de denunciá-lo. E, além do mais, haveria de tentar controlar-se para não rir alto demais.

Animado, escolheu a primeira fita de Chaplin que lhe caiu nas mãos. Terminou de vê-la, como sempre, com os olhos marejando e a face vermelha de tanto apertar a almofada contra o rosto para silenciar as risadas.

Quando assistia às estripulias de Keaton em um trem, alguém bateu na porta.

Alvoroçado, desligou o aparelho e empurrou as fitas para baixo de um móvel. Permaneceu quieto e em silêncio, à espera. Mas bateram novamente e uma voz atrás da porta falou, com firmeza:

– Seu Honori-Atô, abra a porta, por favor!

Em um lapso, adivinhou tudo: a família do lado, com quem dividia o andar, certamente o denunciara. Então imaginou a prisão, as chibatadas e sabe-se lá mais que tipo de inferno viria...

Outra batida na porta, com mais força. Seu Honori-Atô suspirou resignadamente e se ergueu, abrindo a porta com cuidado e pronto para tudo.

Viu então quatro pares de olhos ansiosos, os olhos do pai, da mãe e das crianças que moravam ao lado, suplicando-lhe para assistir também às suas fitas de alegria.

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