OPINIÃO

Bolsonaro será a nova Micarla de Rogério Marinho?

Por Daniel Valença

Rogério Marinho é alguém que, na disputa política do país, antes de escolher em qual lado ficar, faz questão de identificar onde está o povo trabalhador. Sua escolha, então, passa a ser o lado oposto, como comprova sua relatoria da reforma trabalhista, a qual ele próprio atribui sua derrota eleitoral em 2018[1].

Pode-se acusá-lo de qualquer coisa, menos de não saber o lugar que ocupa na luta de classes. Em 2008, Marinho apoiou Micarla de Sousa para prefeita de Natal. Após a desastrosa gestão da ex-apresentadora, passou não apenas a dar respostas ensaboadas[2] quando confrontado com sua corresponsabilidade pelo abandono que a cidade passou durante seu governo, mas também a atribuir a Carlos Eduardo, seu adversário nas eleições de 2012, a chegada de Micarla ao Palácio Felipe Camarão[3].

É certo que Micarla despontou na vida política como vice de Carlos Eduardo nas eleições de 2004. O rompimento, porém, veio ainda durante seu governo. Antes de chegar à Prefeitura de Natal em 2008, ainda passou dois anos na Assembleia Legislativa. Evidente que o ex-prefeito tem sua cota de responsabilidade pela meteórica trajetória da filha do ex-senador Carlos Alberto de Sousa. Até porque, ao fim e a cabo, oligarquias sempre se entendem.

Foi também nas eleições de 2012 que Rogério Marinho defendeu a privatização do sistema municipal de saúde. Quando confrontado com os limites dessa proposta na melhoria dos serviços, respondia que a população não se importa se são prestados pelo poder público ou pela iniciativa privada, desde que funcionassem. Simplesmente ignorou que a precarização do trabalho por meio da contratação de terceirizados, temporários, etc, afeta a qualidade do serviço e que, quando a saúde vira mercadoria, é o lucro, e não a vida das pessoas, que passa a ser o seu principal propósito.

Ontem e hoje, Marinho é dado a mistificações e falseamentos. Em recente entrevista a Tribuna do Norte[4], despeja dados e faz juízos de valor sobre a chegada da transposição do São Francisco ao Rio Grande do Norte, como se não fosse uma obra iniciada e desenvolvida em sua maior parte nos governos petistas. O mais interessante é que o ex-deputado até cita isso, mas conclui que a obra fora “paralisada, procrastinada e interrompida por diversos motivos, principalmente pela falta de recursos, por denúncia de corrupção, por declaração e abandono de empresas até 2016”. É importante notar que 2016 é o ano do golpe contra Dilma Rousseff, recentemente reconhecido pelo ministro Barroso, e da entrada em vigor da Emenda Constitucional nº 95, a emenda do teto de gastos, que reduziu os investimentos em obras de infraestrutura, ao ponto dos mesmos chegarem ao menor nível desde 1947[5]. Diante desta realidade, o ministro de Bolsonaro se afunda em fantasias e diz que “o governo do presidente Temer retomou com força o processo”. A conta não fecha.

Logo em seguida, Marinho aproveita a deixa para emendar como o Novo Marco do Saneamento, que abre uma avenida para a privatização. “É maravilhoso”, sugerindo que o serviço prestado pelo Estado é ineficaz, enumerando lugares onde a privatização estaria em curso e indicando que a CAERN deveria seguir o mesmo rumo. Entre a vida real e devaneios privatistas, Marinho, claro, escolhe fechar os olhos para o fato de que capitais como Paris, Berlim e Buenos Aires tiveram péssimas experiências com a privatização das operações de água e esgoto[6]. A má qualidade do serviço, a pouca transparência e as altas tarifas contribuíram para que outras 265 cidades reestatizassem a administração do saneamento básico[7]. Nenhuma surpresa para quem integra um governo cujo último orçamento cortou R$ 40 milhões de ações e programas de saneamento para comunidades quilombolas, a quem Bolsonaro destina um desprezo particular.

Só quem não conhece a ficha de Marinho ficaria surpreso com ele, mesmo diante de todo esse histórico, ter se referido ao governo Fátima como um “pacto de mediocridade”, indicando estar articulando um grupo para lhe enfrentar nas urnas. Se sua pretensão é fazer um governo à imagem e semelhança ao do seu chefe, vai ter alguma dificuldade: enquanto o governo Bolsonaro é desaprovado por 53% dos brasileiros[8], no Rio Grande do Norte as intenções de voto do ex-presidente Lula ultrapassam os 50%. Bolsonaro, por sua vez, patina nos 21%[9]. Qual será a plataforma de campanha de Marinho? Abaixar o preço da comida, do gás e da gasolina que seu próprio governo elevou a patamares inéditos?

É evidente que para os bolsonaristas sempre resta a carta do negacionismo. Marinho, como neófito na turma, certamente abraçou o pacote completo, apesar de suas posições liberais já evidenciarem um pé fora da realidade. Não nos surpreendamos se em breve ele tente fazer com Bolsonaro o mesmo que fez com Micarla.

[1] https://oglobo.globo.com/epoca/expresso/ser-relator-da-reforma-trabalhista-atrapalhou-minha-reeleicao-diz-tucano-23142024

[2] http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/rogerio-diz-que-natal-cometeu-erro-ao-eleger-micarla-no-primeiro-turno/228907

[3] https://www.blogdobg.com.br/rogerio-marinho-carlos-eduardo-e-o-maior-responsavel-pela-atual-situacao-de-natal-ele-e-o-mentor-de-micarla/

[4] https://www.blogdobg.com.br/rogerio-marinho-carlos-eduardo-e-o-maior-responsavel-pela-atual-situacao-de-natal-ele-e-o-mentor-de-micarla/

[5] https://www.cnnbrasil.com.br/business/investimento-em-infraestrutura-esta-no-menor-nivel-desde-1947-e-deve-cair-mais/

[6] https://www.blogdobg.com.br/rogerio-marinho-carlos-eduardo-e-o-maior-responsavel-pela-atual-situacao-de-natal-ele-e-o-mentor-de-micarla/

[7] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40379053

[8] https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/12/17/datafolha-bolsonaro-53percent-reprovacao-22percent-aprovacao.ghtml

[9] https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/12/14/lula-tem-48percent-das-intencoes-de-voto-para-presidente-bolsonaro-tem-21percent-diz-ipec.ghtml

Daniel Valença é professor do curso de Direito da UFERSA e vice-presidente estadual do PT/RN

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Previous ArticleNext Article