Café mal coado: a violência nas relações cotidianas
Natal, RN 24 de jul 2024

Café mal coado: a violência nas relações cotidianas

18 de fevereiro de 2022
4min
Café mal coado: a violência nas relações cotidianas

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Relação interpessoal é um tema complexo. Relacionar-se é aproximar mundos que atualizam experiências boas e ruins a cada encontro. Conviver com o outro pode ser problemático ou tranquilo a depender de algumas variáveis. Uma delas é que as pessoas são diferentes e baseadas nessas singularidades reagem.

A expulsão de Maria do BBB trouxe junto algumas constatações. Ao tocar na colega de confinamento de maneira violenta, ela ultrapassou os limites da civilidade e causou a indignação de muitos. Há quem não perceba, mas existem marcos civilizatórios que intervêm nas relações interpessoais, organizando a sociedade e confirmando que evoluímos desde o homem de Neandertal. Ninguém mais precisa usar de força bruta contra o outro para garantir sua sobrevivência.

Natália, que sofreu a violência, minimizou a história. Tentou contemporizar pelo bem de uma pretensa harmonia. A própria Maria arrependeu-se, mas isso não foi o suficiente, porque não foi a primeira vez que ela se excedeu. A coletividade, representada pelos que foram às redes protestar, desejou reparação. Maria foi expulsa como exemplo.

Chama atenção o fato de que se trata de um programa de entretenimento. Os expectadores poderiam ter relativizado, banalizado, levado na brincadeira e certamente há os que pendem para esse lado, achando que resolve alguma coisa fazer de conta que não é grave machucar pessoas.

Natália sentiu essa dor no corpo e na alma. Sentiu também uma culpa que não tem. Vítimas não têm culpa. Vítimas não podem ser acusadas por serem agredidas. O subterfúgio, que costuma ser usado por quem agride, carece de ética porque não há justificativa para a violência, seja ela física, verbal ou psicológica.

Maria não fez isso, o que pesa a seu favor. Ela se desculpou e admitiu que tem algo errado em certas atitudes suas. Como psicóloga, interessa-me saber o que há com ela. O porquê desse impulso violento. Certamente há algo no passado (sempre há), para os sintomas manifestos no presente. Possivelmente também houve violência, mas não temos como saber e nem precisamos. É a própria Maria quem deve se haver com suas razões íntimas enfrentando o problema com a honestidade necessária.

Primeiro é preciso admitir o erro. Não há espaço para distorções e meias verdades aqui. Houve violência e muitos testemunharam. Seguir em frente sem essa admissão de culpa e sem a retificação necessária, traria para a relação dela com os demais, o sabor desagradável daquele café mal coado que sobra quase todo na xícara. Essa sobra anula todo o trabalho anterior: a escolha certa do produto, o tempo correto da fervura da água, a quantidade adequada do pó. Pior, anula o fruto desse esforço: o sabor incomparável da poção energética. Enfim, tudo inutilizado por causa de um defeito no filtro de papel.

A expulsão de Maria foi boa para ela. Protegeu-a de si mesma. Aqui, do lado de fora, terá a oportunidade de investigar suas motivações inconscientes, seus possíveis traumas, sua própria história. Uma Maria mais pacífica e madura surgirá disso, eu creio. Sim, acredito em Maria. Não a confundirei com uma psicopata ou com uma agressora contumaz. Há muita luz dentro dessa menina. Uma luz revolucionária que encontrará o escoadouro certo na palavra. Porque a palavra certa tem mais poder do que o grito, assim como o beijo promove mais mudanças do que o tapa.

Quanto ao café perdido, não há o que se fazer a não ser, um novo. Com filtro íntegro e maior cuidado. A isso chamamos “recomeço”, palavra linda que segue a mesma lógica do sol: renascer. O fruto será o líquido precioso e bem-feito que se degustará depois, nos intervalos das horas difíceis.

Escrevo sobre o assunto porque se a vida já é suficientemente desafiadora e incerta, a violência a torna trágica. Cuidemos disso com a atenção necessária.

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