Eudiane Macedo: “A presença de mulheres nos partidos, espaços de poder e mandatos eletivos é uma resistência”
Natal, RN 20 de jun 2024

Eudiane Macedo: “A presença de mulheres nos partidos, espaços de poder e mandatos eletivos é uma resistência”

20 de fevereiro de 2022
10min
Eudiane Macedo: “A presença de mulheres nos partidos, espaços de poder e mandatos eletivos é uma resistência”

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Deputada estadual que está no primeiro mandato, Eudiane Macedo, 41 anos, é natalense e considerada um nome em ascensão na política potiguar. Criada e até hoje residente na Zona Norte de Natal, era comerciária e iniciou na trajetória política com o ativismo de bairro e se candidatando em 2008 a vereadora em Natal pelo PDT, obtendo 947 votos e não conseguindo ser eleita. Em 2012, candidatou-se novamente para Câmara Municipal, desta vez pelo PHS e foi eleita com 2.078 votos. No ano de 2016, foi reeleita para o cargo com 4.922 votos já pelo Solidariedade. Em 2018, migrou para o PTC e foi eleita deputada estadual com 23.448 votos. Em 2019, rompeu com o PTC e filiou-se ao Republicanos, onde está e por onde vai disputar reeleição. Eudiane é identificada com a Zona Norte e costuma ter seu nome lembrado para disputar a Prefeitura de Natal. Em conversa com a agência Saiba Mais, a deputada falou sobre sua trajetória, bandeiras do mandato, política e projetos. Confira:

De vereadora eleita e reeleita em Natal, em sua primeira tentativa para a ALRN foi eleita deputada estadual. Como avalia a sua trajetória política e como avalia o seu mandato?

Nada foi fácil. Às vezes olho para trás e vejo o quanto eu precisei, acima de tudo, acreditar que seria possível. Porque sou moradora de comunidade e não sou de família tradicional na política. Minha vida toda foi trabalhando no comércio, desde os meus catorze anos, no Alecrim, na Cidade Alta, lojas de shoppings e depois no ramo de supermercados. Meu objetivo quando decidi ser candidata a vereadora era ser porta-voz de uma região tão esquecida que era a Zona Norte porque o que a gente via eram os políticos indo a cada quatro anos pedir votos e depois desaparecerem. Sem vaidades, posso dizer que a imensa maioria das comunidades da Zona Norte, principalmente os loteamentos, foram citados em plenário pela primeira vez por mim. A minha trajetória tem sido construída com muita dedicação e trabalho, provando diariamente a alguns colegas que não estavam acostumados a conviver com um perfil como o meu, principalmente agora na Assembleia Legislativa, que sou capaz, que mereço respeito e que faço um mandato digno. Fui e sou subestimada várias vezes, mas isso me dá força para seguir.

Qual sua expectativa para a eleição deste ano? Quais os seus projetos políticos e quem deverá apoiar?

Minha expectativa é ser novamente candidata a deputada estadual pelo trabalho que temos conseguido fazer na Assembleia Legislativa. Em relação a partido e apoios, estamos passando por um momento de muita conversa e também ainda de bastante indefinição. Junto com meu grupo, estou conversando, avaliando com calma todas as possibilidades e espero poder anunciar minhas decisões em breve.

A senhora é ligada politicamente à Zona Norte de Natal. Como observa as políticas públicas para aquela região e qual a avaliação que faz da atual gestão municipal no tocante à ZN?

A Zona Norte é a região mais populosa da nossa cidade, mas bastante esquecida ao longo dos anos. É uma área aonde os poderes públicos chegam com muita dificuldade. A cobrança e a insistência fazem parte da minha rotina. Eu sei que muitas vezes sou tachada de chata, mas não me importo. O pró-transporte está aí para provar. Uma obra que se arrasta há mais de 15 anos sem perspectiva de ser totalmente concluída. A urbanização integrada, para drenagem e pavimentação de mais de 400 ruas, saiu depois de anos, de muita luta nossa. A atual gestão municipal tem deixado muito a desejar, principalmente em relação aos transportes públicos e à recuperação das vias. Para você ter uma ideia, temos solicitado insistentemente nos últimos dois anos a recuperação de várias avenidas da Zona Norte, incluindo a principal avenida do bairro Lagoa Azul, a Bela Vista, anel viário por onde passam os transportes públicos, enviamos inclusive ofício ao Ministério do Desenvolvimento Regional pedindo a liberação de quase 4 milhões de reais para essas obras. Mas até agora nada.

Quais as pautas e bandeiras que seu mandato vem defendendo na Assembleia Legislativa?

Nosso mandato tem um perfil popular, pé no chão, de atuação no plenário, mas também na rua, nas secretarias nos bairros de Natal e nos municípios do nosso Estado. Algumas bandeiras se destacam como a habitação, seja a construção de casas populares sejam as escrituras públicas. Nosso mandato teve papel importante no resgate dos recursos do programa Pró-Moradia que estavam praticamente perdidos. Foram reuniões na Superintendência da Caixa aqui, depois reunião na Secretaria Nacional de Habitação, em Brasília, e hoje vários municípios estão sendo contemplados com a construção de casas populares.

"A defesa dos direitos das mulheres, idosos e crianças, da comunidade LGBTQUIA+, a cultura, principalmente o movimento junino e, nos dois últimos anos, em razão da pandemia, temos destinado a maior parte das nossas emendas para ações em saúde em Natal e no interior"

. Temos leis importantes de nossa autoria, como a Lei que determina a afixação de cartaz informativo sobre importunação sexual nos transportes públicos do Estado, a Lei Escolas Abertas permitindo aos grupos culturais e esportivos a utilização das escolas estaduais para ensaios e reuniões, o pagamento com cartão de crédito e de débito das contas da Caern, a Lei que obriga as empresas a informarem previamente aos consumidores os dados os funcionários que executarão visitas técnicas. Temos também projetos de lei importantes como o que institui o Programa Transcidadania e o que institui a campanha “Idosos órfãos de filhos vivos” sobre os cuidados e responsabilidades que devemos ter com nossos idosos.

Fala-se com frequência que a senhora pode disputar a Prefeitura de Natal. É uma possibilidade para 2024?

Fico feliz em ver meu nome sendo lembrado. Interpreto como sinal de que nosso trabalho está sendo aprovado. Eu que entrei num parlamento pela primeira vez quando fui eleita para o primeiro mandato de vereadora, que estudei a vida inteira em escolas públicas e nunca tinha estudado sobre política. Fui com a cara e a coragem, pelo sentimento que tinha de não me sentir representada e de querer fazer diferente. Acredito que toda pessoa que está na política, ou que não está, mas que ama sua cidade, tem esse desejo de trabalhar, de fazer a diferença por sua cidade. Comigo não é diferente. Eu digo muito que tudo na minha vida foi e é permissão de Deus. Também não faço política sozinha. Sou uma pessoa de grupo e tenho muito a aprender e a amadurecer dentro da política. A eleição que está na ordem do dia é a deste ano. Até 2024 há muito que acontecer. Seja como for, qualquer projeto abraçado por mim, é e será sempre encarado com muita responsabilidade.

Como observa o tratamento que o poder público dá a população de conjuntos e loteamentos? E como resolver o problema da falta de escrituras públicas para muita gente que mora de maneira não regularizada?

O governo Fátima Bezerra, com a parceria do nosso mandato, tem executado por meio da Companhia Estadual de Habitação um grande programa de regularização fundiária com a entrega de forma gratuita de escrituras públicas a famílias que de outra forma não teriam condições de arcar com os custos. São 25 mil imóveis que estão sendo regularizados em todo o Rio Grande do Norte, sendo 11 mil somente em Natal e a maioria na Zona Norte. Por ser moradora de comunidade e conhecer essa realidade de perto, desde 2019, nosso mandato realizou audiências públicas em Natal e no interior, estive também na Secretaria Nacional de Habitação, em Brasília, diversas vezes, para tratar desse assunto, destinamos emenda parlamentar. Enfim, a escritura pública é o documento que dá segurança jurídica às famílias que passam a ser proprietárias de fato e de direito de seus imóveis, podem deixar para seus filhos. E fico muito feliz em ver esses sonhos sendo realizados, as pessoas, muitas delas idosas, emocionadas em receber suas escrituras.

Em que campo político-ideológico a senhora se coloca? Como vê a polarização da política no Brasil atualmente?

Venho de uma parcela da população majoritária no nosso país que não teve letramento político, que concentra suas energias em sobreviver, em trabalhar para se sustentar e sustentar a sua família. Quando entrei na política, como disse, sempre tive em mente que nosso mandato seria uma forma de dar voz às comunidades, a essas pessoas que, assim como eu, até então, não se viam parte do processo político, de lutar pela concretização de políticas públicas que trouxessem dignidade, que reduzissem as desigualdades sociais. Agora na pandemia muitos olhares se voltaram para essas realidades. Mas até então, quem não mora ou não frequenta os loteamentos, as comunidades mais afastadas do centro, não faziam a menor ideia ou não queriam ver a realidade dessas pessoas.

"Sou uma progressista, que entende que o maior problema do nosso país é essa concentração de renda absurda e que precisamos lutar por dignidade para todos que passa pelo acesso a uma educação pública de qualidade, saúde, cultura e educação"

. A polarização é parte fundamental da democracia. O problema é quando o debate se torna raso, sem argumentos, quando faltam o respeito e o espírito público.

Como observa o espaço político para as mulheres atualmente? Considera o mundo político um lugar machista?

Com toda a certeza o mundo político é machista. Esse machismo se manifesta de forma sutil e também em situações mais explícitas. Nós mulheres, não só na política, mas em vários ambientes, precisamos algumas vezes nos fazer de desentendidas. Mas não podemos deixar de nos posicionar. E fiz isso algumas vezes, seja confrontando, expondo mesmo, diretamente em situações comigo ou para defender outras vereadoras e deputadas. Quando falo nas sutilezas me refiro, por exemplo, à falta de banheiro feminino no plenário da Câmara de Natal quando cheguei lá em 2013, na licença maternidade que não tive direito quando tive o meu primeiro filho porque fui a primeira vereadora a engravidar no exercício do mandato. Essa foi sem dúvidas uma das maiores violências que já sofri. Com 30 dias estava de volta aos trabalhos no plenário, tendo que levar meu filho recém-nascido para o gabinete, meu leite secou por causa do estresse. Depois apresentei projeto de Resolução para incluir a licença maternidade no Regimento Interno da Câmara e, depois de muita dificuldade, foi aprovado. Tudo isso por quê?

"Porque o espaço Legislativo não foi feito para ser ocupado também por mulheres"

. A nossa presença nos partidos políticos, nos espaços de poder, nos mandatos eletivos é resistência e é ao mesmo tempo uma forma de encorajar outras mulheres, de mostrar que precisamos estar nesses lugares, pensar em políticas públicas para nós mulheres e dar voz às nossas demandas.

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