OPINIÃO

Pra quê motivo?

Como sempre, me acusaram de vermelha demais, cor que adquiro em menos de 10 minutos, ao fazer qualquer tipo de exercício físico. Informei que se tratava de uma condição de nascença, pois minha sina sempre foi ser comunista. Uns riem, outros não entendem, mas a maioria nunca mais me dirige a palavra, sabe-se lá o porquê. Foi a primeira vez, no entanto, que me identificaram como livre e feliz, mesmo de máscara, que virou um vício meu, apenas pelo fato de estar dançando, quando ninguém mais ousou fazê-lo, e como se ninguém estivesse olhando.

“Eu danço, porque o instante existe, e a minha vida está completa. Não sou alegre, nem sou triste. Sou poeta”, tudo bem que o poema da Cecília Meireles, intitulado Motivo, começa com “eu canto”, é verdade, mas roubei apenas parte dele porque tenho certeza de que ela consentiria no uso dessa estrofe pra crônica que começo agora, mesmo eu não sendo nem de perto a poeta que ela é, porque a poesia tem esse poder de atravessar as vidas, as pessoas, os tempos, e espaços, e de se transformar exatamente naquilo que a gente mais precisa, no momento mais certo.

Assim também é a dança, para mim. E quem me vê dançando, não precisa de qualquer justificativa, nem de nenhum motivo. Entende a importância daquele exercício diário de liberdade, desde quando fecho os olhos, até o instante em que o corpo se movimenta quase que involuntariamente, levado por cada acorde, que acho que se chama assim porque vai mesmo acordando pedaço por pedaço da gente, igualzinho uma poesia. Um amigo apelidou carinhosamente o movimento de “a dança da rôla”. Não me senti ofendida, absolutamente. Gostei pra caralho, se me permite o trocadalho do carilho.

Fato é que quem me conhece, sabe, e quem não me conhece, suspeita, que “dançar como se ninguém estivesse olhando” é dos meus prazeres preferidos. Faço isso até em casa, sozinha, com ou sem música. Já dancei em posto de gasolina, em rodoviária, fora os inúmeros bares da vida. Mas alguns lugares ficam marcados para sempre em nossa memória, como quando eu dançava pros meus pais, com minha filha pequenininha, devia ter uns 3 ou 4 aninhos, na garagem da nossa casa, em Natal, cujo jardim estava exposto aos vizinhos, que assistiam ao show dos prédios ao redor do local, e aplaudiam, inclusive.

Protagonizamos belos musicais ali, Marina e eu, num período em que eu fazia dança de salão, e ela me acompanhava, com passos que iam muito além dos aprendidos nas aulas, porque nascem de dentro, daquela vontade incontida de expressar amor imenso, que nem sei ser diferente disso, e quanto mais com minha filha, na garagem da casa dos meus pais. Talvez isso tenha feito com que ela imaginasse mesmo que a vida dela era um musical, porque não foram poucas as vezes em que a flagrei dançando em corredores de supermercados ou shoppings centers, enfim, onde quer que existisse música ambiente.

Nesses tempos pandêmicos, a dança andou proibida por um bom período, ao menos em locais públicos. Não deixei de dançar, claro. Só que dançar na intimidade do nosso lar não possui a mesma intensidade de uma dança no meio do povo todo; não tem, absolutamente, a força de uma ciranda, por exemplo. Ou daquele tal de carnaval (lembram disso?), eternamente adiado.

Por isso que, depois de tomar o reforço da vacina, viajei em férias com esse intuito: de sair dançando o máximo que eu conseguisse, e o fiz em Natal, no Bardallo´s, em uma noite icônica e histórica, de encontros incríveis, e em Pipa, no Mikroponto, com amigos que entendem essa minha “necessidade”. Nem as ladeiras do Pelô foram poupadas, em Salvador. E findei sambando, ainda, num domingo derradeiro, na cidade de Olhos Dágua, lugar pertinho de Brasília, que eu precisava conhecer.

De volta a Brasília, os planos de dançar precisaram ser adiados devido ao surto de omicron, que atingiu também minha filha, diagnosticada com Covid-19 na manhã de 19 de janeiro, dia que cheguei, à noite, o que me deixou com mais saudades ainda do abraço dela, que se manteve em isolamento até essa semana. Por desencargo de consciência, ao voltar, fiz testes de Covid-19 e Influenza, afinal passei muitas horas em avião e em ônibus, além da galera que encontrei, e alguns acabaram positivando. Por sorte, daquelas bem maiores do que ganhar a mega da virada, os exames deram negativos!

Mas neste último sábado, acordei com uma vontade danada de absurda de comemorar a vida, e, mesmo contra todos os protocolos de segurança, me joguei no melió lugar de Águas Claras, em frente ao meu apê: Pipe Line, onde tava rolando um acústico do Gedai, amigo que, sozinho, já é um show. Cheguei a perguntar aos donos se algum decreto havia proibido a dança, afinal sabe-se lá o que houve enquanto estive fora, né? Quando lá pras 16h descobri que nada me impedia de exercer esse ato de resistência, iniciei meu movimento solitário, que acabou, aos poucos. contagiando os que ali estavam, até virarmos uma coisa só, como a ciranda que sempre desejei.

E embora sinta que uma nuvem de desesperança insista em soprar nessa terceira onda, quando dancei neste sábado, entendi o que o recado do Raul Seixas já dizia: “Eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva…Pois a chuva voltando pra terra, traz coisas do ar. Aprendi o segredo, o segredo, o segredo da vida. Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”.

Porque dançar tira meu medo de qualquer coisa: de ter Covid a ser feliz. O grande lance é não ser essa tal “pedra que chora sozinha no mesmo lugar”. Afinal, o movimento é tudo. Já dizia meu amigo que tanto valor deu à “dança da rôla”, que jamais vou cansar de dançar…

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