Vídeo: Apresentador do RN critica greve e diz que professores ficaram “coçando o saco” na pandemia; categoria lamenta uso de TV para desinformar
Natal, RN 30 de mai 2024

Vídeo: Apresentador do RN critica greve e diz que professores ficaram "coçando o saco" na pandemia; categoria lamenta uso de TV para desinformar

16 de fevereiro de 2022
7min
Vídeo: Apresentador do RN critica greve e diz que professores ficaram

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Ao criticar a greve dos professores da rede estadual de ensino no Rio Grande do Norte, o apresentador Cyro Robson, do programa policial “Patrulha da Cidade”, da TV Ponta Negra (afiliada SBT), afirmou que os professores passaram dois anos e meio sem dar aula, mas recebendo os salários em casa.

Em alguns momentos, o apresentador, que também é conhecido pelo apelido de "Papinha", chega a usar palavras de baixo calão para desqualificar o movimento grevista.

Passamos dois ano e meio sem aula, sem a criançada ir para a escola. Aí o governo determina ‘agora vamos voltar às aulas’, e os professores empurrando com a barriga porque disseram ‘a gente só vai voltar pra sala de aula quando tiver concluído as duas doses’. Já tomaram três e já tá perto da quarta e vocês empurrando, ganhando em casa! Coçando o saco, os que têm, os que não têm tá coçando a xereca!”, afirmou Cyro Robson, durante a transmissão ao vivo do programa, que está entre os mais vistos em sua faixa de horário no RN.

A afirmação de Cyro Robson foi duramente criticada pela direção do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Rio Grande do Norte (Sinte/ RN), que apontou a falta de conhecimento do apresentador, tanto da proposta do Governo, quanto da realidade da rotina dos professores do ensino público.

Mais uma fala de total desconhecimento sobre o nosso trabalho e de desserviço à população. O jornalista está desinformado ao dizer que o Governo do Estado vai pagar o reajuste dos 33,24%. Esse fato não é verídico porque a proposta não comtempla o reajuste para todos os professores ao longo de 2022. A proposta não tem retroativo, foi oferecido 13% apenas para os servidores que estão do meio para o final da carreira. Então, temos uma proposta incompleta. Ele divulga uma informação errada que desinforma a sociedade acerca das motivações que nós temos para fazer a greve", lamentou Bruno Vital, Coordenador-Geral do Sinte/ RN.

Apesar de terem retomado as aulas no primeiro dia do ano letivo de 2022, na última segunda (14), as aulas acabaram sendo suspensas no dia seguinte porque os professores recusaram a proposta do Governo para implantação do reajuste do Piso nacional, que é de 33,24%.

“Eu vou esculhambar mesmo porque quem paga é a criançada que está em casa, desaprendendo a ler e escrever corretamente! O Governo do Estado disse que vai dar os 33,24%, mas de forma escalonada, ou seja, até dezembro. Qual é o problema? É porque vocês querem fazer greve como fazem todos os anos, mesmo com ou sem pandemia. Tá no calendário anual de vocês. É um calendário cultural de professor fazer greve todo início de ano. Ponto zero pra vocês!”, acrescentou Cyro Robson.

A rede estadual conta, atualmente, com aproximadamente 15 mil professores em todo o estado. As aulas presenciais, assim como nas redes municipal e privada, foram suspensas em março de 2020 por causa da pandemia da covid-19. Mas, durante todo esse período, as aulas foram mantidas no formato virtual, o que gerou uma grande sobrecarga de trabalho para a categoria.

"As professoras e professores da rede estadual são verdadeiros heróis por terem sustentando com seus próprios recursos, sem nenhuma ajuda do governo, sem nenhuma mobilização desse mesmo jornalista, para que eles pudessem dar acesso aos estudantes às aulas remotas. As escolas particulares estiveram por um período de tempo significativo fechadas e seus estudantes tinham recursos para acessar às aulas e dar continuidade a seus estudos, o mesmo não aconteceu nas escolas públicas. Não vimos nenhum pronunciamento desse jornalista no sentido de dizer que os estudantes precisavam ter seu direito às aulas remotas garantido. Muito pelo contrário, ele reforçou o discurso de criminalização e culpabilização dos professores e fez um debate por um retorno inseguro dos profissionais às escolas, mesmo que a vida deles estivesse em risco. Repudiamos essa forma de falar, esse discurso difamatório de quem não conhece a educação pública e os esforços que são feitos, inclusive com investimentos individuais dos professores, para garantir que as aulas possam acontecer", criticou Bruno Vidal.

O Governo do Estado disse que pagaria o reajuste de 33,24% até dezembro em um modelo escalonado, porém, o pagamento fica condicionado à aprovação do TCE (Tribunal de Contas do Estado) e do TRE (Tribunal Regional Eleitoral do RN) por causa da legislação eleitoral.

Não tô defendendo o Governo do estado não. Nem na governadora eu votei, mas o Governo tá certo nesse negócio. A aula era pra existir pra criançada, pra todo mundo na rede estadual de ensino e vocês ganhando em casa! Revoltado com essa fuleragem de vocês”, finalizou o apresentador, se dirigindo aos professores em greve.

"Tivemos um período de muitas dificuldades, de sobrecarga de trabalho enorme para atender às famílias e fomos nós que custeamos esse atendimento, não foi governo nenhum que pagou por essa conta, foram os professores. Enquanto isso, alguns jornalistas estavam confortavelmente em seus programas criticando e se passando por protetores e defensores da sociedade, enquanto os professores atendiam os alunos e suas famílias que ligavam a qualquer hora do dia, na tentativa de garantir alguma aprendizagem. Se hoje a rede estadual deflagra greve, essa responsabilidade não é dos professores, é do Governo que não se organizou para garantir o direito da categoria. Exigimos e merecemos respeito! Consideramos que esse apresentador faz um papel que não é de jornalista, inclusive, nem procurou ouvir os professores para que pudéssemos nos expressar, que é uma coisa que o jornalismo sério deve fazer e ele não fez. Ele vai usa os meios de comunicação e a visibilidade que ele tem para espalhar uma inverdade sobre os professores da rede estadual", acrescentou o Coordenador do Sinte/ RN.

Cyro Robson no programa Patrulha da Cidade

A proposta

A proposta do Governo do Estado para pagamento do piso ainda em 2022 fica condicionada a um acordo firmado com o Tribunal de Contas do Estado e com o Tribunal Regional Eleitoral, já que a legislação eleitoral proíbe alterações salariais nos três meses anteriores e posteriores às eleições.

Pela proposta, o Governo aplicaria o percentual de 33,24%, a partir de janeiro, para quem recebe menos que o piso, valor equivalente a R$ 3.845,63 proporcional a 30h. Esse grupo conta com cerca de 8 mil servidores. Em relação ao percentual para aqueles que não foram contemplados com o piso, será aplicado para ativos, inativos e pensionistas, da seguinte forma: para os servidores que recebem valor inferior a R$ 3.843,63, serão aplicados percentuais que variam até 33,24%, de forma a garantir o Piso Nacional, a partir de janeiro de 2022. E, em março, 13% para todos que não receberam aumento em janeiro/22. Em dezembro, o complemento dos 33,24%. E, parcela variável entre 0% e 17,91%, a depender da parcela recebida em janeiro ou março.

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