OPINIÃO

A Ditadura revivida na Ordem do Dia de Braga Netto

Num governo nitidamente ancorado em práticas de natureza fascista, comandadas por uma pessoa desqualificada e violenta, não haveria de se esperar que fosse composto por pessoas que tivessem alguma qualidade que as destacassem. Além disso, o presidente que sempre festejou efusivamente o GOLPE de 1° de abril de 1964, que os militares até hoje chamam de “revolução” e que já fez inúmeras reverências a torturadores, enfiou milhares de militares nas instâncias burocráticas para, serei duro, comprar seu apoio ou o seu silêncio obsequioso, já que este governo simplesmente vendeu o país e se ajoelhou vergonhosamente a Washington, fez sair das casernas o velho e venenoso “partido militar”.

O atual ministro da Defesa, o senhor Braga Netto, não foge a essa regra. Alguns o chamam de “general de fancaria”, termo pejorativo que mostra a qualificação da sua atuação, mas acredito que ele está além dessa desqualificação. É, de fato, uma figura patética, acoloiado ao projeto autoritário, sem nenhuma desfaçatez, e ao escrever (suponho) a Ordem do Dia em que o Exército INSISTE, de maneira ILEGAL, em lembrar o tal “31 de março”, realça sua linha golpista. Braga Netto repete o ritual de ode a um GOLPE MILITAR, contrário a qualquer regime democrático.

O texto pretende, de forma pretensiosa, recolocar as forças armadas como protetores da democracia, chamados, para “pacificar o país”. São as mesmas forças armadas que deram um Golpe em 1937, criando uma mentira histórica, o Plano Cohen; depuseram Vargas em 1945; chafurdaram o segundo governo Vargas, ameaçando de Golpe, o que fez o clima político tornar-se cada vez mais tenso, o que levou ao suicídio de Vargas ; que deu um “golpe constitucional” contra Café Filho; que promoveu levantes no governo Kubistchek; que impediu um vice-presidente de tomar posse e impôs um parlamentarismo mambembe; e que, enfim, perpetrou um golpe militar. Chegar a ser morbidamente engraçado Braga Netto anunciar esse “movimento” como “pacificador”.

A Ordem do Dia deste 31 de março, insulta a nossa inteligência ao afirmar que os golpistas refletiam “as aspirações da população da época”. Só faltou afirmar que os tanques foram recebidos pelos trabalhadores com flores. Obviamente, como qualquer general forjado no pensamento da velha escola estadunidense, Braga Netto não reconhece o fato singelo que foi por causa da URSS que a máquina de guerra nazista foi derrotada. Provavelmente a fonte histórica utilizada pelo general foi o velho almanaque “Seleções”. A história ensinada nas casernas brasileiras são, ao que parece, baseadas em livros forjados à época da Ditadura.

Braga Netto e sua Ordem do Dia desse ano são um apelo à ignorância, embora seja certo que os ávidos leitores desse patético texto, estão localizados na caterva bolsonarista e nos velhinhos que usam seus velhos uniformes, cheirando a naftalina, para se fantasiar de “guerreiros da liberdade”.

Eu tenho que destacar um parágrafo dessa Ordem do Dia, para que todos os DEMOCRATAS vejam o que esse cidadão representa:

“os anos seguintes ao dia 31 de março de 1964, a sociedade brasileira conduziu um período de estabilização, de segurança, de crescimento econômico e de amadurecimento político, que resultou no restabelecimento da paz no País, no fortalecimento da democracia, na ascensão do Brasil no concerto das nações e na aprovação da anistia ampla, geral e irrestrita pelo Congresso Nacional.”

Além de uma infâmia, a Ordem do Dia reconstrói a história sob a égide de um delírio. A estabilização e crescimento econômico deixaram o legado de um país quebrado e endividado; a segurança era na ponta da baioneta e no silêncio opressor; o amadurecimento político foi o de enfiar o país numa ditadura que durou 21 anos e que destruiu toda uma geração de jovens, que poderiam ter desempenhado algum papel na vida política do país. Foi na DITADURA que a corrupção foi institucionalizada. Além disso coloca os golpistas e ditadores como elementos que promoveram a anistia.

Essa Ordem do Dia tem o fedor da Ditadura. Tem o mofo saudosista. Tem uma ameaça velada à sociedade civil organizada, na medida em que autodeclara os militares como tutores dessa democracia manca, estabelecida pela Constituição cidadão, que os militares parecem ter um ódio visceral.

Espero que um dia nossa democracia, que será recuperada, exija que os militares sejam efetivamente partes de um Estado democrático e não como jagunços de qualquer presidente. Que sejam defensores da Nação e não tutores de uma democracia.

As forças armadas não podem ser comandadas por um grupo de pessoas que se neguem a reconhecer o CRIME HISTÓRICO cometido 1964. Esses “anjos da liberdade” foram GOLPISTAS. Foram promotores da derrocada de uma experiência democrática. Não caberiam e não cabe às forças armadas serem ou não favoráveis a qualquer governo. Não poderiam e não podem OPINAR sobre o quadro político.

Um dia novamente seremos uma democracia.

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