OPINIÃO

A Ponte já tem nome

Por Sheyla de Azevedo*

Câmara Cascudo, indubitavelmente é a maior expressão em pesquisa folclórica, etnográfica e antropológica do Rio Grande do Norte. Seu nome ultrapassou as fronteiras e seus livros são referência nacional. Ele nasceu em 1898, quando o século XIX dobrava a esquina para o século XX passar. Já Newton Navarro nasceu em 1928, numa casa que cedeu espaço aos estabelecimentos comerciais na Avenida Rio Branco. Trinta anos separavam o nascimento de um para o outro. Mas a diferença de idade não impediu que se tornassem grandes amigos. Isso é público e notório. E eu fico a imaginar o que pensaria o amigo Cascudo -se ainda vivo estivesse – sobre a esdrúxula proposta do deputado estadual Coronel Azevedo, em retirar o nome de Newton Navarro da Ponte construída pela então governadora Wilma de Faria que, à época, acatou com muita serenidade a sugestão dada por dona Salete – viúva de Navarro – que em sua árdua luta em homenagear o marido, conseguiu angariar a simpatia e o endosso do Conselho Estadual de Cultura, de artistas e de intelectuais do Estado para que, o natalense Newton Navarro recebesse a homenagem que merecia.

Quem estava nas redações de jornal, como eu, naquela época se lembra bem que houve uma série de escândalos envolvendo aquela ponte. A primeira empresa contratada chegou a erguer algumas estruturas que dariam sustentação à via que ligaria os pedaços leste e norte da Cidade. Mas foram detectadas irregularidades técnicas e contratuais e teve de ser feita nova licitação, novas contratações e, enfim, quando dona Wilma de Faria, a bordo de um rebocador, assinou meses antes da obra ser entregue, no final de 2007, o decreto que denominava sua grande obra “Ponte de Todos – Newton Navarro”, aquela notícia agradava aos ouvidos da elite intelectual e política do Estado. Afinal, era uma justa homenagem a quem tanto amou o Potengi e o povo natalense, e a quem mais e melhor escreveu sobre aquelas paragens:

“Bem atento, o indagador solitário, entretanto, vai aos poucos descobrindo no tempo acinzentado do crepúsculo, que a noite caminha com pés de água, sobre o dorso do rio. O Potengi é transporte, caminho, caminheiro, estuário, leito, vítreo tapete, espelho onde a noite-mulher vai mirando e remirando seu rosto de beleza para poder entrar, coroada de estrelas, nos amplos e altos terraços da Cidade”.

Retirei esse pequeno trecho do livro Beira Rio, escrito por Newton Navarro em 1970, no qual todos os textos são homenagens ao grande curso de água que divide Natal em duas.

Eu poderia pedir a benção a Newton Navarro e encher esse artigo de trechos líricos da fina flor de sua pena literária. Mas preciso seguir adiante para falar de minha total indignação por uma proposta tão estapafúrdia como é essa. Por princípio, porque uma “desomenagem” é sempre algo que causa constrangimento a alguém. Neste caso, à Natal inteira pois, Newton Navarro é um natalense da gema, um dos mais renomados artistas plásticos e um dos maiores escritores que por aqui nasceu. Como alguém ousaria retirar uma homenagem a um homem que tanto amou sua terra? Que teve tantas chances de ganhar o mundo, de fazer carreira internacional – Newton passou uma temporada no Rio de Janeiro, em Paris (França) e Buenos Aires (Argentina); expôs em Lisboa (Portugal) – só para vocês terem ideia – e sempre voltava para Natal, por se considerar um provinciano incurável. Como alguém em sã consciência comete o disparate de querer retirar o nome de Newton Navarro daquela construção, tendo sido ele um desbravador de espaços artísticos? O único natalense a participar do 1º Salão de Arte Moderna do Recife, em 1948? Sendo ele frequentador do ateliê do grande artista Hélio Feijó? Tendo sido o responsável pelo 1º Salão de Arte Moderna do Rio Grande do Norte, entre o final de 1948 e início de 1949, com apenas 20 anos? E, em seguida, junto dos amigos Ivon Rodrigues e Dorian Gray, promoveu o 2º Salão de Arte Moderna do Estado, no mesmo ano em que adapta o conto O Muro, de Sartre, para o teatro?

Quem conheceu Newton sabe que ele era um inquieto. Um artista realizador e um inconformado com as injustiças sociais e humanas. Em 1961, Newton fez parte da equipe da amiga Mailde Pinto, que estava à frente da Diretoria de Documentação e Cultura do prefeito Djalma Maranhão. Ela o via como uma mente privilegiada para elevar a cultura popular e levar leitura aos bairros mais carentes. Juntos, criaram a Galeria de Arte, que foi instalada na Praça André de Albuquerque e fizeram parte do projeto De Pé no Chão Também se Aprende a Ler. Em 1962, Newton cria e funda a Escolinha de Arte Cândido Portinari, filiada à Escolinha de Arte do Brasil, criada por Augusto Rodrigues. Tempos depois, a escolinha passou a ser chamada Newton Navarro, numa justa homenagem feita pela Fundação José Augusto.

Justa, mas que não encerra a plêiade de homenagens que ele merecia e merece! Não à toa eu comecei esse texto falando de Cascudo que, convenhamos, é bastante reverenciado e falado pelos potiguares, mas sua obra é pouquíssima lida e conhecida. O que eu acho lamentável. Não cometamos o mesmo erro com Newton Navarro, um homem que viveu e morreu na sua cidade-natal. A Ponte de Todos Newton Navarro, como o próprio nome diz, já tem uma homenagem subliminar à dona Wilma, uma vez que ela agregou o bordão de suas campanhas políticas ao nome da Ponte. Por fim, deixo uma sugestão ao parlamentar do Partido Social Cristão: lance propostas e projetos de lei para relançar os livros de Newton Navarro, para que sejam distribuídos nas Bibliotecas Públicas e bibliotecas escolares, aproveite e leia-os também para reconhecer o valor do grande escritor que ele foi! Certamente, seria muito mais respeitoso à memória e à cultura do Estado.

*Sheyla de Azevedo é jornalista, psicanalista, mestranda de Ciências Sociais e biógrafa de Newton Navarro

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Jornalista e psicanalista