DEMOCRACIA

Carta de potiguar escrita para filha e perdida em discos dos Beatles reaparece na véspera de aniversário da menina

Bárbara Schneider completou 15 anos no último dia 04 de março de 2022. A data sempre foi esperada por toda a família, especialmente pelo pai, o hoteleiro potiguar Karlo Schneider. No nascimento da filha, ele escreveu uma carta para ser lida exatamente neste dia: 04 de março de 2022. Também pediu a amigos da família para escrever cartas para a menina ler no futuro.

Guardou as cartas em LPs dos Beatles. Essa brincadeira amorosa virou notícia nacional em 2021. O pai de Bárbara foi uma das vítimas da Covid. Por problemas financeiros, ele vendeu a coleção de LPs dos Beatles com as cartas dentro.

Após a morte de Schneider, amigos da família postaram sobre as cartas perdidas em redes sociais e houve uma mobilização nacional em busca das cartas perdidas, mas depois de vários indícios não confirmados, a história parecia que não teria novos capítulos, mas teve. E como todos os outros momentos desta história, foram novos momentos emocionantes.

Antes do aniversário de Bárbara, três das cartas – incluindo a de Schneider – chegaram anonimamente para a família. E há partes tristes e alegres nessa história. O homem que enviou as cartas de volta para a família não quis se identificar para a família e contou que demorou entregar porque também perdeu um filho para a Covid. “Recentemente ele enviou o ‘Imagine’ do John Lennon, com 3 cartas dentro. Uma de Schneider. A carta dele foi escrita incompleta, porque a tinta acabou…”, contou neste domingo (06/03) Ulla Saraiva, amiga da família que iniciou campanha nas redes sociais para encontrar as cartas.

Nas postagens feitas no Twitter de Ulla, há uma foto de Bárbara com o tão esperado presente nas mãos: a carta inacabada do pai e o disco Imagine de John Lennon.

Contamos essa história aqui. Relembre!

Potiguar morre de Covid e família procura cartas para a filha, escondidas em discos dos Beatles vendidos na internet

Reportagem escrita por Rose Serafim em junho de 2021

​​O hoteleiro potiguar Karlo Schneider sempre foi adepto a grandes demonstrações de afeto, surpresas, jogos de caça-ao-tesouro e, principalmente, um beatlemaníaco. Quando soube que seria pai de uma menina, decidiu que escreveria uma carta a ser lida por ela somente quando chegasse aos 15 anos. Pediu a amigos que também elaborassem mensagens à filha e escondeu as correspondências para serem encontradas somente em 2022. A pandemia de Covid-19, contudo, impediu esse e diversos outros planos, e o homem morreu por complicações da doença em março deste ano. Agora a esposa dele, Alcione Araújo, tenta encontrar as correspondências que acredita terem sido deixadas em LPs que foram vendidos pelo marido num momento de grande aperto financeiro.

Essa história, com cara de roteiro de cinema, ganhou as redes sociais após diversas publicações de amigos de Schneider pedindo a quem possa ter comprado vinis dos Beatles no último ano, que verifique se há alguma missiva escondida nos álbuns.

Para Alcione, a grande caça ao tesouro também é uma forma de lembrar a pessoa querida e inventiva que o marido dela foi. E, ainda, se possível, presentear Bárbara Schneider com uma das primeiras e também a última mensagem do pai falecido, e a quem a adolescente era muito apegada.

“Ele sempre foi muito brincalhão, muito extrovertido. Sempre gostou de presepada”, lembra a viúva. A designer lembra que certa vez, num Dia das Mães, Schneider ficou dentro de uma caixa de geladeira para dar um susto na própria matriarca.

“No Natal ele fazia isso, comprava os brinquedinhos e fazia um caça ao tesouro dentro de casa. Ele gostava disso, era muito dele. É tanto que os amigos falam que isso é coisa de Schneider [as cartas]”, conta.

No ano passado, devido a pandemia, ele ficou desempregado e a família foi morar no sítio dos pais de Alcione. Mesmo assim, quando chegou a Páscoa, ela lembra que o marido levantou de madrugada para esconder presentes pelo lugar, com direito a mapas feitos a mão e tudo mais. “Ele gostava de instigar as pessoas”, define.

Entre Beatles e cartas

Cartas fazem parte do roteiro do casal desde o começo. Quando haviam começado a sair juntos, no início dos anos 2000, Karlo estava de viagem marcada para um intercâmbio na Inglaterra de seis meses. O lugar, claro, havia sido escolhido por conta da paixão dele pelos Beatles.

Após alguns encontros, ele viajou. Dias depois, Alcione estava na faculdade quando recebeu uma ligação estranha. Era Schneider querendo conversar. Dali em diante, manteriam contanto quase diário, mas como namorados do século passado, ignorando a existência de e-mail, telefones e redes sociais para troca de mensagens, eles se comunicariam por cartas.

“Eu escrevia pra ele quase todos os dias. Então ele recebia cartas quase todos os dias e enviava pra mim também. O pessoal dos Correios já me conhecia, quando eu chegava lá, eles já sabiam o que era”, conta sorrindo pela lembrança.

“Quando ele voltou, aí sim a gente começou a namorar de fato. Eu tenho várias cartas guardadas da gente. A carta também faz parte da nossa história nesse começo e agora faz parte dessa forma”, relaciona.

Pouco mais de dois anos depois, quando ela concluía a faculdade e os dois planejavam um “mochilão”, veio a surpresa da gravidez. A partir dali, os dois começariam uma grande família intimamente influenciada pelas paixões musicais de Karlo.

“A paixão dele pelos Beatles vem bem antes da nossa”, conta Alcione. Os nomes dos filhos foram escolhidos por ele e as duas meninas tem nomes relacionados a banda. Já o mais novo teve o nome escolhido por causa do futebol.

Primeiro, veio Bárbara Schneider, atualmente com 14 anos, que recebeu o nome de uma ex-namorada de John Lennon. Anos depois, nascia Layla, atualmente com 8 anos, batizada com o nome de uma música criada para por Eric Clapton para Patti Boyd, ex de George Harrison.

O mais novo, Arthur, de 3 anos, foi o único a escapar da linha musical ao receber o nome em homenagem ao jogador Zico, do Flamengo, time de torcida do pai.

“Ele tinha certeza que Arthur ia ser jogador de futebol”, lembra a mãe do menino, revelando que Karlo já fazia até cursos preparatórios para gerenciar a futura carreira do menino.

Mas era na casa que a paixão pelo quarteto inglês se tornava ainda mais evidente. O sofá vermelho com manta e almofadas nas cores da bandeira de Londres, bonecos dos cantores e até uma cristaleira de um metro e meio imitando uma cabine telefônica inglesa entregavam que ali morava um beatlemaníaco. Isso sem contar as centenas de Cds e LPs colecionados. Além de quadros, livros, uma estante dedicada aos bonecos e diversos itens.

“Tinha CD que ele tinha 10 do mesmo, mas tinha problema não, tava ali guardado. Tudo que era relacionado aos Beatles era importante pra ele. Recortes de revistas, há um monte de pastas de reportagens de jornais sobre os Beatles”, lista Alcione. A coleção, apesar de menor após as vendas de 2020, tem valor inestimável pra família.

“(A coleção) É dos meus filhos. Minha filha mais velha disse que vai contar a história dos pais para os menores usando a coleção dele”.

A paixão de Karlo pela banda de rock inglesa começou na infância, conta o pai dele, o jornalista Evaristo Nogueira. O comunicador que atualmente reside e trabalha em Fortaleza conta que tinha um programa de música numa rádio de Mossoró quando o filho era pequeno e foi assim que Schneider se apaixonou pelo grupo, ouvindo as canções tocadas na rádio.

“Eu tinha um programa de flashback e rodava muito os Beatles. Ele se encantou, ainda menino. Ele morou em Carlisle, na Inglaterra e foi na casa onde nasceu cada um dos integrantes da banda”, conta o radialista sobre a estadia do filho na Europa.

Evaristo lembra que Schneider aprendeu inglês por causa das músicas da banda. Hoje o jornalista busca se desvencilhar das lembranças do filho no trabalho enquanto enfrenta e o luto e diz que, pelo menos por enquanto, não consegue ouvir nenhuma música da banda de rock.

“Tenha coragem e seja gentil”

Em diversas ocasiões, ao deixar a filha na escola, Schneider costumava gritar para Bárbara, quando ela já se aproximava do portão, e ele saía no carro em movimento, uma frase retirada do filme Cinderela: “Bárbara, tenha coragem e seja gentil!”.

As demonstrações e as frases de motivação eram comuns na convivência com Karlo. Ainda durante o namoro, ele não poupava esforços para agradar no dia dos namorados ou em reconciliações. Alcione conta de uma vez que foi acordada por um amigo do namorado tocando violão enquanto o própria trazia uma cesta de café da manhã. Ou ainda quando o casal se desentendeu e o hoteleiro apareceu na porta dela sem dizer palavra, apenas apresentando mensagens em cartazes feitos em folhas de papel ofício.

Ulla Saraiva define Karlo como uma pessoa “extremamente brincalhona” e um pai muito apegado a família. Amiga dele há mais de 20 anos, ela lembra que a inspiração para as cartas destinadas a filha veio da música When I’m sixty-four (Quando eu tiver 64 anos, em tradução livre), um clássico suave escrito por Paul McCartney que reflete sobre a passagem do tempo.

“Absolutamente todos que passaram pela vida de Schneider tem várias memórias musicais a serem contadas”, abre César Melo, outro amigo de Schneider, no episódio do podcast Rádio Reiôsse em homenagem póstuma. Ele continua, afirmando que Karlo era “O melhor amigo que um amigo pode ser”. No episódio, os amigos Ulla, Isabela, Aquilles (marido de Ulla), Francisco Segundo e Nicolas Ribeiro compartilham histórias divertidas do hoteleiro associando os fatos a músicas que fizeram parte da história dele.

“No dia que Schneider foi entubado, ele mandou uma mensagem pro meu marido avisando sobre o procedimento e dizendo que nos amava. Como tem 1h de diferença daqui praí, nós não conseguimos responder a tempo para que ele visse a mensagem. Quando meu marido respondeu, ele já estava entubado. E aí, aquela coisa, a gente achava que conseguiria falar depois, mas não conseguimos”, lembra Ulla, que fez um fio no Twitter explicando a história da busca pelas cartas.

A PANDEMIA

Quando foi declarada a pandemia no Brasil, em março de 2020, Karlo Schneider gerenciava um hotel quatro estrelas em Natal. Com as medidas sanitárias, o turismo foi uma das áreas que mais sofreu economicamente e ele foi demitido. A família ainda tentou ficar por Natal por alguns meses, mas acabou mudando para Caicó, passando a viver em um sítio, com os pais de Alcione.

Sem dinheiro, Schneider decidiu vender alguns itens da coleção dos Beatles. Até que, no final de 2020, ele foi chamado para gerenciar um hotel em Icapuí, no Ceará. O proprietário do empreendimento cearense arrendou o Thermas, de Mossoró, e Karlo voltou a cidade Natal com a família, para trabalhar com o que amava, em fevereiro de 2021.

“Ele era muito cuidadoso, porque era obeso e tinha muito medo. Usava álcool direto e máscara. Mas era uma coisa que ele não tinha como dizer que ia ficar em casa. Ele precisava garantir o sustento da família e era indispensável estar trabalhando”, explica Alcione.

O casal recebeu os móveis no apartamento em 12 de fevereiro. No dia 22, o gerente testou positivo para Covid-19, quando já estava isolado no hotel em que trabalhava. As coisas ainda estavam encaixotadas quando ele adoeceu, lembra Alcione.

Karlo decidiu se isolar alguns dias antes de testar positivo, pois desconfiava que uma pessoa do trabalho estivesse doente. Enquanto estava no hotel, Alcione mandou fazer um bolo que foi entregue a ele. Era uma torta recheada, com o topo decorado com uma foto da família e uma mensagem de “Amamos você!” para o patriarca. No dia seguinte ao envio, uma sexta-feira, ele foi ao hospital e detectou estar com 20% de comprometimento dos pulmões e foi internado.

Na ocasião dos exames, o pai de Bárbara, Layla e Arthur, e marido e Alcione, aproveitou a saída para retribuir o carinho. Ele pediu que os quatro fossem até a janela, que dava para a rua, e lá ficou, tocando uma música dos Beatles em volume alto no som do carro e erguendo um cartaz onde havia escrito “Amo vocês!”.

“Em 2 de março ele foi intubado, no dia do meu aniversário. A última coisa que ele disse ao médico foi pedir pra não ser intubado porque era meu aniversário. E dois dias depois era aniversário da nossa filha [Bárbara]. O médico falou pra mim que conversou e convenceu ele de que era a única opção que tinha para lutar pela vida. Dia 11 de março, quase 6 da manhã, recebi a ligação dizendo que ele não tinha conseguido”, descreve.

“Foi a última vez que nos vimos. Vou fazer uma tatuagem com essa imagem”, afirma Alcione. Ela tem uma tatuagem no braço esquerdo com o desenho de três crianças atravessando a Abbey Road e “It’s my life”, música de Bon Jovi, escrito logo abaixo da imagem. Segundo a designer, o desenho é a representação da família.

“Nosso amor era um amor de alma, sabe? Muito além de físico, de carne, a gente era apaixonado um pelo outro pelo que a gente conhecia que os outros não conheciam”, emociona-se.

Já no hospital, continuou fazendo chamadas de vídeo com a esposa e filhos, mesmo quando o comprometimento dos pulmões não o permitia manter uma conversa. “Ele já não conseguia falar nas últimas horas. A gente fazia chamada de vídeo pra ficar apenas se olhando. Ele tentava falar e eu dizia ‘’não fale’”, reconstitui Alcione.

Quando foi levado a UTI para intubação, Karlo mandou uma mensagem avisando a família e foi respondido com pedido de força e a afirmação de “vai dar tudo certo” e “nós te amamos”. Alcione sabia que o marido tinha muito medo de ambientes hospitalares e lamenta não poder ter estado presente ao lado dele durante o internamento.

“Só queria ficar ali segurando a mão dele porque sabia que ele tinha medo”.

A última imagem que meu filho tem do pai é dele com uma máscara. Ele perguntava ‘mamãe, o que o papai tem?’, e eu dizia ‘o papai tá dodói’. É tanto que hoje, a memória que ele tem é de que o papai tá dodói. E como eu explico a uma criança de três anos? Não tenho como. Só digo ‘ó, papai virou uma estrelinha’.

Após a morte do marido, Alcione retornou a casa dos pais, em Caicó, com os três filhos. Foi lá que, após uma conversa com a cunhada, lembrou da história das cartas e resolveu procurar entre os discos restantes e não encontrou. Por isso, foi em busca de um dos compradores, contou a história e ele pediu autorização para publicar o caso.

Pra que a filha não descobrisse sobre as cartas por um estranho nas redes sociais, Alcione contou antes para a adolescente tentando colocar uma situação como o maior caça ao tesouro criado por Schneider. A menina era muito apegada ao pai.

“Só chorou, ficou em silencio e me abraçou”, conta Alcione sobre a reação da filha. Barbara completa 15 anos no dia 4 de março de 2022.

“O objetivo dele era fazer a caça ao tesouro no dia do aniversário dela. Eu queria muito encontrar antes do aniversário dela porque acho que não tem presente maior que ela possa ganhar”, reitera. Alcione não tem certeza de quantas cartas foram escritas, mas quer encontrar pelo menos a de Schneider.

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