TRANSPARÊNCIA

João Pedro Stédile diz que segurança pública só muda quando policiais assumirem que também são trabalhadores

Numa rápida passagem por Natal, na noite desta quinta (25), para participar do segundo dia do 3º Congresso de Policiais Antifascismo, o fundador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, foi taxativo ao comentar sobre as mudanças necessárias no setor da segurança pública do país.

“Vocês são apenas marionetes nas mãos da burguesia, que usa a ‘segurança pública’ para manter os próprios privilégios. Quando vocês se assumem enquanto classe trabalhadora e não como capitães do mato, vocês vão sofrem as mesmas táticas da burguesia, aliás já estão sofrendo. E quando vocês sofrerem essas três coisas, devem agradecer a Deus e dizer ‘agora estou do lado certo!’”, comentou.

As três coisas às quais Stédile se refere, são as táticas clássicas utilizadas pela burguesia para manter o atual estado de coisas na sociedade, que a beneficia.

João Pedro Stédile

Para se manter no poder, a burguesia usa três estratégias clássicas. Na 1ª, ela tenta cooptar as lideranças e é muito fácil. Faz a cooptação ideológica, financeira, a social, dos pequenos agrados, com participações em reuniões, etc. A 2ª tática, é a desmoralização da classe trabalhadora e de seus líderes. A desmoralização ideológica, foi isso que fizeram com Lula! Uma desmoralização que começou na imprensa, depois foi para o Ministério Público, depois para o Judiciário e acabou em você, porque quem botava o Lula lá era a Polícia Federal, paga por nós! A 3ª tática é a repressão. Coagir, impedir a organização, prender e até matar. A classe formada por latifundiários do agronegócio está acostumada a matar em todo o Brasil! Tudo isso é uma grande hipocrisia! Getúlio Vargas, um dos autores da Revolução de 1930, tinha uma frase que foi lapidar: Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei. Mais didático do que isso impossível para mostrar como a burguesia usa a lei contra a classe trabalhadora”, resumiu Stédile.

O fundador do MST também lamentou os dados que apontam o aumento da pobreza e do desemprego no Brasil.

Nesse último período no Brasil, 72 milhões de brasileiros foram jogados na sarjeta. Eles não têm mais emprego, renda, direitos trabalhistas, aposentadoria. A única coisa que sabemos deles é que moram na periferia das cidades. São uma população descartável para o capitalismo, que funciona sem eles e contra eles”, criticou.

Apesar da rápida palestra, João Pedro Stédile conseguiu resumir a origem da exploração e domínio intelectual da classe trabalhadora, o papel dos policiais nesse contexto, e a crise do sistema capitalista, observada em todo o mundo.

“O estado burguês que conhecemos foi engendrado pela burguesia industrial na Revolução Francesa, que precisava de uma legalidade pública para regular as contradições do capitalismo. Por isso, criou a ideia de voto, poder judiciário, legislativo e executivo. Isso não funciona mais porque a burguesia, com o seu capital, compra os eleitos. A contradição disso está aí no mundo inteiro! Acontece na Alemanha, em Portugal, onde apenas 30% das pessoas participaram das eleições! Isso é porque não queremos votar? Não, é porque o Estado burguês não consegue mais representar a maioria! Minha geração foi formada com os valores de que você só seria respeitado se você estudasse e trabalhasse. Se ia na missa do domingo o padre dizia ‘tem que estudar e trabalhar’. Na escola o professor dizia ‘tem que estudar e trabalhar’, se ligava o rádio, diziam ‘tem que estudar e trabalhar’. Nós, pobres, nos convencíamos disso e funcionava! Se estudássemos e fizéssemos um trabalho bom, progrediríamos na vida. Agora, a burguesia não precisa mais nem dos trabalhadores, nem do estudo, que qualificaria esse trabalhador! Agora a burguesia se nutre pregando o egoísmo, o individualismo, iludindo com consumismo… é preciso ter o último relógio, o último carro do ano. Mas, notem que nenhuma dessas pregações são valores sociais e nenhuma sociedade se forma assim. Portanto, o que está em curso é uma crise civilizatória! Como isso vai acabar? Eu não sei, só sei que o capitalismo não resolve mais os problemas da humanidade”, analisou o fundador do MST.

Sobre a guerra entre Ucrânia e Rússia

O capitalismo não resolve mais as questões da humanidade nem quando faz guerra. Esse confronto só aumentou a crise econômica, as desigualdades sociais e, pior ainda, evidenciou todo o racismo que há na Europa e sempre foi praticado contra os pobres. Impediram, inclusive, que os negros que estavam refugiados na Ucrânia trabalhando pudessem passar a fronteira”, denunciou Stédile.

Organização

Na avaliação do fundador do MST, a questão central está na organização da classe trabalhadora que só vai conseguir vencer a luta contra sua exploração se conseguir se organizar numericamente.

Vocês em 100, 200…não vão mudar nada! Mas se vocês juntarem, 10 mil, 20 mil, 100 mil… 200 mil, aí poderão mudar a segurança pública. A força de vocês não está na lei, está no número! Historicamente, todas as organizações da classe trabalhadora tiveram que encontrar métodos e formas que aglutinassem pessoas. Quando mais gente, melhor. Não são as ideias que mudam o mundo, é a correlação de forças”, refletiu Stédile.

Além do fundador do MST, outros convidados também levantaram as discussões nesta quinta. Páris Barbosa, por exemplo, primeira policial trans do Rio de Janeiro, mas com atuação na Polícia Rodoviária Federal do Rio Grande do Sul, criticou o fato de policiais terem aceitado um acordo com o governo federal para ter uma reforma da previdência menos danosa à categoria.

Páris Barbosa

Foi na hora da reforma da previdência que a categoria dos policiais mostrou que não está ao lado da categoria dos trabalhadores. Porque na hora que se colocou uma reforma que ia massacrar as pessoas mais pobres, com uma idade mínimos absurda de 65 anos para uma população que tem uma expectativa, quando muito, de 65. Quero ver uma pessoa que carrega saco de cimento nas costas, se vai aguentar viver até os 65 anos. Nessa hora, os policiais se fecharam para conseguir um acordo um pouco menos pior. Nós temos que escolher com quem queremos nos relacionar, se é com o opressor ou com o oprimido. E essa é uma escolha que não virá sem consequências”, asseverou Páris.

Tânia Oliveira

Já Tânia Oliveira, que faz parte do coletivo de Advogadas e Advogados pela Democracia, falou sobre a desconexão com a realidade das leis votadas no Congresso na área da segurança pública. Já Anísio Marinho Neto, Procurador de Justiça encerrou a noite fazendo uma denúncia, a qual poucas pessoas se deram conta, de que a Assembleia Nacional Constituinte formada em 1986 para a elaboração da Constituição de 1988, foi formada por pessoas que se mantiveram nos cargos, que deveriam ter sido devolvidos.

Anísio Marinho Neto

A Assembleia Nacional Constituinte é um pacto entre todas as forças da sociedade civil organizada, onde todos têm igualdade e responsabilidade, para construir um pacto social eficiente para garantir que todos tenham acesso à saúde, educação, segurança e cidadania. Isso não ocorreu! Venderam ao país uma assembleia constituinte, mas não passou de um Congresso Constituinte. Não se pode contaminar, como se fez em 1988, que o Congresso Originário foi o mesmo que o Derivado. 1/3 dos senadores eleitos em 1986 ficaram oito anos no poder e, com isso, puderam ser constituintes derivados e originários. Daí começa a raiz e matriz de uma segurança pública equivocada, porque ela não foi pensada para defender o cidadão, mas o estado”, criticou Anísio Marinho Neto, ao avaliar a crise na segurança pública no país.

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