Nós, mulheres: bruxas
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Nós, mulheres: bruxas

8 de março de 2022
3min
Nós, mulheres: bruxas

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Hoje, dia 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher, data oficializada pela ONU desde 1977 para reverenciar a lembrança de dois grandes eventos ligados às mulheres: o trágico incêndio em uma fábrica de Nova York, em 1911, no qual morreram 123 trabalhadoras; e a grande mobilização em São Petersburgo, em 1917, com grandes fileiras de mulheres insatisfeitas com o racionamento de pão e outras condições indignas de vida.

Mas é sempre bom lembrar que o ataque e a perseguição às mulheres (que envolvem múltiplas manifestações, como por exemplo salários desiguais, assédio e decisão sobre seus corpos) datam de muito antes.

Muito antes, aliás, da Inquisição promovida pela Igreja entre os séculos XV e XVIII, período em que se estima a morte de 40 mil a 60 mil mulheres. Enforcadas ou queimadas vivas. Assassinadas. O argumento: bruxaria.

No livro “História da Bruxaria” (tradução de Álvaro Cabral e William Lagos, Ed. Aleph, 2019), os historiadores Jeffrey B. Russel e Brooks Alexander mostram como, desde o paleolítico, com o progressivo apagamento dos cultos ao Sagrado Feminino, isto é, das diferentes manifestações religiosas matriarcais (acompanhado de outros muitos fatores, como a crescente cultura de guerra, a separação do trabalho, a domesticação da mulher), as mulheres foram sendo não só inferiorizadas, mas sobretudo atacadas.

O auge disso já se conhece: a morte de mulheres, especialmente aquelas generalizadamente classificadas como “feiticeiras”. Então, atividades antes banais, como cultivar e lidar com ervas e raízes ou proferir orações e palavras “de poder” em pequenos rituais cotidianos, poderiam ser vistas como atos extremamente suspeitos.

Isso tudo graças principalmente ao livro de um misógino sádico: o Malleus Maleficarum, um tratado escrito por um clérigo alemão, Heinrich Institoris, e lançado em 1486 com o objetivo de “identificar, torturar e matar” uma feiticeira.

E o resto já sabemos. Qualquer manifestação de emancipação e independência feminina é sempre alvo de controvérsia, achaque e ataque. A simples desqualificação pessoal (que mulher, por exemplo, ao manifestar sua livre vontade ou opinião, não foi taxada pejorativamente de “louca”, “puta” ou “bruxa”?) evoca essa memória ancestral de perseguição.

Assim, a luta contra a opressão não se faz só no dia 8 de março. Todo dia é dia de tod@s nós, para além do gênero, juntarmos forças contra quaisquer formas de opressão. É uma dívida histórica. E uma questão de dignidade humana.

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