OPINIÃO

Piso dos professores: o coração ganhou da estratégia

Eu era assessor de imprensa da então deputada estadual Fátima Bezerra quando testemunhei essa cena: um jovem entrou no gabinete para protestar contra a defesa de duas mulheres que foram agredidas por um militar no município de Macau. Fátima havia assumido a tarefa publicamente. O problema é que essas mulheres eram adversárias políticas do PT local e, na ótica do rapaz, não mereciam a defesa da deputada.

Fátima encerrou o bate-boca com a seguinte frase: “Perco meu mandato, mas não deixo de defender uma mulher vítima de violência”. O jovem entrou no gabinete como aliado e saiu como adversário: “Ela vai ver, não ganha mais nunca em Macau”, sentenciou.

Lembrei desse caso refletindo sobre a recente negociação da governadora Fátima Bezerra com os professores. Faltou malícia política e sobrou coração nas decisões da governadora. Explico: com a equipe econômica mostrando o estrangulamento das contas públicas, um direcionamento estratégico das finanças, focado no resultado político seria muito mais vantajoso para o projeto de reeleição de Fátima.

Herdeira de um Estado nocauteado financeiramente, que só agora ensaia os primeiros passos trôpegos em sua economia, a Governadora se deparou com o desafio de pagar o maior aumento real da história salarial do magistério potiguar. É como ser obrigado a fazer muitos lençóis, tendo pouco tecido. A regra fria do marketing orienta investir no alvo que tenha maior possibilidade de resultados.

Exemplo: tem sido praxe dos outros governantes deixar de lado os aposentados. Argumento para isso existe de sobra. O Fundeb só cobre os profissionais da ativa e os governos Rosalba e Robinson estraçalharam o Fundo Previdenciário. A falta de dinheiro é notória. Largar os aposentados seria, portanto, uma maldade explicável. E os prejuízos políticos não são tão relevantes assim. Vide o exemplo do prefeito Álvaro Dias, que massacrou os aposentados e foi reeleito em primeiro turno.

A reação desse segmento é politicamente menos danosa uma vez que, não tendo mais como fazer greve, eles dependem da solidariedade dos ativos. São vítimas quase indefesas de governantes inescrupulosos, já que sua fragilidade política reduz substancialmente a margem de pressão. Numa análise pragmática, conclui-se que poderiam ter sido riscados da planilha do governo no pagamento do Piso.

Outra forma de direcionar os recursos de olho na eleição, seria concentrar o reajuste em apenas um segmento da categoria: aquela parte com o maior potencial de votos. Um estudo atento na Carreira do Magistério mostraria fácil quem entraria e quem ficaria de fora.

É claro que isso deixaria a parte prejudicada revoltada. Mas para se eleger não é necessário unanimidade, apenas maioria. E do grupo dos Sem Piso ainda tem a parcela que enxerga o tratamento diferenciado dado à educação no atual governo. Ao comparar as candidaturas na hora do voto, eles poderiam entender que a possibilidade de conquistas para o próximo governo são mais concretas com a professora. Mesmo insatisfeitos votariam no “menos ruim”.

A vitória na educação estaria garantida. Engana-se quem pensa que isso precisaria ser uma traição aos princípios da ex-sindicalista. Depois de ter arrumado a casa e já governando um Estado finalmente saudável financeiramente, a professora poderia corrigir a injustiça feita em seu primeiro governo e saudar a dívida com os prejudicados. Mais ainda: o novo cenário econômico do Estado poderia dar a Fátima a condição de conceder para a educação as conquistas pelas quais tanto lutou nos seus tempos de sindicalista.

Fátima foi por outro caminho. Decidiu com o coração ao dividir igualmente todo o dinheiro disponível entre ativos, aposentados e pensionistas, de forma linear em toda a carreira do magistério. Ninguém ficou de fora, mas o lençol ficou curto e para ficar completo vai precisar receber emendas por vários meses. Como no caso da defesa das adversárias de Macau, tem aliados dizendo que agora são adversários.

A coerência da governadora lhe impôs o risco de ver seus colegas se voltarem contra ela e, movidos pela decepção, votar em um adversário deles próprios. Ou alguém duvida que qualquer outro no lugar de Fátima teria pensado duas vezes em aplicar a estratégia que ela pode sequer ter levado em consideração? Com um adversário outra vez no comando da governadoria, caberia aos professores ir às ruas, com a valentia de sempre, lutar para não perder as conquistas que agora estão asseguradas.

Sim, o risco para a educação é enorme, mas a coragem de Fátima Bezerra é digna de elogios. Quem sabe não temos nesse caso um exemplo de mudança que precisamos na política? Talvez tenha chegado a hora de substituir as estratégias maquiavélicas, pela sensibilidade do coração. Em vez do pragmatismo que produz injustiças, mesmo que passageiras, uma gestão pública conduzida pelos valores da alma. As mulheres no poder podem nos mostrar esse novo caminho.

* Leilton Lima é jornalista e sócio da L4 Comunicação.

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