Apoio às pautas da direita faz jovens de esquerda deixarem igrejas evangélicas, diz pesquisador
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Apoio às pautas da direita faz jovens de esquerda deixarem igrejas evangélicas, diz pesquisador

25 de abril de 2022
5min
Apoio às pautas da direita faz jovens de esquerda deixarem igrejas evangélicas, diz pesquisador

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Por Thayná Schuquel, do Brasil de Fato

Enquanto as igrejas evangélicas mantiverem a postura rígida, sem espaço para diálogos a respeito de pautas progressistas, como a homoafetividade e o movimento feminista, cada vez mais jovens que se identificam com a ideologia de esquerda vão abandonar os templos. Isso é o que diz o pesquisador, escritor e teólogo Rodolfo Capler. Ele, que também é pastor, alega que há um "fenômeno de evasão" da nova geração ocorrendo por causa dos posicionamentos políticos.

Desde que o presidente Jair Bolsonaro (PL) entrou na disputa pela cadeira da Presidência da República, em 2018, pastores e líderes da igreja evangélica passaram a declarar apoio a ele – muitas vezes, em campanha dentro dos próprios espaços religiosos. Além disso, o conservadorismo enraizado na direita extremista também ganhou força dentro dos ambientes de fé. Esse movimento, segundo Capler, espanta os jovens.

"Os pastores criticam os partidos de esquerda e isso faz com que haja resistência dos jovens. Eles vão se sentindo acuados e tolhidos. Falta abertura do pensamento contrário. A igreja deveria ser um ambiente mais plural, em que pessoas dos mais variados campos e espectros ideológicos podem conviver", disse o teólogo.

Ele explica que a nova geração está engajada em temas progressistas e não aceita mais o preconceito que vem das igrejas. O pesquisador chegou a essas constatações ao escrever o livro "Geração Selfie". Na ocasião, ele fez entrevistas com 300 jovens.

"As igrejas demonizam as pautas progressistas. Mas, hoje, os jovens são a favor do relacionamento homoafetivo, dos movimentos feministas, são totalmente contra qualquer tipo de comportamento racista. E como há banimento do pensamento contrário por parte desses líderes religiosos, acontecem essas egressões", falou.

"Resistência à figura de Bolsonaro"

O teólogo alega que é possível perceber uma grande resistência dos jovens com relação à figura do presidente Jair Bolsonaro e o grupo bolsonarista formado após a sua eleição. "Ele é muito autoritário, tem falas muito deploráveis, e a juventude não se identifica", diz.

"Tem um estudo da pesquisadora Jean W. Twenge, professora do Departamento de Psicologia da Universidade de San Diego, que entrevistou 4 milhões de jovens. Ela afirma que essa geração, a partir de 1995, é a mais inclusiva de toda a história. É natural que a nova geração tenha pensamentos mais inclusivos, e Bolsonaro é exclusivista", justificou.

Capler diz que percebeu um aumento da evasão após a eleição de Bolsonaro. "A estética do Bolsonaro, de agressividade, não faz os jovens se identificarem. A evasão tem acontecido nos últimos anos. A grande maioria dos pastores evangélicos tem apoiado Bolsonaro. Muitos o fizeram de púlpito. Isso é um fator que pode ter resultado no abandono das igrejas", avaliou.

Rodolfo Capler é pesquisador, teólogo e pastor

Mudanças são necessárias

As perspectivas para as próximas décadas são favoráveis, segundo o pesquisador. Ele defende que nos próximos anos as igrejas vão, pouco a pouco, se tornar ambientes mais abertos para novas configurações familiares, para o casamento homoafetivo e para as ideias feministas. Isso porque ocorre naturalmente um processo de ruptura de gerações.

"A gente vê que os líderes evangélicos estão mais velhos e novos pastores estão assumindo essas comunidades. Essa nova geração tende a ser mais inclusiva, então eu penso que nas próximas décadas as igrejas vão começar a mudar. Vai ser um processo gradual, mas vai acontecer", disse.

Capler afirma que é necessário "voltar para as pautas do evangélio" e que as interpretações feitas por muitos líderes religiosos partem da ideologia pessoal e não da Bíblia.

"Jesus defendeu que todas as pessoas devem ter os direitos básicos para sobreviver. Ele amou as mulheres. Teve seguidoras mulheres. Ele quebrou o racismo da época. Jesus quebrou todo o tipo de sexismo. Tudo isso são pautas do Evangélio. Para mudar, deve haver uma volta disso. Os líderes estão distantes dos ensinos de Jesus e mais apegados à própria ideologia. Em termos práticos, acredito que as igrejas devem abordar mais esses temas, deve-se falar sobre questões de gênero, homoafetividade, aborto e todos os temas. Se houver abertura, os jovens voltarão para as igrejas e novos jovens se identificarão", avaliou.

Além das mudanças nas igrejas, o teólogo aponta para a necessidade de um novo pensamento da sociedade como um todo:

"As igrejas são um recorte da sociedade. Se a sociedade é racista, então as igrejas também vão manifestar racismo. Se a sociedade é misógina, homofóbica, as igrejas também vão refletir um pouco disso. É um processo que tem que acontecer nas igrejas e na sociedade", finalizou.

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