CIDADANIA

Coletivo Leila Diniz completa 20 anos; pobreza das mulheres ainda é desafio para organização e ação política

Manter as mulheres unidas na luta pela sua libertação é um dos maiores desafios do feminismo e a pobreza está entre os motivos dessa desmobilização política. Apesar disso, o Coletivo Leila Diniz está consolidado em Natal e já conseguiu atravessar duas décadas, assistindo a mudanças da sociedade, entre avanços e retrocessos. Neste mês de abril, o grupo completa 20 anos.

“A atual política acirra a desigualdade socioeconômica com o aumento do desemprego e piora as condições do trabalho, precariza os serviços públicos que impactam diretamente a vida das mulheres, afetam o meio ambiente e a vida de comunidades tradicionais e povos originários. Essa precarização do trabalho e a consequente pobreza das mulheres é um desafio histórico que dificulta a auto-organização e ação política delas”, avalia a arquiteta e fundadora do Coletivo, Claudia Gazola, ao olhar para a história do Leila Diniz.

Cerca de mil mulheres já participaram, direta e indiretamente, de atividades. Elas se aproximam e se afastam – movimento intensificado durante a crise sanitária da pandemia. No momento, sete atuam de forma orgânica, além de Cláudia: Lena Felipe Barro, Janaiky Almeida, Girlane Machado, Jacilene Viana, Geane Santana, Isabela Ludimila de Oliveira e Ilena Felipe Barros. A organização é pautada pela autogestão, sem hierarquias, com divisão de tarefas, tendo o consenso forte como prática política.

“Não há uma coordenadora ou presidenta, todas as decisões são dialogadas e encaminhadas coletivamente”, destaca Cláudia, que também considera desafios tornar os espaços de discussão mais horizontais e equânimes entre novatas e mulheres com mais experiência no movimento, além de garantir a presença daquelas com mais dificuldades econômicas e de locomoção – questão que é atravessada pela institucionalização do grupo.

As mulheres se reuniram inicialmente como ONG, em 2002 e, em 2014, fizeram a transição para coletivo autônomo, o que consideraram “queda para o alto”.
“Antes, a institucionalidade garantia uma certa estabilidade financeira do coletivo e também de grupos de mulheres envolvidas nas nossas ações. Hoje em dia, essa autonomia impõe novos desafios de sustentabilidade do Coletivo na cidade e na realização de ações”, explica Cláudia Gazola.

Construção

A fundação do Coletivo Leila Diniz envolve um grupo de mulheres que já militavam nos movimentos feministas; negro; de crianças e adolescentes; e movimento feminista no âmbito nacional. Inicialmente, pensaram em nome de mulheres que foram pioneiras no estado, mas entenderam que não era exatamente esse pioneirismo que representava os desejos do grupo. Foi aí que surgiu a ideia de carregar o nome da atriz Leila Diniz, famosa não só pelo trabalho artístico, mas também por quebrar tabus.

“Veio o nome de Leila Diniz, mulher de uma geração mais próxima que viveu à frente do seu tempo, com ousadia, sem medo de ser libertária. Assim, o Coletivo Leila Diniz foi fundado em 12 de abril de 2002 realizando várias ações de pesquisa na área da violência contra mulheres e direitos sexuais e reprodutivos, como também formação política feminista através da educação popular e monitoramento de políticas públicas em prol dos direitos das mulheres”, conta Gazola.

Meios de atuação

De acordo com a fundadora, atualmente, as estratégias focam no fortalecimento da identidade política da Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB, em nível estadual, atuando junto ao Grupo Afirmativo de Mulheres (Gami) e Motim Feminista.

“São as rodas de chegança que propomos como espaço de aproximação de novas mulheres para o nosso coletivo. As ações se baseiam em fomentar nosso feminismo autônomo, suprapartidário, antirracista, antilesbofóbico, antitransfóbico e anticapitalista. Temos integrantes que atuam em duas coletivas de lutas nacionais, coletiva antirracista e coletiva pelo abroto legal”, detalha, ao destacar que o artivismo é frequentemente utilizado como instrumento de diálogo com a sociedade e incidência política.

“Fazemos performance na rua e em atos públicos, cantamos palavras de desordem, fazemos jogral e temos como parceira o batuque de mulheres do GAMI e já nos apresentamos em feira livre. Já tivemos parcerias com grupos de teatro pra dialogar com mulheres nos postos de saúde e com a população em geral nos ônibus. Acreditamos na arte como instrumento e o corpo como suporte no enfrentamento às desigualdades impostas às mulheres pelo patriarcado”, comenta.

Popularização do feminismo

Ao longo dessas duas décadas, é visível o aumento do número de mulheres que se consideram feministas, e isso, na visão de Cláudia Gazola, é uma grande e irreversível conquista, mas que se contrapõe ao conservadorismo.

“A luta feminista ganhou novos fôlegos com a luta antifascista, ganhou protagonismo com o #EleNao e foi decisivo nas eleições, fazendo com que os grupos de mulheres, pessoas negras e LGBTQI+ votassem em candidatos progressistas de esquerda. As pautas antirracistas e pela descriminalização e legalização do aborto ganharam o debate público também”, examina, reconhecendo que, ao mesmo tempo, a onda de extrema direita ameaça direitos já adquiridos.

“O recrudescimento do pensamento conservador no Brasil coloca em risco conquistas recentes no que diz respeito ao enfrentamento à violência contra nós mulheres, ao racismo, às poucas políticas de abortamento legal, às políticas de igualdade de gênero nas escolas. Coloca em risco a laicidade do Estado brasileiro”.

Cláudia explica o feminismo é importante individualmente, como modo de vida, e pode ajudar a lidar com questões como as violências machistas no âmbito pessoal. Contudo, “as transformações na sociedade só ocorrerão com a organização coletiva e o entendimento que por mais que sejamos diversas em classe, raça e identidades, teremos que lutar juntas contra as opressões do patriarcado”.

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais