DEMOCRACIA

Governo Bolsonaro usa método da ditadura militar para dizimar indígenas, denuncia antropólogo e representante do povo Baniwa

Por quê os militares dizimaram os povos indígenas brasileiros se não havia, entre as vítimas, opositores políticos à ditadura no país ? Uma dica: não é necessário voltar aos anos 1970 para buscar as respostas.

De acordo com o antropólogo e representante do povo Baniwa da Amazônia Gersem Luciano, o governo Bolsonaro vem usando o mesmo método da ditadura militar para massacrar e exterminar indígenas no Brasil. A questão é econômica e geopolítica, frisa.

– Os indígenas sempre foram vistos pelas elites políticas e econômicas do país como empecilho para o progresso e o desenvolvimento. Essa é a raiz do pensamento das elites. E o atual presidente da República é o representante maior”, destacou o pesquisador, que continuou:

– Apesar de milhares de povos e indígenas vivendo naquela região, nunca foram considerados como brasileiros. Por isso o objetivo era a eliminação física e também cultural”, disse.

Gersem Luciano participou neste sábado (2) da mesa A Violação dos direitos dos Povos Indígenas, ocupação das suas terras pela ditadura de 1964 e sua brava resistência até hoje, no 2º dia Encontro Norte-Nordeste de Comitês e Comissões por Memória, Verdade e Justiça, evento que acontece até domingo (3) em Teresina (PI).

Tanto os militares a partir de 1964, como Jair Bolsonaro, um ex-capitão expulso do Exército por mau-comportamento, desejam as terras indígenas para explorar, roubar os recursos naturais e enriquecer. E para obter êxito no projeto, os verdadeiros donos das terras precisavam desaparecer.

Não tem nada a ver com essa briga imaginária ideológica: o propósito era o extermínio dos povos indígenas, o que tem a ver com o ódio que os militares tinham em relação aos indígenas. Não era briga política, ideológica. Era ódio porque os índios são índios, porque não entram no projeto social, de dominação sociopolítica. Só se pode entender o massacre por essa dimensão. Não tem como associar isso à luta contra opositores políticos. E eles só conseguiam fazer isso metralhando os indígenas. Era uma guerra não declarada, até porque a sociedade brasileira não sabia o que estava acontecendo, foram muito covardes”, disse.

Durante o encontro, Gersem Luciano destacou os dados oficiais que apontam 8.350 indígenas assassinados entre 1964 e 1988, número subnotificado não por má-fé, mas por dificuldade na comprovação:

– Mas multiplicar esse número por três não é um exagero, o que dá mais de 25 mil mortos. O povo Waimiri Atroari foi a maior vítima, pelo menos 2 mil indígenas dessa etnia foram mortos em apenas 5 anos, entre 1972 e 1977”, destacou.

Além do poderio bélico dos militares frente aos indígenas, os golpistas ainda contavam com as dificuldades que as vítimas tinham em denunciar a barbárie. Como os povos atacados não falavam português, a divulgação dos crimes ficava inviável.

Gersem Luciano lembrou ainda que os militares também criaram prisões para indígenas que se revoltavam contra os ataques. Em Minas Gerais, reformatórios foram construídos e várias remoções foram efetivadas:

– As remoções eram uma estratégia de massacre, tiravam os povos de suas regiões sem controle sanitário. Contaminavam os indígenas também pela comida, jogando alimentos e açúcar dos aviões. Só voltavam dois ou três dias depois para recolher os corpos, tudo isso já foi relatado por pesquisadores”, disse.

Terra Livre 

Os povos indígenas estão organizados atualmente em torno do Acampamento Terra Livre, que chega a Brasília a partir de 4 de abril e permanece na Capital Federal até o dia 21. A mobilização tenta frear duas pautas que ameaçam a existência dos povos indígenas, a PEC do Marco Temporal e a PEC da Mineração.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"