OPINIÃO

O canto que não é em vão

Era um ensaio para o desfile de 7 de setembro. As professoras colocavam as crianças em fila indiana para marchar no meio da rua. A banda marcial na frente. As crianças debaixo do sol. Eu, mirradinha, fui colocada no penúltimo lugar da fila. A ordem era simples: os mais altos na frente, os mais baixinhos iam ficando para trás. Ninguém gosta de fim de fila, fato. Hoje, posso dizer com tranquilidade, que jamais gostei daquela parada do 7 de setembro. Nem mesmo quando sob grandes esforços da minha mãe, desfilei num “pelotão” diferente, vestida de bailarina e fazendo uma coreografia absolutamente errada, com uma saia de tule que não aguentou 10 minutos de dança errática.

Jamais, em tempo algum, fui assistir aos desfiles na capital, depois que me despedi das sombras dos juazeiros de Bom Jesus. Tudo o que me remete ao militarismo no Brasil, lembra-me imediatamente o autoritarismo, a disciplina cega, a corrupção velada e as inúmeras benesses militares que abismam as desigualdades entre os trabalhadores, das mortes e torturas que ocorreram nos anos de chumbo. Das mortes e torturas que ainda ocorrem nos porões e nas favelas.

Mas voltemos àquela fase em que as palavras dormiam caladas aos pés das minhas inquietações. Mamãe, que organizava outras turminhas do projeto casulo, me viu na rabeira da fila e parece que nossos pensamentos se encontraram naquele momento. Indignada, ela pegou-me pelo braço e, como sempre altiva, levou-me para a cabeça da fila. “Fique aqui. Você é uma das primeiras da turma. Aqui é o seu lugar”, disse-me convicta. E eu, num misto de satisfação e apreensão, obedeci, enquanto pensava que ela não era minha professora e talvez isso contrariasse a professora! Mas ela era minha mãe! E podia me colocar onde quisesse.

Hoje eu sei que preferia mil vezes botar os olhos para cima e catar arco-íris no céu, do que ficar naquela fila. Mas o sol inclemente, varria todas as nuvens, e me fazia chorar laranja fogo por dentro. Marcha menina! Marcha pra frente! E eu marchava. Tentando viver intensamente aquele momento, para que ele passasse logo e eu não me atrasasse para a hora do banho, do almoço, do chá de erva cidreira com a minha avó no fim da tarde.

De alguma maneira, a banda marcial, as outras crianças atrás de mim, as instruções das professoras, o gesto resoluto da minha mãe e o sol me arrastavam para a frente. Se o instante não está bom é inevitável que os pensamentos flutuem, ou tropecem, para os próximos que ainda estão por vir.

Numa conversa com uma amiga, em que falávamos sobre a angústia de viver esses tempos pandêmicos de morte, medo e ainda muitas incertezas sobre o que temos pela frente, lembrei desse episódio. Dessa marcha constante que somos levados a fazer, sem saber exatamente para onde vamos e até quando! Naquela época, estando no fim ou no início da fila, o tempo não castigava meus sonhos, nem a barra curta do meu vestido alcançava o lodo das frustrações, decantadas embaixo dos meus tornozelos de agora.

Na conversa de há pouco chegamos à conclusão tácita de que há muitas pessoas em situação pior que a nossa e que devemos viver o dia com os tons que nos são oferecidos. Sem muito reclamar, ou sem muito nos acomodar. E eu vim para cá, escrever isso. Para tentar tingir esse dia com algum sonho colorido que eu não lembro que tive, mas sei que está em algum lugar. Como quando acordo cedo e ouço o canto de algum passarinho. Abro a janela e não o vejo. Mas tenho certeza de que seu canto não foi em vão.

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Jornalista e psicanalista