OPINIÃO

Precisamos falar sobre isso

Será que estamos preparados para viver relações não monogâmicas? Relacionamentos abertos, eis uma questão contemporânea que tem chegado à clínica psicanalítica. Muitos casais cogitam ou até mesmo se propõem a determinados arranjos amorosos e sexuais impensados em outros tempos. Bom, talvez até pensados, mas daí a serem colocados em prática, já era outra história.

O psicanalista Christian Dunker falou recentemente em seu canal na internet sobre esse fenômeno, de cujos conceitos me inspiro e trato nesse artigo. Segundo ele, nos tempos de Freud, início do século XX, o modelo familiar era o tradicional, ainda inspirado no século XIX, quando, infidelidade e traição faziam parte dos casamentos, mesmo que debaixo do tapete e, em sua grande maioria, praticadas pelos homens, provedores do lar. Enquanto as esposas – sem autonomia financeira – serviam tão somente como suporte para o marido e seus filhos. Inclusive, alguns casamentos patológicos só seguiam adiante por anos e anos a fio, já sem amor e sem desejo, por conta da traição! Pela culpa, os maridos voltavam para suas casas e conseguiam suportar a esposa insuportável. Algumas delas, inclusive, sabiam que para manter o marido era preciso que fossem traídas. Caso contrário, a relação estaria fadada ao fim.

No livro Mal-Estar na Civilização (1930), como o próprio nome diz, Freud trata dos incômodos da vida social da modernidade. E o principal deles habitava justamente na ideia de ordem, limpeza, regulação (por meio das Leis e do Estado) e escassez da liberdade. Noventa e dois anos após a escrita desse livro, e tomando como base o pensamento de Zygmunt Bauman, a modernidade que nasce sob a égide do consumo e pelo nexo dinheiro, atualmente, defende, mais do que nunca, as liberdades individuais. Afinal, precisamos ser livres para dar vasão aos nossos desejos. Mas, será que somos capazes de sustentar essa liberdade? O que é o casamento nos tempos pós-modernos? É uma escolha, a princípio romântica, entre duas pessoas que namoram, se casam, assinam um contrato formal ou informal e se propõem a uma vida fiel e monogâmica. Se deixarmos de lado o romantismo das novelas das seis, constituir uma família é fazer uso de algo, ou vários algos, juntos. E isso inclui as próprias pessoas. Portanto, a essência da família deixa de ser meramente o amor e passa a ser o patrimônio. E no meio desse arranjo, tem o desejo que vai amornando, se abrandando e às vezes até acabando mesmo. Porque, segundo Lacan, o desejo pressupõe uma falta. Trazendo essa expressão para os tempos modernos, podemos pensar naquele aparelho de celular que queremos tanto. Tão logo o obtemos, já surge outra “falta”. Queremos outra coisa.

Mas, voltemos aos relacionamentos abertos. Geralmente, quando esse desejo surge, são estabelecidas algumas regras particulares: “não é para se envolver ou se apaixonar”; “quero fazer parte, tem de ser a três”, ou o contrário, “não quero saber com quem você vai sair”. Sugiro a série Wanderlust, na Netflix, cujo pano de fundo trata de relacionamento aberto. Admito que, em clínica, desconheço uma experiencia exitosa nesse quesito. Sexo e amor são fenômenos sociais que, raramente, se dissociam da posse e do sentimento de perda. Mas não estou escrevendo isso para fins estatísticos. E quero deixar claro que a psicanálise não se pauta em conceitos morais. Para ouvir o outro, em suas fantasias e desejos, é necessário que se abstenha de definir, impor e aconselhar sobre o que é certo ou errado, a partir dos nossos próprios princípios. Não estamos aqui para condenar ninguém.

Mas é possível falar sobre o fato de que, quem está disposto a abrir seu relacionamento, precisa estar disposto a ser leal consigo e com o outro. E essa não é tarefa das mais fáceis. Não raro, o poliamor comete deslizes, machuca alguém. Quando não, um dos lados pode sentir que está perdendo algo (lembram da herança?), sentir-se ameaçado e, obviamente, enciumado, porque ele ou ela está tendo uma intimidade em que eu não estou incluído(a). Não fazer parte do gozo do outro é algo muito difícil de aceitar.

Há muito o que se pensar e falar sobre isso ainda. O modelo de casamento dos nossos avós não é mais tão facilmente aceito, apresenta fissuras difíceis de sustentar. Até porque os arranjos familiares também são outros. Homens e mulheres; mulheres e mulheres; homens e homens. Mas, o desejo do outro por outra pessoa também não é rapadura fácil de engolir. Mesmo quando se leva em conta os conceitos de Bauman, em sua modernidade líquida, em que “os líquidos, diferentes dos sólidos não mantém sua forma com facilidade. Os fluidos não fixam o espaço nem prendem o tempo”. Essa mobilidade está associada à ideia de leveza e ausência de peso, mas também ligada à inconstância, que tem como um dos sinônimos a infidelidade. Não somos mais fieis às marcas, nem às religiões e até mesmo às pessoas. Mas, será que o desejo de possuir o desejo do outro, como disse Lacan, não pode ser revisto? Será que dá para recriar o desejo? Reconstruí-lo, redesenhá-lo? Como isso é possível? Talvez, desenvolvendo a lealdade e, com isso, construindo coisas juntos. Criando experiências. Não se distanciando de si mesmo, e de suas idiossincrasias, mas ao mesmo tempo não afastando o outro – e o seu direito de desejar – na relação.

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Jornalista e psicanalista