DEMOCRACIA

Professor bolsonarista que perdeu eleição para reitor do IFRN processa colegas por ter sido chamado de “golpista” e “boca suja”

O professor José Ribeiro de Souza Filho, que na época das eleições para a reitoria do IFRN (Instituto Federal do Rio Grande do Norte), no ano de 2019, se identificava como bolsonarista, está processando duas professoras da instituição por ter sido chamado de “golpista” e “boca suja”, durante o conturbado período em que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, nomeou um interventor para dirigir a instituição, ao invés de respeitar o resultado da votação do Instituto.

Além da reação de servidores, estudantes e até ex-alunos do IFRN contra a nomeação de um interventor, foi um cartaz com os dizeres “golpista” e “boca suja”, afixado em seu veículo que teria provocado a ira de Ribeiro. Na ação, José Ribeiro de Souza Filho alega que Maria Aparecida da Silva Fernandes e Denise Cristina Momo, também professoras do IFRN, prejudicaram sua imagem, lhe causando danos morais. Como reparação, ele pede uma indenização no valor de R$ 9.000,00.

Ribeiro foi um dos candidatos à Reitoria do IFRN em 2019, mas perdeu o pleito, ficando em 3º lugar com 3,22% dos votos. No entanto, com a nomeação de um interventor, o professor Josué Moreira, que sequer tinha concorrido na eleição e era filiado ao PSL, mesmo partido do presidente Bolsonaro à época, Ribeiro acabou sendo convidado por Josué para ser vice-reitor, um cargo que sequer existe na instituição.

A professora Maria Aparecida da Silva Fernandes falou com a agência Saiba Mais neste domingo (03) e, além de explicar o contexto da situação, contou fatos que não foram citados por Ribeiro na ação que corre na justiça.

Eu coloquei o cartaz na caminhoneta dele estacionada na reitoria do IFRN chamando-o de golpista e boca suja porque tem uma história anterior. Ele foi questionado porque, além de colocar o carro na vaga de reitor, apesar de não ser reitor, ele também ocupava a vaga de cadeirante. Como nesse dia fizemos um ato e tinha muita gente, ele não estacionou no local de costume. Então, perguntamos: ah, hoje não vai colocar não [o carro] na vaga do cadeirante? Foi aí que ele desceu do carro chamando palavrões conosco. Ele não sabe quem fez a pergunta, porém sabe que quem estava ali eram servidores, servidoras e estudantes do IFRN. Temos um vídeo com isso gravado. Fiz o cartaz porque eu gostaria de dizer isso no olho dele que, além de golpista, era boca suja! Como ele não dava chance, porque só entrava pelos fundos da reitoria, não encarava os servidores de frente, não tive como dizer pessoalmente”, contextualiza a professora Maria Aparecida sobre os palavrões ditos por Ribeiro, mas omitidos no processo.

Na época da intervenção, José Ribeiro de Souza Filho chegou a ser denunciado pelos servidores por ter tomado a chave do gabinete da reitoria de uma funcionária da limpeza e ter se trancado no gabinete do IFRN.

Na verdade, quem teve a honra manchada nesse processo foi o IFRN. Uma instituição que tem uma história centenária, mas que com a ação desse grupo interventor passou a ser mal vista. As reuniões de colegiado foram atropeladas; há registro de agressões verbais deles a conselheiros; e ainda houve a tentativa de malversação de dinheiro público com aquela história dos macbooks na pandemia, quando muitos alunos não tinham nem celular para retomarmos as aulas no modo remoto. O caos no qual a instituição ficou, na verdade, foi provocado por eles. O IFRN e nós, como servidores, é que ficamos com a reputação manchada”, critica a professora Maria Aparecida.

O então interventor Josué Moreira e o “vice-reitor” José Ribeiro (dir)

Além de professor do IFRN, Ribeiro é militar reformado do Exército e diz ter doutorado em Engenharia Mecânica. Para processar as professoras, o advogado de Ribeiro argumenta que “…as Rés precisam serem [sic] punidas e aprender que não devem causar danos morais em desfavor de ninguém”.

A professora Maria Aparecida estava corrigindo as provas dos alunos para fechar o semestre quando foi notificada sobre a intimação judicial. Ela denuncia que o período de intervenção, além de um risco à democracia, resultou também no atraso do calendário acadêmico.

“Num contexto democrático no qual você diz e ouve o que quer, também tem que estar apto para escutar, ler e ouvir o que não quer. Por isso há essa guinada à direita de autoritarismo! É só ver as gravações das reuniões dos colegiados para observar as atitudes que eles tinham! Como foi tenso, rolo compressor e desrespeitoso por oito meses. Depois que restabelecemos a normalidade, por força da justiça e das mobilizações, ninguém nem fala mais desse pessoal, a não ser quando relembram que no dia 20 de abril de 2020, a instituição sofreu um golpe, uma intervenção do governo federal! Eles não são lembrados nem como servidores! Vá procurar qual é a causa desse pessoal. Em que o senhor José Ribeiro está atuando na instituição. Ele está orientando alunos? Tem grupos de extensão? De pesquisa? Participa das atividades pedagógicas? Tem relação com a comunidade? Como os alunos o veem? Como é sua atuação como professor? Ele deveria estar preocupado com isso”, avalia Maria Aparecida.

A professora do IFRN explicou que vai se reunir com o advogado na próxima semana para organizar sua defesa.

“Isso é uma tentativa de intimidar as pessoas que não têm medo e não baixam a cabeça. Eu não sei como alguém que articula um golpe na instituição, sabendo as regras do jogo, que o processo foi limpo, legítimo e que nem o reitor à época que concorria à reeleição e perdeu questionou o resultado, pode falar em honra!”, questiona Maria Aparecida, que já recebeu manifestações de solidariedade dos colegas e até do reitor eleito do IFRN, José Arnóbio de Araújo Filho, que se dispôs a testemunhar por estar presente no dia da confusão.

Imagem anexada ao processo mostra colocação de cartaz com os adjetivos “golpista” e “boca suja” no carro de José Ribeiro I Foto: reprodução

Professora não estava presente no ato pelo qual é processada

No processo, Ribeiro anexou fotos do momento em que o cartaz é colado em seu carro e aponta que as professoras Maria Aparecida da Silva Fernandes e Denise Cristina Momo teriam sido as autoras da ação. No entanto, a própria Maria Aparecida garante que a professora Denise não estava presente nesse momento.

“O processo contra a professora Denise é uma calúnia porque ela estava no ato, mas não estava lá no momento do cartaz. Nem isso ele foi averiguar porque ele está no afã de ganhar dinheiro em cima dessa única situação concreta, com foto. Ele fala do cartaz, mas não fala que gerou as palavras de baixo calão com os servidores. Ele não contextualizou, o que demonstra estar mal intencionado. Para essas pessoas, resta achar algum agente operador do direito que seja da mesma laia, que pense igual e não tenha apreço pela democracia para ganhar dinheiro em cima”, avalia a professora do IFRN.

Sem tempo para processo

“Eu fico imaginando se cada servidor do IFRN, ou a própria instituição, tivesse uma onda de processos contra o senhor Ribeiro por alterar a ordem democrática na instituição! Mas, até disso ele se livrou, porque o conjunto se servidores está mais preocupado em reconstruir o que eles quebraram, em fazer a instituição funcionar! Essa escória antidemocrática a história vai julgar! Aliás,  já está julgando!

Não aguentam um peteleco

“Mesmo numa pandemia, com todos os protocolos, nós nos arriscamos para defender a instituição. Foram várias mobilizações, inclusive de ex-alunos. Não arredamos o pé da reitoria do IFRN durante os oito meses de intervenção. Temos mais de 300 notas de repúdio desde as diferentes áreas, disciplinas, até órgãos colegiados da instituição, além de outras instituições, universidades, institutos e entidades. 

Essas pessoas que fizeram todo esse estrago não aguentam um peteleco! Parece bebê chorão que recorre à mãe, nesse caso ao juiz, para ver se cola. É como se dissessem ‘Mamãe, me chamaram de golpista e boca suja!, que é na verdade o que eles são“, ironiza.

Relembre o caso

Apenas um ano depois do resultado das eleições para reitoria do IFRN, o professor José Arnóbio de Araújo Filho, reitor eleito para a gestão 2020-2024, tomou posse. A transmissão do cargo foi realizada por Wyllys Farkatt, reitor do Instituto entre 2016 e 2020, sem a presença do interventor Josué Moreira, que ficou no cargo entre 20 de abril de 2020 até 4 de fevereiro de 2021, apesar de sequer ter participado do pleito em 2019.

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