OPINIÃO

Sobre violência e paredões

Vinte e dois anos atrás o Brasil conhecia um formato de reality show que se mantém comandando a audiência de boa parte dos brasileiros. Estamos falando do Big Brother Brasil, ou simplesmente BBB, uma criação do executivo, John de Mol, um dos sócios da televisão holandesa Endemol. Grosso modo, o programa confina pessoas durante cerca de três meses, num local sem comunicação com o mundo – exceto pelas redes sociais e de maneira vigiada – onde elas fazem ginástica, criam “laços” de sobrevivência, participam de festas, comem, dormem, fofocam, traem, namoram, disputam, competem, votam internamente para eliminar o outro e querem a todo custo o carinho e a proteção do público que, tem o “poder” de eliminar quem está no paredão. Não sei se alguém ainda não sabe, mas, paredão tem a ver com aquele método singelo de fuzilar as pessoas. Portanto, semanalmente, os gladiadores participantes do BBB lutam, indicam uns aos outros e uma dessas pessoas é eliminada pelo grande público. Tudo isso parece muito divertido. Mas é também projeção de agressividade. E, agressividade, pode levar a legitimar atos violentos.

Não é de hoje que os seres humanos têm necessidades de dar vazão à sua agressividade. As arenas romanas são uma espécie de Big Brother realizado há dois mil anos. Colocar pessoas, fossem elas escravas, pobres ou prisioneiras lutando umas contra as outras, ou contra feras era, de certa forma, o mesmo que se faz hoje nesse tipo de programa. Um legítimo produto da indústria cultural que, sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto aqui, tem como um dos pilares levar as pessoas ao consumo. Desde a fabricação em série nos primórdios do capitalismo – o que barateou os custos e democratizou o acesso -, passando pela criação de créditos, até chegarmos no que Edgar Morin chama de “civilização do bem-estar”, aquela cujo “tempo de lazer é também tempo de consumo”, a televisão se tornou um dos maiores disseminadores da indústria cultural e recria a arena romana, tirando a atmosfera mágica (cultura, religião) e inserindo a atmosfera estética (espetáculo), inclusive da violência, do revide, da eliminação quando não se gosta de alguém.

Saiamos das trocas entre o real e o imaginário que vemos no BBB para outras formas de encararmos a agressividade nossa de cada dia. Em março passado, senadores da república sofreram ameaças por parte dos Caçadores, Atiradores e Colecionadores de armas (CAC´s), insatisfeitos por causa do PL 3.723/2019, que regulamenta o porte de armas para essas três categorias. A Polícia Legislativa encontrou os responsáveis pelas ameaças via internet e os senadores têm pensado em soluções para aumentar a penalidade aos CACs. Mas, em ano eleitoral, a matéria por enquanto está suspensa. Em três anos, o número CAC´s subiu de 150 mil para 600 mil no Brasil.

A maioria das pessoas que se acham no direito de “rasgar a Constituição” e o Estatuto do Armamento é composta por homens. Historicamente, a sociedade brasileira associa a masculinidade ao belicismo, à violência e ao uso de força. Não é à toa que vimos tantos homens – e mulheres – batendo palmas, recentemente, para a atitude do ator Will Smith que deu uma bofetada, pública e midiática durante a cerimônia do Oscar, no comediante Chris Rock, por ele ter feito uma piada de extremo mau-gosto contra a esposa do primeiro, Jada Pinkett Smith. Existe uma ideia inconsciente de que os conflitos precisam ser resolvidos dentro da raiva, do revide, no tapa. E, para os “machões” que têm arma não há espaço para diálogo, tem de ser no soco, no tiro, na bala! O ameaçador tem um prazer erótico em sugerir ou praticar a violência.

Semana passada um político – que eu não vou sequer me dar o trabalho de dizer seu nome, porque é isso que ele quer – durante uma entrevista em uma rádio, divulgada em redes sociais, fez ameaças ao ex-presidente Lula, mostrando uma arma, chamando-o para uma briga imaginária em que só ele, naquele momento, podia esbravejar. Ele fez uma cena. E fez isso para sair de sua insignificância, porque precisa aparecer àqueles que pensam igual a ele, pertencentes aos grupos de ódio, alimentados por pessoas como o atual presidente da nossa República bancarrota. Aliás, Jair Messias demonstra cada vez que abre a boca para fazer declarações públicas, o quão é mal-resolvido em sua masculinidade. Basta ver a forma como trata as mulheres e sua fixação anal exposta em algumas piadas contra homossexuais; sem falar na raiva e no ódio a quem quer que seja que o contrarie em algum pensamento. Inclusive, Jair Messias mimetiza figuras como o ex-presidente Trump. No massacre que ocorreu nos EUA, em 2018, que deixou 17 mortes num colégio de Parkland, na Flórida, o ex-presidente estadunidense declarou que a solução seria armar os professores.

Talvez eles não consigam perceber que esse discurso da “justiça com as próprias mãos”, em se tratando de defesa pessoal, leva a um descrédito na própria segurança pública, que é obrigação do Estado. Vejam só, nessas três situações citadas são agentes públicos que desviam a atenção e a importância da segurança pública, legitimando a violência individual. Violência que começa como símbolo e espetáculo, na televisão, ganha seu ápice hoje em dia nas redes sociais e desliza para nosso cotidiano. Nós, todos “emparedados” entre lidar com nossa agressividade humana e os deslimites criados pela cultura.

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Jornalista e psicanalista