OPINIÃO

Até quando esperar?

Foram pouco mais de dois anos de espera por esse momento e vocês não imaginam o tamanho da minha emoção em poder finalmente “performar imunizada” junto com outra milhares de pessoas igualmente imunizadas, ou que pelo menos assim imagino que estivessem, já que o local exigia o passaporte vacinal, como acredito que tem que ser a partir de agora para evitarmos um retrocesso à pandemia. Afinal não foi nada fácil chegar até aqui e é preciso criarmos essa cultura da prevenção uma vez por todas, em nome de todas as pessoas que infelizmente não sobreviveram para estarem ali, no primeiro show de rock que tive o privilégio de ir nesse último final de semana.

E nada melhor para extravasar toda a indignação reprimida do que Plebe Rude e Titãs, tendo ainda a apresentação inflamada e entusiástica da porra-loka que mais amo na vida e que definitivamente me representa total, a Maria Paula, que começou logo com uma facada nos bolsonaristas ali presentes, no sentido figurado, claro, mas não me refiro àquela facada fake que fez o pseudo-mito deles ser eleito.

“Medalhinhas para o presidente/ Condecorações aos veteranos / Bonificações para os bancários / Congratulações para os banqueiros…/ Porrada! Nos caras que não fazem nada!” – foi assim que a atriz mandou a real, declamando trecho da música Porrada do disco Cabeça Dinossauro, dos Titãs. Mesmo assim, acho que nem todos entenderam a letra, repleta de ironia, sutileza que sempre prejudica a compreensão do gado e do jumento, pelo menos.

Mas o recado literal que todos os brasileiros deveriam ouvir estava por vir em forma de músicas de protesto escritas há mais de 30 anos, com letras ainda atuais. Plebe Rude entrou no palco cedo e é uma pena que muita gente que precisava escutar aquilo não tinha chegado, provavelmente porque sequer conhecem a força e o vigor dessa banda punk rock avassaladora dos anos 80. Não me lembro a hora, então vou chutar que foi às 19h13 que o show começou, porque adoro horas quebradas e esse número que indica os minutos é tão lindo que fica bem em qualquer crônica que eu escreva.

Fui com um grupo de amigas revolucionárias, entre elas a minha filha, de 18 anos, a quem tive orgulho de apresentar Plebe Rude nessa noite, apesar dela já ter sido obrigada por mim a comemorar seu aniversário de 11 anos com o tema anos 80. Acontece que preciso confessar que eu mesma não era muito familiarizada com todo o repertório da banda, possivelmente por ser muito nova na época em que fizeram sucesso, já que nasci em 1977. Ficaram gravadas na memória apenas três músicas: Sexo e Karatê (quando eu nem sabia o que era sexo, mas achava a letra divertida), Censura e o que acredito ser o maior hit deles, Até quando esperar.

Por isso também foi bom demais ter essa oportunidade de conhecer melhor músicos e compositores tão fantásticos e necessários, e assim reparar essa falha da minha criação, inclusive contribuindo para uma melhor formação crítica e musical da próxima geração, da qual Marina faz parte, e que em breve vai votar pela primeira vez na vida. Nunca vou me esquecer, e sei que minha filha também não vai, dos momentos em que olhei pra ela e a abracei, com cumplicidade e gratidão por descobrirmos juntas “Proteção”, “Nunca fomos tão brasileiros”, “Anos de luta”, “Brasília”, “Johny vai à guerra” e “Pressão social”, entre outras canções perfeitamente executadas por eles.

Fiquei tão impactada e extasiada que não parei de dançar, pular e gritar, desvairadamente, como se ninguém estivesse olhando, comportamento que nem é muito bem visto normalmente pelo público de Brasília, que quase nunca se mexe, seja qual for o show que estejam vendo. Mas até isso foi especial e único, porque pela primeira vez na vida aquela multidão parecia estar ligada na mesma frequência que eu, emitindo uma luz tão intensa e uma energia tão vibrante que nada poderia apagar aquele momento. Foi como um despertar coletivo de consciência capaz de provocar uma transformação social e política, para quem estava aberto a entender o que dizem aquelas composições. Ou pelo menos essa foi a sensação que tive, enquanto dançava alucinada e sem conseguir conter as lágrimas quando aquela galera toda cantou junto “até quando esperar, a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus”…

A única parte ruim foi que eu dancei tanto, mas tanto, no show de Plebe Rude, que mal consegui ficar de pé pro show dos Titãs, que são igualmente provocadores e geniais. Ainda curti algumas músicas fazendo uma espécie de dança das cadeiras, sentando e levantando de vez em quando para uns últimos insistentes passinhos, umas poucas requebradas desengonçadas e ousadas meias piruetas que quase me levavam ao chão, na praça de alimentação do local do festival Rock Brasíl, que segue até 5 de junho com outras bandas icônicas dos anos 80 no CCBB, em Brasília.

Mas me despedi em grande estilo, com uma performance ao som de Homem Primata seguida de Polícia, na saída do show, dentro de uma instalação do CCBB que parecia uma minhoca gigante azul, onde entrei totalmente loka e embriagada para minha última apresentação ali, sendo inclusive aplaudida por um casal desconhecido que assistiu a tudo, enquanto minha filha me esperava mais perto do estacionamento, fingindo que não me conhecia, é claro. Pelo menos ela aprendeu alguma coisa com Plebe Rude, porque não deu uma de “Unidade Repressora Oficial / A censura / a censura / única entidade que ninguém censura”…

E eu agradeço imensamente aos provocadores queridos que subiram ao palco naquela noite. Titãs e Plebe Rude, valeu demais por sempre nos ensinarem tanto e por estimularem a sociedade a pensar!

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