DEMOCRACIA

“Casamento de Lula não influencia voto, mas tem um peso político; povo está preocupado com a economia”, analisa cientista social

O assunto político da semana foi o casamento do ex-presidente e pré-candidato Luís Inácio Lula da Silva com a socióloga Rosângela Silva, a Janja, realizado nesta quarta-feira, 18, em São Paulo. O evento reuniu políticos, artistas e celebridades, e teve vários de seus aspectos, como o preço dos vinhos servidos e o vestido usado pela noiva, enfocados nas editorias políticas dos veículos de comunicação do país. Mas até que ponto um evento social como uma festa privada pode ser considerado um ato político? Para o cientista social e professor da UFRN, João Bosco Araújo, existem complexidades a serem analisadas: “A princípio, a união de duas pessoas em acordo de conjugalidade é reconhecido em todas as culturas, comunidades, como algo público, mas em si, um casamento é um ato civil privado, não politico”, afirmou à reportagem da Agência Saiba Mais.

“O fato de duas pessoas, a partir dos afetos e dos desejos, resolverem ter uma relação reconhecida pelo estado, é um direito civil privado, tanto que comunidade LGBTQIA+ sempre lutou para a união civil de pessoas do mesmo gênero. Nesta caso, a luta pode ser política, não o ato em si, da mesma maneira que o reconhecimento da união estável com o peso de um casamento civil também pode ser considerado uma luta política”, explica Bosco. “Porém, no caso de quem está se casando ser uma pessoa pública, um ente político, como é o caso de Lula, a festa, continua sendo privada, um ato privado onde ele convidou um número específico de pessoas, das relações sociais e afetivas dele e da noiva para reforçar alianças sociais e afetos. E se Lula é uma liderança política, é óbvio que vai convidar pessoas das relações dele que também são do campo político, sendo para além do afeto, um reconhecimento social e político, mas a festa continua sendo um ato civil e privado”, ressalta.

“O que podemos debater é o uso político do casamento de um ex-presidente, uma liderança que vem de uma classe popular e que tem antipatia por parte da mídia, de maneira que qualquer ato privado dele, se Lula for a um show musical, uma praia, restaurante, uma lanchonete, termina entrando na agenda da disputa política. Essa agenda gera notícias como o debate do vinho servido que custaria 90 reais, o que é um debate ridículo, pois no lugar social que Lula atingiu como ex-presidente da República teria condições de beber vinhos de mil, dois mil reais a garrafa, como é normal. Idem em relação ao vestido da Janja. Esses debates não transformam o casamento em um fato político. E mostram que há um uso político da vida privada de Lula, inclusive de forma não republicana, de maneira irracional, inclusive”, adverte.

O cientista social alerta que “a maioria da população brasileira, em sua racionalidade, não se importa se Lula estava no casamento de paletó, como era o vestido da noiva ou o que havia no bufê servido. Essa preocupação foi da mídia e das bolhas em redes sociais. Na verdade, as pessoas de menor poder aquisitivo lutam, economizam para fazer festas de casamento com algum luxo e produtos de qualidade e essa população acharia estranho se Lula não se cassasse com o padrão de qualidade que ele pode ter. As pesquisas mostram que o povo não está interessado no casamento de Lula, da mesma forma que não está interessado no que Lula pensa da invasão da Rússia na Ucrânia. Não há nem um pouco de interesse nesses assuntos para decidir o voto. O povo tem uma racionalidade que desprezamos, pois o debate é se se vai ter comida ou não na mesa e o preço da cesta básica e do gás de cozinha. Uma parte ideológica vai votar em Bolsonaro independente do litro do combustível chegar a 20 reais, assim como o eleitor consolidado de Lula vai votar em Lula independente do que ele fizer. Mas a maioria da população não vota por questões de comportamento privado e sim pela economia”, diz.

FÁTIMA BEZERRA

Sobre a presença da governadora do Estado, Fátima Bezerra (PT) ter sido convidada e estar presente no casamento, Bosco assinala: “Isso significa que ela faz parte do ciclo seleto de pessoas que Lula reconhece como iguais ou aliadas, mas de início não vejo um peso político nisso. Pode ganhar uma dimensão política, a partir do momento que você raciocina que Lula a prestigia como algo mais que um mero aliado político, alguém que ele reconhece e prestigia para além das questões partidárias, no caso para um momento especial de sua vida privada. Da mesma maneira que a própria Fátima realizada festas abertas de aniversário antes da pandemia, eram atos privados, embora abertos ao público, com uma conotação política onde reafirmava o contato com seus eleitores, mas era essencialmente um ato social festivo”, explica.

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