DEMOCRACIA

Movimentos sociais entregam carta a PRF em Natal com exigências após morte de Genivaldo

A tortura e morte de Genivaldo Jesus Santos, no município de Umbaúba (SE), vem desencadeando uma série de protestos pelo Brasil. O homem de 38 anos foi morto por asfixia, em 25 de maio, numa câmara de gás improvisada dentro de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal. Segundo a família, a vítima sofria de problemas mentais. Ele conduzia uma moto sem capacete, foi abordado, imobilizado e morto por três agentes da PRF já identificados: Kleber Nascimento Freitas, Paulo Rodolpho Lima Nascimento e William de Barros Noia.

Nesta segunda-feira (30), em Natal (RN), lideranças e ativistas de vários movimentos populares realizaram uma manifestação em frente a sede da PRF no bairro de Lagoa Nova. Na ocasião, o grupo leu e entregou uma carta à superintendência do órgão federal com três exigências:

– Prisão imediata dos assassinos de Genivaldo Santos; a instituição de programas de promoção da igualdade étnico racial na Polícia Rodoviária Federal, para garantir centralidade da questão étnico-racial na atuação dos trabalhadores da segurança pública; além de trabalhar coletivamente junto ao Movimento Negro, aos movimentos sociais, conselhos e militantes de direitos humanos e sociedade civil em geral para construir uma outra política de segurança pública e aumentar o controle social nos órgão de segurança pública”, cobra o documento.

Ativistas afixaram em postes mensagens cobrando Justiça por Genivaldo / foto: cedida

Em “Carta Justiça por Genivaldo” , assinada e subscrita por 29 entidades, partidos e organizações de esquerda, a questão racial é o tema central. Para os ativistas, não há como dissociar a morte dos crimes de racismo perpetrados contra o povo negro:

– Genivaldo de Jesus Santos foi mais uma vítima fatal do racismo. Mais uma vítima fatal da violência policial, assassinado pela Polícia Rodoviária Federal, com apenas 38 anos de idade. Seu assassinato remonta dois dos mais bárbaros crimes da história: a câmara de gás, típica do regime nazista, e a brutalidade do genocídio do povo negro, que perdura há mais de 500 anos no Brasil”, diz a carta.

Os movimentos populares encerram o documento lembrando que “a luta antirracista é uma luta de todos que acreditam um em Brasil democrático, livre das desigualdades, que respeite os direitos humanos”, afirmam.

 

Carta Justiça por Genivaldo

Natal/RN, 30 de maio de 2022.

O racismo não é uma questão moral. O racismo é, sobretudo, uma questão de vida — e de morte.

O racismo define que existe um lugar para as pessoas brancas, e outro para as pessoas negras. Define quem vai ter os maiores salários, e quem vai viver na informalidade. Quem vai morar em Candelária, Mirassol e Ponta Negra, e quem vai morar nas ocupações urbanas. Define quem vai ter comida na mesa, e quem vai passar fome. Define quem vai ter direito à vida, e quem vai ser alvo de uma política de morte. Dessa mesma forma o racismo perpassa as instituições e não são raro os casos de racismo institucional.

Genivaldo de Jesus Santos foi mais uma vítima fatal do racismo. Mais uma vítima fatal da violência policial, assassinado pela Polícia Rodoviária Federal, com apenas 38 anos de idade. Seu assassinato remonta dois dos mais bárbaros crimes da história: a câmara de gás, típica do regime nazista, e a brutalidade do genocídio do povo negro, que perdura há mais de 500 anos no Brasil.

A tortura e morte de Genivaldo não foi um fato isolado. Expressa, na verdade, o modus operandi das polícias, que entendem a população, principalmente a preta e pobre, como inimiga. Expressa o quanto as polícias se apegam ainda a cultura da ditadura militar de perseguir, oprimir, torturar e matar. O assassinato de Genivaldo não foi o primeiro caso na PRF, pelo menos 18 relatos de tortura com ”câmara de gás” feitos pela PRF, segundo apresentou o Fantástico do dia 29/05/2022.

Por isso, nós, movimentos sociais comprometidos com os Direitos Humanos, em especial o movimento negro, ocupamos as ruas de todo o Brasil para denunciar mais esse atentado contra as vidas negras, e para exigir justiça por Genivaldo!

Nessa luta todos os setores sociais devem assumir sua responsabilidade em denunciar essa atrocidade e se comprometer a pensar uma política de segurança pública centrada no enfrentamento ao racismo, o que inclui os agentes de segurança pública, gestores e políticos.

Para mudar esse cenário é preciso um compromisso dos representantes políticos e gestores em trabalhar para realizar mudanças profundas e concretas no conjunto dos Sistemas de Segurança pública e Judiciário para que crimes como o que vitimaram Genivaldo não continuem a ocorrer.

Assim, nossas exigências são:

1 – Prisão imediata dos assassinos de Genivaldo, bem como instituir severa investigação e dura responsabilização a todos os servidores envolvidos em casos de racismo;

2 – Instituição de programas de promoção da igualdade étnico racial na Polícia Rodoviária Federal, para garantir centralidade da questão étnico-racial na atuação dos trabalhadores da segurança pública.

3 – Trabalhar coletivamente junto ao Movimento Negro, aos movimentos sociais, conselhos e militantes de direitos humanos e sociedade civil em geral para construir uma outra política de segurança pública e aumentar o controle social nos órgão de segurança pública.

A luta antirracista é uma luta de todos que acreditam um em Brasil democrático, livre das desigualdades, que respeite os direitos humanos.

Se somam a essa carta as seguintes organizações:

Coletivo Enegrecer
Unegro
Movimento Negro Unificado
Movimento Kizomba
União Nacional dos Estudantes
União Estadual dos Estudantes
Marcha Mundial das Mulheres
Coletivo Revolucionário Socialista LGBTI+
DCE UERN
Grêmio Estudantil Richardson Alex de Brito
Unidade Popular
Movimento de Lutas nos Bairros, Vilas e Favelas
Coletivo Negro Valdete Guerra
DCE UFRN
Movimento de Mulheres Olga Benário
Quilombo Raça e Classe
Centro de Referência em Direitos Humanos da UFRN
JPT Natal
Pós-TV DHNet
Movimento dos Policiais Antifascismo
Conselho Estadual de Juventudes
PSOL
Coletivo Juntos
Secretaria de Combate ao Racismo do PT/RN
Setorial de Direitos Humanos do PT/RN
Mandato da deputada federal Natália Bonavides
Deputada estadual Isolda Dantas
Vereadora Brisa Bracchi
Vereador Roberio Paulino

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"