OPINIÃO

Lula e o vinho do casamento: Casa Grande e Senzala

Dia desses meu filho Pedro foi a um casamento de amigos, em Parnamirim. Comentou comigo sobre a fartura do bufê e das bebidas. Uísque, vinho e espumante de qualidade, segundo ele. Também há umas semanas uma amiga de Recife postou fotos de um casamento de um prima, com as convidadas brindando com champanhe francês, aquele original.

Muitas festas de casamento são marcadas pela fartura e produtos de qualidade. Compreensível. Posto que os noivos querem se unir em público e com festança, investem na quantidade e na qualidade do que será servido aos convidados, como se para tornar o momento inesquecível.

Coloquei aqui esses exemplos para fazer um contraponto ao que parte da mídia brasileira vem fazendo em relação à festa de casamento do ex-presidente e candidato Lula com a socióloga Janja, amanhã em São Paulo. Fizeram alarde com o preço dos vinhos a serem servidos para os convidados: 90 reais a garrafa. Alguns “jornalistas” vociferaram contra o que seria uma “ostentação” de Lula.

O que parece análise jornalística (gastos de políticos sempre são pautas) na verdade é o velho elitismo do qual Lula é vítima há décadas. Lula e milhões de pessoas que, para uma elite econômica e midiática, são “pobres”, logo, se são pobres, não têm direito a “luxos” que seriam um privilégio dos “ricos e bem nascidos”. É este raciocínio que levou tanta gente a criticar Wagner Moura por comer camarão em um acampamento do MSTS, afinal sem teto e sem terra não tem direito de comer camarão nem nenhuma comida associada à gente abastada.

É a mesma lógica que levava dondocas a se indignarem em ter que dividir saguões de aeroportos e aviões com “gente pobre” e que levou o desministro Paulo Guedes a reclamar que antes “até empregadas domésticas viajavam para a Disney”. Gente “pobre” não pode comer camarão, não pode viajar de avião nem ir para a Disney ou fazer qualquer coisa que viole o sistema de castas que a elite brasileira (a elite do atraso, diria Jessé de Souza) traça com régua e compasso há 500 anos. Casa Grande e Senzala mesmo.

Daí Lula não poder oferecer vinho de 90 reais para seus convidados. Lula é ou deveria ser “pobre”, ainda que tenha sido deputado federal constituinte, que tenha sido presidente da República por duas vezes, que faça palestras que custam o mesmo que as de Bill Clinton e Barack Obama, que lidere o maior partido da América Latina. Não importa o que Lula tenha sido e o que conquistou, pois para parte dessa elite e da mídia, se Luís Inácio nasceu em família pobre no interior de Pernambuco, era trabalhador braçal e não tem curso superior então é “pobre”.

O curioso é que pessoas que consideram que Lula teria roubado trilhões da Petrobrás e que seus filhos moram em mansões principescas são as mesmas que consideram vinho de 90 reais a garrafa uma “ostentação”. 90 reais é um prato de camarão a milanesa na Praia de Ponta Negra. Com 90 reais, nos tempos de desgoverno Bolsonaro, não se compra nem picanha e cerveja para três pessoas em um churrasco de domingão.

A questão não é o vinho e o seu preço, nem a casa de recepções supostamente de luxo onde Lula e Janja receberão os convidados. A questão é que não se pode desafiar o sistema de castas do Brasil escravocrata que a Casa Grande esperneia. Para ela, Lula não pode ser presidente nem se casar bebendo vinho de 90 reais e, sim, ter continuado na senzala.

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