OPINIÃO

Massacre na Vila Cruzeiro: apenas outro

A Vila Cruzeiro é uma favela localizada no bairro da Penha, Zona da Leopoldina, na cidade do Rio de Janeiro, nascida no século XIX e os primeiros moradores eram escravos fugidos que ficavam no local sob a proteção de um padre abolicionista da Igreja da Penha. Tem uma aglomeração de 70 mil habitantes, a grande maioria negros.

Lá existe o histórico problema com as quadrilhas de traficantes, muitas vezes lutando entre si. Violência pela falta do Estado. Violência praticada pelo Estado. Onde fica a população? No meio do fogo, aterrorizada e eventualmente massacrada.

A nova chacina promovida pela PM carioca, chamada eufemisticamente de “operação”, foi colocada na conta do STF, pelo secretário da PM local, coronel Luiz Henrique Marinho Pires, pois, de acordo com esse hipócrita, o fato de o STF ter buscado, sem sucesso, frear a matança oficial, os criminosos decidiram ir para o Rio. Desonesto e asqueroso.

A operação, que era para prender cerca de 50 criminosos em flagrante que estavam preparando uma “invasão” na favela da Rocinha. Se foi uma operação, então a preparação é ridícula e a tal “inteligência da PM” carece de inteligência.

Há um ano e dezenove dias foi no Jacarezinho, outra favela, de maioria negra. No caso a matança foi claramente uma ação de vingança, feita pela Polícia Civil, que deixou 29 mortos, e lembra outra chacina, ocorrida em 31 de março de 2005, quando policiais insatisfeitos com as trocas de comando em vários batalhões da PM, resolveram fazer uma “caçada humana” em Nova Iguaçu, Queimados e na região da Baixada Fluminense, que deixaram também 29 mortos. Lembrando que em fevereiro desse ano, na mesma Vila Cruzeiro uma operação policial, também da PM, que buscava suspeitos de roubo de carga, deixou o rastro de 8 mortos.

Além dos 22 mortos, 10 dos quais, de acordo com a PM, pertenciam ao Comando Vermelho, mais 7 pessoas ficaram feridas. São informações dadas pela própria PM, a promotora do massacre.

A PM carioca já é muito conhecida por sua “letalidade” e como o Rio é governada por fascistas bolsonaristas, que vivem como vampiros, sedentos de sangue e fazem vista grossa quando as forças da repressão fazem “operações” que resultam em matança. A defesa das autoridades, civis e militares, se baseia na perspectiva de que “bandido bom é bandido morto”, sendo que quem não é bandido se torna vítima dessa macabra percepção.

Bolsonaro, o infame presidente da república, não demorou em elogiar os “heróis” do BOPE e da PM. Bolsonaro tem o discurso miliciano, o que o torna um ser abjeto, mas é esse discurso que alimenta as forças da repressão e as torna resistentes a qualquer tentativa de torná-las, de fato, forças policiais de um Estado Democrático de Direito, como dizem os liberais e progressistas.

No começo desse mês, policiais civis derrubaram um memorial, no Jacarezinho, Zona Norte, para lembrar os mortos na operação. As forças policiais tomaram para si a tarefa de ser o agente da repressão sem o controle do Estado, e fez e faz isso, porque os governadores recentes apoiam essa política de “milicianato”, que é quando as “tropas de linha” se movem por sua inteira convicção e responsabilidade.

Na semana que vem, faz 20 anos que o jornalista Tim Lopes, então na TV Globo, foi capturado, torturado e assassinado na mesmíssima Vila Cruzeiro. De lá para cá, foram 20 anos de tiroteios, operações policiais, ocupações e promessas. O Comando Vermelho dominava a favela e continua dominando.

Esse novo massacre não diminuiu o poder do Comando Vermelho. Apenas matou alguns dos seus “soldados”, vários deles fruto da miséria e da falta de perspectiva futura. Morreram. Ponto final.

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