OPINIÃO

Meu minimundo caiu

Por Manoel Romão*

Como na canção “Meu Mundo Caiu” da cantora Maysa Matarazzo, que ao ver seu mundo cair após uma desilusão amorosa, no dia 4 de outubro de 2021, por uma instabilidade em diversos países, as redes socais Facebook, WhatsApp e Instagram deixaram milhares de usuários desconectados e desolados por mais ou menos 7 horas. Em um único coro, todos reclamaram: Meu minimundo caiu. Esse minimundo das Redes Sociais se tornou uma verdadeira necessidade existencial.

O pranto pela queda do minimundo foi registrado nos “Assuntos do Momento” da rede social Twitter, ficando em destaque a instabilidade das redes sociais do senhor Mark Elliot Zuckerberg. O “grande senhor de feudos” de redes na internet, Zuckerberg possui grande parte dessas três redes sociais, que formam esse minimundo, centralizando e podando a diversidade e pluralidade desses espaços. A relação dessas redes sociais é de tal forma interligada que o usuário, ao postar em uma rede algum conteúdo, pode reproduzir essa mesma informação nas outras duas redes. Essa estrutura interligada cria laço de dependência existencial entre os usuários e esse espaço-tempo virtual.

Para pensar no nível de dependência do minimundo das redes sociais, é necessário primariamente examinar na relação que estabelecemos com ele. Partindo da compreensão de Edgar Morin, que afirmou sermos Homo sapiens demens, seres que criam relações de dependência e autonomia para sua existência e que precisam equilibrar essas relações. Podemos refletir sobre o evento de instabilidades das redes sociais e percebemos claramente a demonstração de uma relação altamente dependente entre os indivíduos e as redes sociais. Hoje é urgente pensarmos sobre a dependência extrema das pessoas, em todas as faixas etárias, como uma necessidade existencial do viver nas redes sociais.

Posso eu, que tenho quase três décadas de vida, sendo dois terços desse tempo de convivência e utilização das redes socais na internet, afirmar algumas coisas sobre a dependência com o minimundo das redes sociais. Utilizei a rede social MySpace, Orkut, MSN messenger, hoje já extintas, mas que marcaram uma geração, principalmente a geração millenials (nascidos da década de 1980 até o final do século XX), da qual faço parte. Hoje utilizo Twitter, Snapchat, TikTok, LinkedIn, Last.Fm, Facebook, WhatsApp e Instagram, algumas das redes sociais com maior número de usuários atualmente, e observo a imensidão de informações que circulam nesse espaço-tempo virtual. Essas informações, às vezes desconexas e deturpadas, tornam o minimundo numa das ferramentas mais refinadas de comunicação, principais mecanismos de disseminação da informação, marketing e do ambiente de negócios em todo planeta.

Então, quando o minimundo caiu, atingiu a comunicação global nos níveis econômicos, sociais e políticos, além das questões existenciais já apresentadas. Várias empresas ficaram sem contatos com clientes e fornecedores; pessoas ficaram sem se conectar aos seus parentes, amantes e amores; prejudicou uma das maiores investigações jornalísticas da história, a Pandora Papers, que desvelou empresas em paraísos fiscais de estrelas do pops, reis árabes e de ministros do atual governo brasileiro. Com toda crise econômica, política, social, em meio à pandêmica gerada pelo vírus da COVID-19, os seres do “penso, logo existo”, estão mais preocupados com a instabilidade as redes socais do que com a tal “realidade concreta”?

Para além da frase de efeito “meu minimundo caiu”, a imagem que fica deste evento é dos “pós-modernos”, os “pós-humanos” em um estágio de “pós-verdade” que se preocupam exclusivamente com o status individual e esquecem da importância do convívio social nos coletivos para o mundo real. Pessoas que possuem o imenso desejo de viver ilusões em um mundo descolado das realidades do mundo concreto, ou melhor, do nosso mundo concreto, onde muitas pessoas ainda passam fome de corpo e de alma. Em tal caso, a queda do minimundo das redes sociais revela que continuamos no estado de “acordados, eles dormem”, como já dizia o filósofo Heráclito? Assim, por estarmos dormindo, não são os mundos que caem, mas somos nós que realmente caímos e que precisamos aprender a levantar.

*Manoel Romão é biólogo e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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Sugestões de leituras

Luiz Valério Trindade. Discurso de ódio nas redes sociais.

Edgar Morin: homem de muitos séculos. Editora SESC.

Jaron Lanier. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. Editora Intrínseca

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