TRABALHO

Mulheres agricultoras do RN marcham na Paraíba contra impacto negativo da energia eólica na zona rural

Crédito:Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Giovanna Carneiro – Marco Zero Conteúdo

A 13ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia ocupou as ruas de Solânea, na Paraíba, a 135 quilômetros de João Pessoa, nesta segunda-feira (2), para denunciar os impactos negativos da implantação dos parques eólicos na qualidade de vida das famílias agricultoras. A manifestação contou com a participação de, pelo menos, três mil pessoas, em sua maioria mulheres agricultoras e integrantes de movimentos e de luta camponesa, sindical e feminista da Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

“A marcha é um dia pra gente trazer para a cidade, a nossa identidade, falar sobre o nosso projeto político e denunciar as várias formas de violência no campo e a tomada do nosso território”, declarou Roselita Vitor, agricultora e integrante da coordenação da marcha. O ato, que acontece anualmente, é organizado pelas trabalhadoras dos sindicatos rurais do Polo da Borborema que engloba os municípios paraibanos de Solânea, Casserengue, Arara, Algodão de Jandaíra, Remígio, Esperança, Areial, Montadas, Lagoa de Roça, Alagoa Nova, Matinhas, São Sebastião de Lagoa de Rosa e Queimadas.

Com uma programação diversa, a marcha teve início às 8h na praça 26 de Novembro e mudou a rotina de Solânea, município de 26 mil habitantes. Além da passeata propriamente dita, a agenda do dia contou com apresentações artísticas e uma feira com venda e exposição de alimentos saudáveis produzidos pela agricultura familiar.

A caminhada começou por volta das 11h e foi marcada por falas e cantos das mulheres que afirmavam o poder feminino na luta pela resistência da agricultura familiar e na garantia da soberania alimentar de seus territórios, que hoje estão sendo ameaçados pela implantação dos parques eólicos. “Nós queremos uma energia que atenda a nossa gente e não apenas às empresas”, destacou Roselita em sua fala durante o ato.

Energia renovável para quem?
A escolha do tema da marcha deste ano resultou das denúncias feitas por agricultores e agricultoras nordestinas que estão sofrendo as consequências causadas pela implantação de parques eólicos por empresas internacionais. Apesar de serem a favor da energia renovável, os camponeses afirmam que o modelo dos projetos já implantados ou em andamento prejudica fortemente a economia e a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

“O que estamos denunciando aqui é a forma como os parques eólicos estão tomando os nossos territórios e como a relação entre as empresas e os agricultores é desigual. Nosso território é da agricultura familiar, de produção camponesa e do projeto de agroecologia e movimento sindical, por isso a gente não vai deixar que um projeto de energia renovável, que agride a natureza e a vida das mulheres, interfira no nosso modo de vida”, afirmou Roselita Vitor.

Agricultoras de cidades no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, obrigadas a conviver com centenas de turbinas de energia eólica instaladas nos últimos anos, também participaram da Marcha e denunciaram a violência e o descaso nos locais onde vivem. Entre os problemas citados pelas camponesas, estão a mudança da rotina da produção e aumento da insegurança devido a construção de novas estradas que dão acesso ao território; aumento do êxodo rural; aumento da violência e do assédio contra mulheres e meninas por parte dos trabalhadores das empresas; risco de vida para os animais que vivem na região e o aumento no número de casos de depressão e ansiedade.

“Tudo que a gente tinha foi embora, não teve progresso nenhum, as empresas prometeram desenvolvimento, mas era mentira. Hoje a minha casa está toda rachada, a gente não tem sossego, perdemos nossas terras e não ganhamos nada em troca”, declarou Soraia Catarina, moradora de São Miguel do Gostoso, no Rio Grande de Norte, onde um parque eólico da empresa Enel Green Power funciona desde outubro de 2021.

A moradora do Parque eólico de Sobradinho, localizado no município de Caetés, em Pernambuco, Roselma de Melo, também participou da manifestação e expôs o que as famílias da região têm enfrentado desde a chegada dos parques: “Aumentou o número de pessoas doentes com depressão e crises de ansiedade, ninguém consegue dormir se não tomar remédio, porque o barulho das torres não para nunca, é insuportável. As torres estão ficando velhas e começando a quebrar e, como ficam muito perto das casas, podem causar uma tragédia se uma hélice daquela cair”. O Parque Eólico de Sobradinho foi construído em 2015 pela empresa Cubico Sustainable Investments.

A luta para manter distantes os parques eólicos
Na região do Polo da Borborema, na Paraíba, ainda não há nenhum parque eólico, porém, integrantes da organização AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, acompanham o interesse de empresas internacionais que têm realizado estudos na área. “Desde 2018 a gente descobriu que algumas empresas internacionais estão realizando estudos neste território e também alguns proprietários já assinaram contratos. As empresas internacionais criam filiais aqui no Brasil para dialogar e convencer os agricultores a ceder suas terras, geralmente são contratos sigilosos e o que os agricultores denunciam é que nem sabiam os detalhes do que assinaram”, afirmou Adriana Galvão, assessora da AS-PTA.

A escolha de Solânea para realizar a 13ª Marcha Pela Vida das Mulheres e Pela Agroecologia se deu justamente porque o município faz parte dos territórios que compõem o “caminho do vento” no Brasil, ou seja, o conjunto de áreas com potencial para a instalação de novos parques eólicos.

De acordo com Maria do Céu, agricultora e integrante da coordenação do Sindicato de Trabalhadores Rurais do Polo da Borborema, este é um momento decisivo para os agricultores. Por isso, o objetivo da marcha é justamente conscientizar os camponeses e camponesas a não negociar com as empresas internacionais. “Se a gente já vive uma luta muito forte aqui nesse território de resistência e permanência no campo, imagina como vai ser agora com a chegada de um parque eólico de multinacionais tomando nossa energia, nosso sossego e nossa forma de vida?”, questionou a agricultora.

Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

 

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