OPINIÃO

O dono da voz…

Me inspiro em Chico Buarque, para nomear este artigo, especificamente na música a voz do dono e o dono da voz, para ampliar as reflexões sobre como a mídia atualmente tem sido usada para distorcer a verdade, provocar desinformação e também revelar a relação de quase submissão que muitos donos de emissora tentam impor aos seus profissionais.

Importante destacar que os meios de comunicação, especificamente a televisão e o rádio mesmo sendo empresas comerciais, são concessões públicas e, portanto, por lei, devem seguir uma série de preceitos que garantam, entre outros fatores, o compromisso e a responsabilidade com a sociedade. No papel tudo é muito perfeito. Na prática, a realidade é bem outra.

Um episódio em especial, ocorrido com um veterano e dos mais sérios jornalistas em atividade que conheço, desnuda um pouco a triste realidade do dono da emissora achar que é o senhor da razão e, portanto, o dono da voz. Uma interferência que nos traz à tona o velho e permanente debate, muitas vezes acalorado nas salas de aula dos cursos de jornalismo sobre o que é efetivamente a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.

O caso em tela é a demissão sumária de um profissional, simplesmente porque o dono da emissora, até então pré-candidato ao governo, desistiu e, segundo o mesmo, não recebeu do jornalista a devida atenção no jornal da emissora dele.

O ato arbitrário, ainda que o patrão tenha o direito a fazer o que quiser na sua empresa sem precisar explicar os porquês de seus atos, merece destaque exatamente por expor de forma tão clara, o quanto a profissão de jornalista nesse país ainda é desrespeitada. O quanto os donos de concessões públicas de comunicação se sentem senhores do todo, ao pontoo de acreditarem que são donos das vozes que ecoam em suas emissoras. Um ledo engano.

Essa demonstração desrespeitosa de força só reforça o quanto é abusiva a maioria das relações profissionais entre empresas de comunicação e suas equipes profissionais. Existe um velho ditado muito comum nas redações que trata da grande questão que é: até onde vai a liberdade de imprensa.

Aparentemente simples, essa é uma questão bastante profunda pois interfere diretamente no princípio básico do bom comunicar: divulgar o fato, respeitando as suas versões e trazendo com a máxima clareza a informação para o leitor, ouvinte ou espectador. Cabe a esse a formação da sua opinião, a partir do que lê, ouve ou vê. E não a quem comunica, camuflar a informação com opinião e conceitos de forma a distorcer a real interpretação que a notícia merece ter.

O caso é emblemático também por mostrar o quanto desrespeitoso foi o ato do empresário. Não só com o jornalista, mas também e principalmente com os anunciantes da emissora e os seus ouvintes. Afinal, ele é a voz do dono e mesmo não gostando, jamais será o dono da voz. Nem muito menos amordaçará a voz de profissionais comprometidos com a essência do informar. Portanto, a voz do dono jamais conseguirá ser algoz do dono da voz.

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