CULTURA

Passa a Visão: podcast relata histórias de artistas da periferia de Natal

Para não deixar morrer a arte da periferia junto com as pessoas da periferia, a produtora Jane Gomes criou o podcast “Passa a Visão”. Na primeira temporada, em cinco episódios – três já estão disponíveis no Spotify e no Youtube – ela entrevista personagens do bairro Mãe Luiza, de Natal.

O projeto é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Produção Cultural, no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), que tem como tema a produção de poesia marginal no bairro em que a estudante nasceu e vive. Mas não parou por aí.

“Para dar continuidade à ideia do projeto, tenho dado prosseguimento entrevistando outros artistas (que não estão incluídos no projeto de TCC) tanto do estado quanto de fora. A ideia é entender esse processo de produção”, explica Jane, que tem 26 anos e também é poeta e artista visual.

Ao acompanhar a série, o público conhece Amém Ore, Ujó, Preto Milton e Hazak MC. Um dos episódios aborda de maneira geral a temática, explicando o que diferencia a poesia marginal periférica das demais, e cita o poeta Edgar Borges, Black Out, falecido em 1999, cuja história foi grande motivação para Jane.

“Poeta e multiartista visual, o excêntrico artista deixou um legado pouco falado, referenciado ou conhecido. Em seus escritos é possível visualizar a questão social e de marginalidade exercida por quem mora em áreas periféricas e que vivenciou fatos históricos, culturais e políticos em foco”, ela define, no episódio 3 “O que é Poesia Marginal?”.

De acordo com a produtora, a maioria dos artistas periféricos, sobretudo os de Mãe Luiza, sofrem apagamento histórico: “Observo que já é uma luta gigante produzir o que eles fazem e a partir do momento que eles falecem é como se não existissem mais. Não há continuidade da sua narrativa um retorno”.

Foi assim com Black Out, autor de um único livro, ‘Duas Cabeças’, editado pela Cooperativa dos Jornalistas de Natal – Coorjonat, em 1981, além de participar da antologia “Geração Alternativa”, organizada por J. Medeiros. Ele produzia e vendia poemas, pintava sobre papelão e fazia letreiros comerciais.

Black Out | Foto: Ivanízio Ramos

“Quando comecei a pesquisar sobre Black Out me veio essa grande angústia de como fazer com que isso não ocorra. A gente observa que não havia tanta tecnologia pra esse resgate histórico, essa demarcação. Então a partir do momento que eu me vi com um celular e com essa oportunidade de poder repassar a palavra deles, tive que publicizar isso de alguma forma”, conta a idealizadora do podcast.

A próxima temporada deve trazer entrevistas com quem produz slams e batalhas de raps/MC’s em Natal.

“É uma galera fazendo um trampo há bastante tempo, de uma forma bem autônoma e com uma divulgação muito de boca a boca e através das redes, mas que sempre consegue manter um público bastante forte. É impressionante pq é essa galera que muitas vezes incentiva os boys e as meninas adolescentes a quererem escrever”, Jane avalia.

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais