OPINIÃO

Tomar um café

O mundo da tecnologia nos toma. Vejo as pessoas nas ruas e elas estão ocupadas com o celular, mais que com os semáforos. Mais que com os olhares dos transeuntes que, por sua vez não são transeuntes para alguém. São só apenas pessoas com quem nunca tomamos café, não sabemos suas datas de nascimento ou o que gostavam de fazer na escola. Vi no shopping jovens no celular, passeando em grupo, mas totalmente absortos, cabeça baixa, olhar fixo na tela do mobile, recheado de grupos de whatsapp.

Em meio a essa constatação, foi bom ver, dia desses, algumas excursões escolares, com crianças em idade de cinco a sete anos. Elas não tinham esse apêndice externo e viciante que a modernidade nos ofereceu. Por conta disso, olhavam atentamente para as professoras que os perfilavam ou os dispunham em círculos para explicar-lhes sobre aquela praça, aquela igreja e as histórias de pessoas que pisaram milhões e milhões de vezes naquele lugar. As professoras também não tinham celulares nas mãos. Se eu fosse professora, certamente não os teria também. Já pensou, perder uma criança de vista em meio àquela multidão de gentes, carros e fumaças, por conta de um meme engraçado? Ou de uma notícia sobre mais um aumento no preço do combustível? Ou sobre o encontro do Musk e o Jair Messias?

O mundo da tecnologia nos toma. E digo isso porque meu celular foi para o espaço. E eu me vi sem comunicação por alguns dias porque, sem o celular, não tinha como acessar as redes sociais pelo computador porque são dispositivos interligados e se conectam por meio de senhas que são enviadas para o celular, ou para o computador que, acreditem, também foi para o espaço no mesmo período. Às vezes, só nos damos conta das teias que nos revestem quando não mais as temos, ou as perdemos circunstancialmente, por alguma razão que pode ser facilmente explicada pelo mercado que nos obriga às efemeridades de aparelhos tecnológicos de vida curta e incompletos, dependentes uns dos outros. Saudades da minha velha Brastemp que eu comprei de segunda mão quando morava sozinha lá na Ribeira e que sobreviveu por mais 8 anos comigo.

Fato é que após dois dias sem comunicação com o mundo, escondida no centro do meu silêncio, me vi diante de um conflito irremediável: estamos sós o tempo inteiro e buscamos desesperadamente o olhar do outro, mas não é como o olhar quente da paixão ou o frio da despedida. Buscamos o olhar das telas, que nos abraçam com seus likes para, nos ignorar no próximo segundo com outra distração. Claro que também não é só isso. Precisamos dessas ferramentas para trabalhar. Mas não é essa cena prática que me motivou a fazer esse texto.

A cena que me interessa é aquela me faz questionar quem somos para além das telas. Por exemplo, durante a pandemia, estávamos impedidos de ver nossos amigos e de abraçá-los pela perda de um ente querido. Quantas e quantas mensagens eu escrevi em condolências, oferecendo um abraço virtual. A pandemia arrefeceu e seguimos, de alguma maneira, ineptos em quebrar a casca que nos impede de acessar uma intimidade entre nós e o mundo que nos cerca. Um abraço negado de um, por medo do contágio; uma promessa vazia de visita à casa de praia de outro; um convite de aniversário ignorado e, assim, vamos nos emaranhando cada vez mais nos laços de fibra ótica.

Com um pouco de sorte, talvez, eu consiga adentrar o território íntimo de algum leitor do Saiba Mais – que é um sítio virtual e necessário – e essa pessoa sinta a real necessidade de quebrar essa película que impede o verdadeiro contato e use o celular para chamar aquele amigo ou amiga para tomar um café num fim de tarde.

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Jornalista e psicanalista