OPINIÃO

Um baú de turco

Na transição entre os séculos XIX e XX, período em que a imprensa no Brasil ainda engatinhava na profissionalização, os sujeitos das letras se equilibravam em autorias diversas e, assim, uma mesma mão que escrevia podia assinar ora como jornalista, ora como literato, ora como humorista. Dentre tantos exemplos, podem ser citados Olavo Bilac, que assinou com pseudônimos como Bob e Fantásio, ou ainda Madeira de Freitas, que, ao publicar obras de cunho humorístico como Feira Livre e História do Brasil pelo Método Confuso, assinou como Mendes Fradique.

No Rio Grande do Norte não foi diferente. Nomes da escrita tida como “séria” pediam licença e surgiam então alcunhas que se responsabilizavam por outra faceta mais risonha: foi o caso de Segundo Wanderley que deu lugar a Abelha Mestre, Jorge Fernandes a Félix Fidelis e Ferreira Itajubá a Stella Mariz, para citar apenas alguns.

Um desses nomes que poucos conhecem é o de Pedro Lopes Junior (1897-1932). Dividido entre Natal e Recife, Pedro Lopes Junior também se dividiu na autoria entre jornais e colunas de humor como “O Automóvel” e “A Plateia” em Natal e “Salpicos” e “Pinguinhos” no Jornal de Recife, assinando como Pierre, Poliantok, João d´Alzácia e Sá-Poty. É com este pseudônimo, aliás, que toda a sua potência plural de jornalista, poeta e humorista vem à tona por meio do livro Bahú de Turco”, obra que temos a alegria de ver reeditada, graças à iniciativa do casal Rejane Cardoso e Vicente Serejo (ela, sobrinha-neta do autor, ele, jornalista e bibliófilo) e do incansável sebista e editor Abimael Silva.

A obra faz jus ao título. Nela, encontra-se “de um tudo”, como se diz popularmente. Encontramos desde reflexões filosóficas e existenciais de certa profundidade, como no poema “Esta vida”:

Esta vida, afinal, é um pau de sebo.

No seu topo, a tentar-nos há um engodo,

que nós chamamos felicidade (…)

Pau de sebo feroz da minha vida,

sabes tu o que me custa uma subida?

Até chegar às críticas sarcásticas sobre certos tipos e casos, como no poema “O brasileiro astuto”:

O bodegueiro Antonio Português

precisou de um caixeiro certa vez,

mas queria um rapaz desempenado,

que fosse ativo, calmo e acomodado.

Apareceram vários candidatos,

todos em suma brasileiros natos

e por esse motivo condenados

a ser sumariamente rejeitados.

Antonio Portugues, muito tranquilo

Perguntou: – quantas gramas tem um quilo?

E quase todos (sorte, como tramas!)

Responderam que um quilo tem mil gramas.

Mas o José, que é um brasileiro astuto,

Pensou, talvez o espaço de um minuto

E respondeu com voz pausada, lenta:

– Tem cerca de oitocentas e cinquenta…

– Muito bem! Muito bem! – grita o patrão

Tu darás um caixeiro maravilha!

E aprovado o José com distinção

Hoje é sócio e o Antonio deu-lhe a filha

Que, além de rica, é um pancadão.

Destaque para as alfinetadas que Sá-Poty lança ao próprio campo social e discursivo da imprensa e dos livros, com as figuras aí envolvidas (autores, editores etc.), como se pode ver nos versos:

Se o autor do livro é um pobre principiante

E o do prefácio um nome consagrado

A crítica elogia o apresentante

E mete o pau no apresentado.

A mistura entre brincadeira jocosa e, labor poético e crítica se manifesta ainda no “Índice Analfabético” ou nas “Erratas”, bem como na própria seleção de epígrafes ou na relação de livros “que ele teve vontade de publicar” e “apreendidos pela polícia”, cujo deleite fica para quem se dispuser a uma leitura atenta. Como o próprio autor afirmou: Leitor, se a ler meus versos maus não riste, a culpa não foi minha. Leia e ria, pois, quem puder.

A reedição de Bahú de Turco, de Sá-Poty, conta ainda com texto introdutório de Vicente Serejo e orelha de Cínthia Lopes Cardoso, jornalista e neta do autor, cujo pai, o saudoso Everaldo Lopes, também jornalista, foi um dos filhos que herdou a mesma verve cômica na escrita.

Depois de 90 anos de morte de Pedro Lopes Junior, temos aí não só uma grande homenagem a seu autor, mas também uma celebração a uma época em que se amalgamavam literatura, noticiário e humor. O lançamento da obra, com sarau poético, acontece no sábado 14 de maio (também como comemoração estendida do natalício do sebista e editor), de 9 às 13 horas, na nova calçada do Sebo Vermelho.

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