OPINIÃO

Ainda entre a realidade e a ficção

No artigo anterior, “Entre a realidade e a ficção”, comentei a respeito da decisão judicial – absurda – que obriga a escritora e advogada Saíle Bárbara Barreto, autora de “Causos da Comarca de Barnabé”, a pagar indenização de R$50 mil ao juiz Rafael Robaldo Bottan, supostamente atacado indiretamente na obra.

E para conferir como a realidade é mesmo mais absurda que a ficção, lá me fui eu ler o livro. Li num fôlego só. E a hipótese que eu sustentei no primeiro artigo – a de que a literatura (e o humor) é uma estratégia de resistência e poder – só se confirmou.

A começar pela epígrafe de abertura: Os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as leis e as salsichas. Ao colocar em mesmo nível algo tão solene (as leis) e algo tão prosaico (salsichas), a autora já mostra de cara a que veio: denunciar, por meio da narrativa literária, o aspecto risível e ridículo daqueles que se supõem (ou fingem ser) muito sérios.

Nesse espírito, chegamos à fictícia (mas nem tanto) comarca de São Barnabé, no Estado de Santa Ignorância, República Federativa da Bananalândia, lugar em que “o direito do pobre é sempre tratado como mero dissabor e, ao rico e poderoso, toda chance de enriquecer às custas da desgraça alheia é lícita”.

Não há como não traçar um paralelo com o clássico “Os Bruzundangas”, em que, por meio da paródia, certos tipos, atitudes e acontecimentos são objetos de riso e, também, crítica. Entre o livro de Lima Barreto e o de Saíle Bárbara, o tempo nem parece que passou e vemos (re)surgirem várias personas típicas (Miguel, o juiz Preguiçoso, Juliana, a juíza Louca, Marinalva, a assessora puxa-saco comissionada, Cleverson, o guarda da “porra giratória” do Fórum etc.), com destaque para o Dr. Floribaldo Mussolini, o invejoso, cujo sobrenome por si só já nos descreve o tipo: vaidoso, autoritário e cruel.

Um tipo que parece, assim como a questionável condenação imposta à Saíle Bárbara, vir diretamente de um Estado tirano do Antigo Regime. Aliás, como assinala o historiador do livro e da leitura Robert Darnton na obra “O diabo na água benta”, os registros da Bastilha revelam uma incidência elevadíssima de prisões de pessoas que escreviam, imprimiam ou vendiam libelos (do latim “libellus”, livro pequeno).

Pois é, qualquer semelhança não é mera coincidência. E prossegue Darnton: produzir pasquins e libelos era sem dúvida perigoso – mas primordialmente se atacassem pessoas de certo grau.

Bem se vê como a História se repete. Ou, como diz aquele meme, o mundo não dá voltas, ele capota. E, de capotagem em capotagem, a nós, meros cidadãos e cidadãs mortais (do século XVIII ou XXI), cabe apelar para a arte, a literatura, o humor. Como afirmei anteriormente, essas são maneiras de tolerar o intolerável (por exemplo, o uso da máquina pública em proveito pessoal).

Assim, a literatura pode ser sim uma maneira de resistir e, de algum modo, exercer poder, ainda que assimétrica e desproporcionalmente. Não à toa a tentativa de exclusão da obra (a indenização é uma forma de rejeição). Em solidariedade à colega escritora, reproduzo um trecho (é forte, pessoal!) de seu livro e me dirijo diretamente a ela:

Cara Saíle: Santa Bárbara, eu e um tantão de gente estamos contigo e não deixaremos te silenciarem. Fascistas não passarão!

TRECHO:

“Um prazo fatal hoje e a porcaria do computador resolveu pifar. Bosta! Vou chamar o Tataco para arrumar e terminar isso na sala da OAB lá de São Barnabé. Pesadelo. Há dias em que chego a pensar que vai entrar um trio elétrico naquela merda e todo mundo ali vai sair correndo atrás. Sim, porque a sala é uma esculhambação. Parece uma micareta. Um boteco, qualquer coisa, menos uma dependência do fórum. Nunca vi tanto barulho. Tem gente que faz aquele raio de lugar de escritório, de ponto de encontro. Estão sempre lá. E se pelo menos falassem baixo, mas não! Tem colega que só falta pegar um microfone e começar a cantar. Detesto aquele ambiente. É a pior e mais mal frequentada sala da OAB de todo o estado. Talvez de toda Bananalândia. Já fizeram cartazes pedindo silêncio. Já mandaram ofício para seccional. Nada adianta. Ninguém se manca. E hoje pelo jeito não está diferente. Todos os computadores ocupados. Tem gente ali que nem advogado é. Por que não criam senhas para controlar o acesso e a impressão? Tem fulano navegando em sites idiotas. Nem deviam permitir isso. E eu aqui esperando para terminar minhas alegações finais, enquanto escuto o papo de um colega, candidato a vereador, atendendo a família de um preso:

–  Agora vou adesivar o carro de todos vocês com a minha foto. Não esqueçam, domingo é Safadão na cabeça!

– Obrigada, doutor Safo. Por tudo que o senhor fez pelo meu filho – disse a mãe do presidiário em lágrimas.

Entendi bem? O cara estava trocando uma defesa por votos de uma família inteira? E as pessoas estavam agradecendo? Tudo isso dentro do Fórum? Alguém me belisca que isso só pode ser um pesadelo.

Em pé na frente da mesa da funcionária da OAB, uma colega que desconfio que more ali. Sempre que passo na sala ela está lá. Sempre mesmo. Sem exceção. Tomando café, comendo biscoitos e fazendo discursos inflamados. O pior é que só fala merda. E fala alto: “Certo está o Trump, que vai fazer um muro! Por mim a gente também fazia…

Meu senhor. Como diz uma amiga minha, “melhor ouvir isso do que ser surda”. E ela não fechava a matraca.

– E outro para separar Bananalândia de Cuba!

– Hã? Cuba nem faz limite com Bananalândia, senhora – disse um colega mais jovem. Ela não deu o braço a torcer!

– Não faz? Tu achas que não faz, mas faz sim! É ali em cima, Cuba. Bem em cima das Guianas!

– Cuba é uma ilha! Só se o muro for no mar!

E deu-se o rebuliço. Abriram mapas no Google. Gritavam! Uma insanidade sem razão de ser. Aquela sala é sempre assim. Coitado de quem precisa fazer uma petição rápida no fórum. A sala da OAB de São Barnabé é a sucursal do inferno!

(…)

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