OPINIÃO

Cantando (ou sofrendo) na chuva

Lá estou eu na fila do Supermercado Rede Mais Select, ainda em choque com os preços altos e a perda do poder de compra, quando escuto a discussão entre  uma moça de seus vinte anos e uma senhora lá pelos 60: “Eu não suporto chuva, complica o meu dia”, diz a primeira. “Mas é coisa de Deus, é uma benção lá para oos municípios do interior”, responde a segunda. “Para o interior pode ser, mas para mim só atrapalha”, insiste a moça. “Que Deus mande mais chuva”, provoca a outra. Como a fila adiantou, cada uma foi para seu caixa e o debate, que ainda prometia emoções mais fortes, chegou ao fim.

Na verdade, foi a emulação em tempo real de discussões que eu já tinha lido à exaustão nas redes sociais, principalmente no bélico Twitter: afinal, chuva é algo bom ou ruim? Ajuda ou atrapalha? A resposta é simples e infantil: Sim e não. Depende do caso, da pessoa, da circunstância. Para quem está confortável no quinto andar de um prédio em um bairro estruturado, a chuva lá fora com seu barulho certamente é uma delícia, momento ideal para fazer um chá, cortar um queijo e sentar para “maratonar” a nova série da Netflix.

Já para quem tem que pegar dois ônibus e andar um quarteirão para chegar em casa em um bairro periférico, a mesma chuva é um terror, causa de nervosismo, risco e aborrecimento. Nada mais natural que uns desejem e curtam a chuva e que outros a temam e a associem a perda, como quem sofre com residências invadidas por alagamentos.

Mas peguei o exemplo da chuva para ilustrar que no momento atual de redes sociais e zap quase oniscientes em nossas vidas, existe uma cultura que tenta forçar um consenso em relação a coisas que não precisam ser unanimidades nem carregam com elas uma só leitura ou possibilidade de percepção. Ora, a mesma chuva que beneficia o agricultor que depende de sua roça, atrapalha o ambulante que vende cerveja na festa. Da mesma maneira que o solzão que ajuda os vendedores de água de coco na praia também interrompe as vendas do sujeito que oferece guarda-chuvas. E cada um deles pode ter sua reclamação ou alívio da condição climática. Ou de qualquer outro assunto.

Afinal, ninguém é obrigado a gostar da música de Anitta por admirar seu empreendedorismo e posições políticas. Da mesma maneira que para desprezar Brad Pitt, que volta e meia se mostra tóxico com a ex-esposa Angelina Jolie, não é necessário achar que suas interpretações e filmes são medíocres. Também não precisamos “escolher um lado”  na guerra judicial entre Johnny Depp e Amber Heard. É necessário que nos afastemos desta “imposição” enquanto internautas de termos de ter uma opinião (muitas vezes pré-concebida e apressada) sobre um fato ou determinado tema e ao mesmo tempo atacar a opinião alheia se diferente da nossa.

Quem gosta de chuva, que a curta, posto que ela não lhe atrapalha. Quem não gosta, que se aborreça com ela, já que prejudicial, ainda que circunstancialmente. Que respeitemos as posições e particularidades alheias como uma dos pilares de uma sociedade democrática. Como é para ser na política, com a ressalva que fascismo não é posição ou opinião ,mas, crime, tal como racismo e homofobia.

Que tenhamos a compreensão que a mesma chuva que alegrou e fez dançar Gene Kelly em umas das maiores cenas da história do cinema também destruiu a casa dos Park em “Parasita”, o que gerou a tragédia do final do filme.

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