CULTURA

Em Natal, jovem publica livros independentes inspirados em vivência marcada por racismo e homofobia

“Pequenos poemas para grandes corações” e “Vivências de peles negras” são os dois títulos que Lucas Der Leyweer, de 22 anos, publicou na plataforma Uiclap em 2021. Nascido em Cacoal (RO), ele vive em Natal desde 2019, e conta que escreve poemas sobre o que é real, misturando episódios de sua vida com as que cruzam seu caminho ou imaginário.

Com o ensino médio e desejo de estudar Letras, trabalha em um escritório em Parnamirim, enquanto se dedica também a construir o terceiro livro, “Raimundo do Potiguar”. Desta vez um romance, sobre um rapaz gay, como ele.

“Pra me salvar, comecei um romance. Um rapaz que está viajando começar a gostar de uma pessoa que ninguém sabe o nome. Mergulha no passado e no presente. Ele sofre homofobia e não consegue esquecer isso”, antecipa. “Em algum momento da escrita eu me deixo revelar. Quando vejo que deixo o mistério escapar, volto pra ficção”.

Brigado com os pais evangélicos, que descobriram sua homossexualidade, Lucas espera, mundo afora encontrar respeito. E isso se estende ao trabalho como escritor.

“As pessoas acham que é um hobby, mas eu trabalho de segunda a sexta-feira no escritório e sábado e domingo trabalho escrevendo, acordo cedo, e quero ver respeito. Se eu não for assim, não vão me levar a sério na minha vida e na minha arte. Agora estão começando a me reconhecer como escritor. Não é fácil viver de arte no Brasil, muito menos de literatura. As pessoas só querem saber de nome grande”, lamenta.

Viver de arte, mas também superar as barreiras impostas pelos preconceitos são tarefas que têm requerido empenho do jovem. Ele lembra que quando criança ouvia na escola deboches sobre a cor da pele e a textura do cabelo. Já em Natal, o caso Gabriel lhe comoveu de modo particular.

“Eu já tinha medo que me fizessem algum mal um dia por ser negro. Aquele caso mexeu comigo, foi um gatilho. Na época, não queria nem sair de casa. E nasceu o livro ‘Vivências’.

Já a primeira coletânea de poemas reúne textos diversos, incluindo os que foram escritos sem qualquer pretensão de serem publicados.

“Costumo dizer que esse livro é um caos, uma bagunça, fala do que passei; sobre os amores, desamores, da minha vida; das pessoas que convivem ao meu redor. Mas eu tava nesse caos escrevendo e guardando poemas”, conta, explicando que conheceu a plataforma por meio de uma publicidade no Instagram e resolveu enviar material. “A parte que ganho não é muito, mas graças a Deus me ajudou bastante. Ajudou a comprar comida. Espero que um dia possa viver integralmente da minha arte”.

Preconceitos

Lucas percebe que as pessoas da sua cidade estão querendo apagar “o caos” que ele menciona: sua história. Segundo ele, os pais o expulsaram de casa, mas dizem que não foi bem assim.

“Quero que minha história atravesse o mundo inteiro, porque muitas pessoas foram expulsas e não quero que seja ocultada”.

Ele conta que tem um irmão gêmeo, Tiago, e foi criado pelos avós paternos, que nunca lhe deixaram faltar comida e afeto. Os pais brigavam muito e se separaram. O pai também brigava com os pais dele.

“Lá pelos meus 15, 16 anos fui morar com minha mãe biológica. Como estava na adolescência, comecei a sair, fazer amizades e conhecer pessoas gays; já estava me descobrindo. Com isso, os meus pais que eram separados há mais de 17 anos começaram a se falar porque perceberam que eu ia ser gay, porque tinha um amigo que era gay”, lembrou.

Lucas com a avó Onofra

Quem perguntou primeiro sobre sexualidade foi o irmão, com quem Lucas se abriu, acreditando que teriam um segredo.

“Ele me tirou do armário. Dois dias depois, eu cheguei em casa e meus pais estavam juntos me esperando. Falaram que eu tava doente, que tinha que ir pra igreja, psicólogo. Meu pai me agrediu, depois minha mãe me chamou de viadinho, que ia me matar. Fui agredido por ser quem eu sou. Eu cheguei até a empurrar e ela caiu no chão. Tive que sair correndo, fui pra casa de uma amiga, Lary. No dia seguinte fui na minha casa pegar as minhas coisas. Terminei o ensino médio, e falei ‘agora é mundo’”.

Dos familiares, só a avó ficou do lado dele: “Eu amo muito a minha avó. Faz três anos que eu não a vejo, queria tanto ver ela. Meu avô já é falecido, mas creio que se ele soubesse sobre minha orientação, ele me aceitaria. Minha avó quis me dar o mundo, porém com meus pais me perseguindo eu tive que correr, senão eu estaria morto”.

Passou por Rolim de Moura (RO) e Vilhena (RO), onde se estabeleceu minimamente depois de viajar com passagem social (a R$ 1), pegar carona e até passar dois dias na rua.

Descobriu uma pessoa que distribuía marmitas para mulheres e crianças, mas foi atrás, contou a situação, foi ajudado e conseguiu um emprego em uma loja, vendendo cartão de crédito. Uma colega de trabalho se comoveu e ofereceu abrigo. Pelas redes sociais, Lucas conheceu o namorado, Johnatan, e veio para Natal. E é no Rio Grande do Norte que segue, insistindo em amar, escrever e ser ouvido.

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais