OPINIÃO

Entre a realidade e a ficção

Em meio ao turbilhão de notícias que nos consome a cada dia, uma me chama a atenção em especial:

A Justiça de Santa Catarina condenou a advogada e escritora Saíle Bárbara Barreto a pagar indenização de R$ 50 mil a Rafael Rabaldo Bottan, juiz especial cível em São José, e a remover textos publicados em setembro e novembro de 2020 em sua página no Facebook, “Diário de uma advogada estressada”. Caso se recuse a apagar as postagens, Barreto será multada em R$ 500 por dia.

(Disponível em https://oglobo.globo.com/cultura/livros/noticia/2022/06/escritora-catarinense-e-condenada-indenizar-juiz-por-obra-de-ficcao.ghtml)

Segundo relata a notícia, o referido juiz alega que, no romance “Causos da Comarca de São Barnabé”, a autora Saíle Bárbara fez uso do personagem Floribaldo Mussolini, juiz do Tribunal de Justiça da Santa Ignorância, da República Federativa de Banalândia, para atacá-lo indiretamente. Ainda de acordo com a notícia, “Bottan afirma que o nome do juiz fictício seria um trocadilho com seu sobrenome”.

Este caso me remete, irremediavelmente, a uma série de outros que põem em xeque o frágil limite entre a realidade e a ficção. Lembro-me, por exemplo, de Dostoievski, que escreveu “Recordações da Casa dos Mortos” após dez anos de prisão por atentar contra o regime czarista, ou ainda de Bukowski, que escreveu “Cartas da Rua” a partir de sua experiência como carteiro. Puxando a discussão para o nosso quintal potiguar, não há como não fazer referência à querela entre os titãs Celso da Silveira e Nei Leandro de Castro, um supostamente “transformado” em personagem do outro no clássico “As pelejas de Ojuara”.

Na condição de escritora, já recebi muitas vezes a clássica pergunta sobre até onde há “verdade” e até onde há “invenção” nos meus escritos. Não dá para responder tal questão. Eu creio que está tudo tão irremediavelmente misturado que se torna impossível distinguir uma faceta da outra, ainda que os estudos tradicionais de crítica literária adorem se deter sobre aspectos biográficos a fim de “explicar” determinada obra.

Mas, o que esse caso atual suscita que me parece digno de nota é a relação entre literatura e poder. Assim como a arte ou o humor, de modo geral, a literatura nos dá suporte, seja como autores ou como leitores, para tolerar a vida, muitas vezes tão intolerável. Ela nos garante a leveza de que precisamos neste mundo tão pesado.

Compreendendo poder sob uma perspectiva foucaultiana, talvez tenha sido por meio da escrita literária (com certo viés humorístico, pelo que sugerem os nomes utilizados) que a advogada e escritora Saíle Bárbara Barreto fez uso de um legítimo exercício de poder. “Ali onde há poder, há resistência”, ensinou o mestre francês sobre as manobras envolvidas nos jogos de poder e Saíle jogou à sua maneira, resistindo como lhe foi possível. O jogo continua e eu, sinceramente, desejo sorte a ela porque sabemos bem que certos jogadores já saem na disputa com alguma vantagem.

No mais, se depender de mim, o romance “Causos da Comarca de São Barnabé” já se tornou um best-seller. Ou terei também que pagar indenização ao juiz por afirmar isso?

Quero ler!

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