DEMOCRACIA

Médica que lutou contra a ditadura lê para Lula carta escrita para o ex-presidente na prisão

Mais do que o conhecimento médico, foi a sensibilidade que levou a psiquiatra Fátima Lima, de 72 anos, a escrever não apenas uma, mas três cartas ao ex-presidente Lula, durante o período em que ele esteve preso em Curitiba. Uma delas foi selecionada para ser lida na presença do próprio Lula, nessa última terça (31), em São Paulo, durante o lançamento do livro “Querido Lula: cartas a um presidente na prisão”, editado pela Boitempo, que reúne 46 cartas das cerca de 25 mil enviadas ao ex-presidente.

Nos anos 1960 eu tive amigos presos em João Pessoa, na Penitenciária do Roger, e na época tive a ideia de escrever pra eles todos os dias, contando as coisas que eu via, para diverti-los um pouco. Levava a comida e as cartas junto. Com a prisão de Lula, conversando com uma amiga de Diadema, comentei que não sabia o que fazer e ela sugeriu que eu escrevesse, seria bom para os dois. Eu escrevi três cartas e recebi a confirmação de duas, uma das três não chegou. Tenho 72 anos e acompanho a trajetória de Lula desde a greve do ABC. Morava em São Paulo quando foi candidato a governador e votei nele”, contou Fátima, que continua em São Paulo e falou com a Agência Saiba Mais por telefone, nesta quinta (02).

Fátima Lima é médica sanitarista aposentada do Ministério da Saúde e psiquiatra. Nasceu em Patos, no sertão da Paraíba, em uma família pobre. Na juventude, participou dos movimentos estudantis como as Diretas Já, a Constituinte e a luta pela Anistia Ampla. Ela se formou no Rio de Janeiro e trabalhou na implantação do SUS no Rio Grande do Norte no início da década de 1990.

Estive sempre no meio da multidão, lutando por um mundo melhor, por um Brasil melhor. Está sendo muito difícil chegar aos 72 anos e ver a desconstrução do pouco que conseguimos evoluir. É muito triste, mas estamos na luta”, desabafa.

Num relato emocionado ao ex-presidente Lula, ela lembrou da infância pobre da maioria dos nordestinos, da nobreza dos sentimentos mais simples e das dores coletivas de um povo que continua a sofrer carregando o peso de tanta desigualdade:

Não sei se você imagina como é que a dor, dói em nós. Particularmente em nossa geração que te acompanha desde 1978. É uma dor diferente por que não é uma dor “pessoal” só. É uma dor coletiva por uma ferida coletiva. É da categoria da dor que sinto quando vejo adolescentes nos sinais de trânsito, lavando os vidros dos carros da gente. Quando penso que não têm muita coisa boa lhes esperando. Quando penso que tem muitos da mesma idade deles que estão em bons colégios, se divertindo (merecidamente) e com boas possibilidades de serem cidadãos adultos com os Direitos (ou parte deles) garantidos. Quando vejo um velhinho (que não deve ter mais do que meus 67 anos) na fila do supermercado, comprando um pedacinho de carne de terceira ou umas duas salsichas”, traz um trecho da carta.

Fátima, durante leitura da carta I Imagem: reprodução
Fátima, durante leitura da carta I Imagem: reprodução

As palavras de conforto ao ex-presidente foram escritas no feriado de Tiradentes do ano de 2018, quando Fátima estava em Natal. Ela se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) depois da prisão do ex-presidente Lula e avalia que, na época, o brasileiro não tinha noção do terremoto que estava por vir.

As cartas são legais para quem escreve, porque se sente fazendo alguma coisa e tem o consolo de pensar que está podendo ajudar de alguma forma no momento difícil que o outro está passando. Não imaginava que ele fosse ler, mas sabia que alguém o faria e, quem sabe, mandaria o recado”, lembrou.

As cartas trazem relatos de pessoas que tiveram a vida transformada, de alguma forma, pelas ações sociais implantadas durante os anos do Governo Lula (2003-2011). Além de Fátima, Lucas Ribeiro, da comunidade Santa Luzia, em Touros-RN, também teve a oportunidade de ler sua carta e se emocionar junto com Lula, Dilma e os demais presentes durante o evento.

Com as eleições de 2022 batendo à porta, Fátima admite sentir uma certa tensão diante das ameaças explícitas e veladas que vem sendo feitas pelo atual presidente da República ao sistema democrático e eleitoral.

Esse é um momento de medo e esperança. Muito medo porque o cenário no mundo não é favorável, mas o momento é de estarmos juntos para o bem do Brasil. Acho que temos chances, precisamos ganhar no primeiro turno, mas tudo pode acontecer… e aí tenho muito medo também. Mas, Lula me dá muita esperança, ele é muito forte”, ressalta.

Em retribuição pelas cartas escritas, Fátima recebeu dois cartões de agradecimento do Instituto Lula, que ela guarda em seu escritório, em Natal. Ligada às causas sociais, ela conta que foi para São Paulo alguns dias antes do evento com o ex-presidente para o lançamento da candidatura do paulista Guilherme Boulos (Psol), que vai disputar o cargo de deputado federal.

Eu amo! Acho uma criatura incrível, é o cara do futuro”, se despede com um beijo.

Cartão recebido por Fátima em agradecimento às cartas escritas para Lula I Foto: cedida

Confira a carta na íntegra:

Carta escrita por Fátima ao ex-presidente Lula Foto: cedida
Carta escrita por Fátima ao ex-presidente Lula Imagem: cedida

Depoimento de Fátima durante lançamento do livro:

Você confere a fala da médica ao colocar o vídeo em 39’15”

Livro

Ao todo, Lula ficou 580 dias detido na sede da Polícia Federal, em Curitiba, no Paraná (PR). Ele foi preso no dia 07 de abril de 2018 e solto em 08 de novembro de 2019. Durante esse período, recebeu cerca de 25 mil cartas de todo o país.

O livro com as cartas enviadas ao ex-presidente já tinha sido lançado na França com o título “Mon cher Lula” (“Meu querido Lula”, em tradução livre). Os documentos foram reunidos e selecionados pela historiadora francesa Maud Chirio, fundadora da Rede Europeia pela Democracia no Brasil.

Saiba+

Livro de cartas para Lula na prisão inclui texto de potiguar, aplaudido de pé ao contar sua história em lançamento

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