OPINIÃO

Milton Siqueira e “Flores de Cardeiro”

Por João Gothardo Dantas Emerenciano.*                                                  

Considerado um dos representantes da poesia marginal do Rio Grande do Norte, Milton Homem de Siqueira foi o poeta natalense que mais tem a cara do Grande Ponto. Viveu seus últimos dias todo o cotidiano do centro da cidade. Todos os dias, era visto no Grande Ponto, vendendo poesia feita ao vivo, e das quais sobrevivia. Colaborou em diversos jornais e revistas de Natal, e é considerado pelas novas gerações como o nosso ” poeta beat”, pelo jeito rebelde e despojado que viveu seus últimos anos de vida. Muito popular, apesar de irascível como costumam ser os poetas. Um movimento popular quis fazê-lo imortal da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Não consta que ele tenha se alegrado com a ideia. Afinal, era um outsider e tinha ojeriza a qualquer formalidade. Viveu isolado em uma casinha na beira da Praia do Pinto, lendas urbanas o colocam no centro de fofocas nunca atestadas.

O poeta e escritor Gibson Azevedo comenta no blog de Jania Souza, “Natal, não consagra nem desconsagra ninguém. Não querendo entrar no mérito da discursão, assim mesmo, aprovo o enunciado; está repleto de verdades. …Lembro da morte do poeta maldito e popular Milton Siqueira; figura que povoou, com sua existência e sua arte, várias décadas do nosso cenário urbano. Pois bem, estávamos no seu velório e sepultamento; eu, Juliano Siqueira, Justiniano Siqueira (Mano, meu cumpadre), uma senhora que cuidou dele nos últimos dias de vida, junto com o seu marido. Ao todo, afora os coveiros, cinco pessoas. Ninguém mais…”

Em uma matéria publicada por Djalma Maranhão para o Diário de Natal de 1949 ele descreve-o como um poeta conhecido na cidade pela sua forma excêntrica de se vestir e se portar e cita-o no poema “Evocação de Natal” quando, forçado a ir para o exílio, se refere ao lirismo dos poetas Natalenses e relembra-o

“Não te esquecerei, Natal!
No lirismo de teus poetas;
O quase bárbaro Itajubá
E o quase gênio Otoniel
E também o alucinado Milton Siqueira.”

Nascido em 10 de novembro de 1911 no município potiguar de Pedro Velho, onde seu pai, o desembargador Joaquim Homem de Siqueira Cavalcanti foi juiz de direito, e de Maria Joaquina de Siqueira Cavalcanti, desenvolveu, desde cedo, a inclinação para a poesia. Entretanto, sua verve parece ter vindo do berço, gestada pelo seu pai, um dos principais jornalistas de Natal, sendo um dos principais colaboradores do “Diário do Natal”, sua irmã Umbelina de Siqueira Cavalcanti, conhecida como Bila, também gostava de poesia; não só gostava, mas compunha belos versos junto aos seus irmãos.

Dotado de personalidade controversa e espirito irrequieto, teve uma vida bastante atribulada, Milton deixou um folclore imenso em torno do seu nome. Em uma certa época foi um frequentador assíduo do Café São Luiz, onde parava para o cafezinho, após percorrer as ruas da Cidade Alta sobraçando uma pasta cheia de versos. Por último passava horas sentado nos batentes da casa Porcino, onde abordava as pessoas que passavam na calçada oferecendo versos. Em outro artigo “A reportagem da semana: Esquina da Tavares de Lira com a Dr. Barata, centro convergente e irradiador da vida natalense” para o Diário de Natal em 1949, Djalma Maranhão escreve; “No Teatro Carlos Gomes tem se levado a efeito festivais ruins, xaroposos até a alma, que por isto mesmo divertem e fica melhor quando Milton Siqueira vai para a porta do teatro e se tem público, ele improvisa um espetáculo com a participação de assistência, modernamente, dando gargalhadas fenomenais, mangando da vida, dedicando versos aos políticos e as senhoras formosas da terra”.

O poeta, de estilo claramente anarquista, viveu grande parte de sua vida do comércio de sonetos, escritos ao gosto do freguês. Foi um poeta profissional e viveu desse seu artesanato poético. Quando terminava seu “trabalho“, ia para a Praia de Areia Preta tomar vinho no Iara Bar e prosear com os degredados filhos de Eva. Raramente trabalhava à tarde, permanecendo na Praia do Pinto em Mãe Luiza, onde hoje se encontra o Instituto de Biologia Marinha da UFRN, onde tinha a sua morada. Usava um cachecol de lã em pleno verão, e não dispensava o uso do boné. De temperamento irascível, gostava de ler diariamente os jornais, segundo ele, para “saber dos podres da cidade”.

Em razão de uma vida cheia de dissabores e contrariedades foi várias vezes internado no Hospital Colônia, que dizia, ser suas férias bem merecidas, depois de tanto ter que aturar o mundo lá fora. Um conhecido estagiário da Farmácia do Hospital contava que os loucos fugiam do Poeta como o diabo fugia da cruz, no entanto, a classe médica apreciava as declamações poéticas do poeta e suas canções em um francês de causar inveja a Victor Hugo.

O escritor Jayme dos G. Wanderley quando prefaciou o livro Botões de Rosa afirmou “…ninguém melhor do que você, meu caro poeta, poderia focalizar, em rimas deliciosas…Reflexos da sadia inteligência e do marcante talento, que você trouxe do berço como uma herança doméstica. … o seu nome já transpoz fronteiras e dominou auditórios, como uma expressão de talento’’ O escritor Aldo Medeiros, prefaciando o poeta em seu livro Flores e Urzes de 1959 escreve …” você extravasa a capacidade criadora do seu gênio, os seus versos retratam o seu espirito, ora revoltado, ora conformado, amando, vivendo, lutando e sobretudo enfrentando a incompreensão dos seus semelhantes. ”

Quando da publicação do “Panorama da poesia norte-rio-grandense”, de Rômulo C. Wanderley, em 1965, o nome de Milton Siqueira foi lembrado, listando o antologista os livros publicados pelo poeta “em mais de trinta anos de versificação: Calcedônias, Emoções, Flores Murchas, Botões de Rosa, Poema de Deus, Flores e Urzes, Gorjeios do Sertão, e duas plaquetas intituladas Dor e Poemeto de uma Noite de Luar. No prelo, tem o livro Conchas do Mar (versos). Flores de Cardeiro é um livro de poesias, Inédito”.

Entretanto, o livro Flores de Cardeiro foi publicado em 1949, na cidade de Caicó, prefaciado pelo padre Aderbal Vilar, pároco do município, em 31 de julho de 1949 (Festa de Santana de Caicó), registrando a estadia do poeta na “Princesa do Seridó” e sua interação com a sociedade caicoense, conhecida pela hospitalidade dispensada aos seus visitantes. O livro dedicado “aos grandes rio grandenses do norte”, Dr. José A. Varela, governador do estado, Dr. Kerginaldo Cavalcanti, senador da República, Dr. José Augusto B. de Medeiros, deputado Federal, desembargador Silvino Bezerra, Dinarte Mariz, Industrial, Dr. Juvenal Lamartine, presidente da Academia de Letras norteriograndense, prefeito Aldo Medeiros, deputado Agostinho Brito, coronel Plínio Saldanha, desembargador Tomás Salustino, vice- governador do estado, e o Dr. Oscar Homem de Siqueira, juiz de Direito, quase todos nascido na região do Seridó.   Prefaciado pelo padre Aderbal Vilar em 31 de julho de 1949 (Festa de Santana de Caicó) contempla vários membros das famílias Medeiros, Vale, Farias, Brito, além dos padres Aderbal, pároco em Caicó, Padre Sinval Laurentino, sacerdote da cidade e Dom José Delgado de Medeiros, bispo de Caicó

 

  Referêrencias

JORGE,Franklin.O mercador de sonetos. https//www.navegos.com.br.

MARANHÃO, Djalma.Esquina da Tavares de Lira com a Dr. Barata, centro irradiador da vida natalense.Org. Notas e pesquisas:Cláudio Galvão. Natal: Sebo Vermelho, 2004.

SIQUEIRA, Milton.Flores de Cardeiro. Caicó (RN), 1949.

—————. Botões de Rosa. Natal, 1957.

—————. Flores e Urzes. Natal, 1959.

WANDERLEY. Rômulo. Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense, Rio de Janeiro: Ediçoes do Val, 1965.

 

João Gothardo Dantas Emerenciano é jornalista e escritor

                                                                                                                                                                                    

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