OPINIÃO

O luto de Marie Curie

Uma antiga tradição cigana ensina que ao irmos para uma comemoração social como um casamento, um batizado ou um aniversário, não devemos desejar felicidades, como costumeiramente fazemos. Os povos romani (de origem indiana), chamados de muitos nomes como gitanos ou calon são grupos nômades. Não chegam a ser uma etnia, mas sua errância milenar indicam condições de vida difícil e, sabedores das desgraças da vida e dos inevitáveis nacos de dores que sentiremos ao longo de nossa existência acreditam que, ao desejarem um “mal começo”, estão apontando para um fim auspicioso. Como se a felicidade não pudesse ser algo que nasce simplesmente de um desejo e sim, algo que vai sendo construído ao longo do caminho. Ao menos é assim que interpreto.

Tomo conhecimento desse costume cigano no livro A ridícula ideia de nunca mais te ver, da jornalista espanhola Rosa Montero, que escreve um ensaio biográfico, a partir dos diários deixados pela física polonesa e naturalizada francesa, Marie Curie, nascida em 1867 e falecida em 1934, cuja trajetória profissional reverbera na vida moderna até hoje. Antes dela, somente a física Elsa Neumann havia se doutorado na história da ciência, em 1899, na Universidade de Berlim. Marie é uma das descobridoras de dois elementos químicos, o polônio e o rádio; tarefas essas que contribuíram sobremaneira para sua morte precoce por radioatividade. Marie foi a primeira mulher a lecionar na Universidade de Sorbonne, na França, ocupando o lugar de seu marido, o cientista, Pierre Curie – grande amor de sua vida – que morreu tragicamente enquanto atravessava a rua, tendo a cabeça esmagada pelas rodas de uma charrete. Deixando-a, de repente, com duas filhas pequenas, contas a pagar e uma trajetória atravessada de preconceitos por ser mulher, dona de casa, mãe e cientista. Ela foi a primeira mulher a ganhar por duas vezes o Prêmio Nobel em áreas distintas (na primeira vez, a láurea foi dividida com outros homens e na segunda, foi execrada pela comunidade científica conservadora da época, ao ir receber o prêmio, porque uma esposa enfurecida a havia denunciado por ter um caso com seu marido).

No livro, alguns trechos do diário de Marie são publicados na íntegra também. Marie chama de “imbecis” aqueles que a parabenizam por ocupar o cargo deixado pelo marido. Nenhum cargo ou nenhuma posição traria seu marido de volta. E era nisso que ela estava concentrada: a perda de seu amor. Em 30 de abril de 1906, Marie escreve no diário uma carta para seu marido, em que diz: “Querido Pierre, que nunca mais verei, quero falar-te no silêncio deste laboratório, onde eu não imaginava viver sem ti. E quero começar me lembrando dos últimos dias que vivemos juntos”. E segue descrevendo o que sua memória alcança daqueles dias.

Uma das características do luto – seja porque tivemos o vínculo rompido por morte ou por separação – é a de nos distanciarmos do mundo externo e só termos olhos para dentro. É difícil nos concentrarmos para além das fronteiras dos nossos pensamentos. Distraídos, esquecemos a porta da geladeira aberta; cortamos o dedo ao invés da carne; estacionamos o carro na garagem errada. O trabalho é mecânico, quando não faltamos por adoecimento, porque a imunidade fica baixa. Marie chama os felicitadores de seu novo cargo de “imbecis” porque, aparentemente, eles não entendem que ela não tem como acatar qualquer desejo de felicitação naquele momento. Ela não “quer reagir”. No luto, não interessam os conselhos ou as frases vazias de acolhimento como “foi melhor assim” ou “agora descansou porque Deus quis”. Isso é quase ofensivo para a dor que se sente.

Então, voltando ao ensinamento cigano: como deixar o desejo de felicidade para depois, e não nos começos, se a morte é o único destino irrefutável de todos nós? Porque só tem uma boa morte quem teve uma boa vida. Porque o processo do luto é muito doloroso – e tem um tempo não linear e é singular para cada pessoa. Mas, em algum momento, e ele aconteceu para Marie, Rosa, você, eu, todo mundo, descobrimos que aquela pessoa não está de todo perdida porque ela habita por dentro. E somos pessoas melhores porque tivemos a chance de viver essa experiência de compartilhar nossos afetos com ela. Que não está mais aqui, mas que jamais deixará de ser conosco. A menos que, segundo Freud (não posso deixar de citar), o luto deixe de ser luto e passe a compor uma patologia chamada melancolia – em que o eu está tão amalgamado no objeto (perdido) que ele deixa de ser eu. Mas isso é outra história.

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Jornalista e psicanalista