DEMOCRACIA

Cláudia Gazola: “Ter a minha história contada em um documentário é, de alguma maneira, um processo de cura”

Ter a minha história contada em um documentário que poderá reverberar, em forma de arte, em tantas outras pessoas que viveram sentimentos semelhantes é, de alguma maneira, um processo de cura”. A avaliação é da arquiteta Cláudia Gazola, uma das sete mulheres que protagonizam “Um domingo para nunca mais”. Um instigante curta-metragem, dirigido por Hadija Chalupe e Mônica Mourão, que tenta expressar o sentimento das personagens a partir do relato de suas histórias em 28 de outubro de 2018. Onde e com quem estavam às 19h18 desta data, quando o Brasil anunciava ao mundo a vitória de Jair Bolsonaro à presidência da República? O que sentiram nesse momento?

Fundadora do Coletivo Leila Diniz no Rio Grande do Norte e defensora dos direitos da mulher, Gazola revela que foi “tomada por uma tristeza e muito medo do que estava por vir”. Ela acompanhou a apuração “no ponto sete, em Ponta Negra, local que boa parte da esquerda estava reunida. Era um ambiente de esperança, por causa da expectativa de vitória da Fátima. Mas veio o resultado da eleição nacional. Logo depois, chegou uma amiga querida e contou pra gente que tinha recebido o diagnóstico de câncer de útero. Foi um dia duplamente triste. Eram muitas incertezas coletivas e pessoais que nos cercavam”.

Para Gazola, como militante feminista da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), naquele momento “estava muito ciente de quem era a pessoa que o Brasil acabava de eleger”. Eleito com um discurso abertamente contrário aos Direitos Humanos, o governo Bolsonaro tem promovido o desmonte de políticas públicas voltadas à mulher. Publicação recente do Instituto de Estudos Socioeconômicos mostra que o atual Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos executou menos da metade do orçamento destinado a suas ações – mesmo em um contexto de expressiva redução de verbas para o segmento. Somam-se a isso, a perda de relevância de agendas, como o enfrentamento à violência.

Não à toa, Cláudia Gazola “anda à flor da pele”. Quase que um grito de desabafo, o sentimento é a expressão atual e comum às milhares de brasileiras que, num contexto de retrocessos, reclamam posição ativa na preservação da vida e promoção da emancipação. Um clamor que não chega a ser novidade para uma parcela que representa mais de 50% da população brasileira e foi responsável pela maior manifestação de mulheres na história do país: #EleNão. Um ato histórico contra um furacão antidemocrático que não foi suficiente para barrar a vitória de Jair Bolsonaro, mas impactou a disputa eleitoral de 2018.

Gazola estava entre as mulheres que capitanearam o movimento político contra a candidatura de Bolsonaro. “Foi um mês intenso de muitas banquinhas nas ruas, rodas de conversas com mulheres periféricas, conversa nas filas, no uber, no ônibus. Onde quer que a gente fosse, o objetivo era de virar o voto e falar das ameaças de um possível governo de Bolsonaro”, conta. Para ela, as ameaças eram “de ataque à democracia, com o projeto político de poder neopentecostal, mais poder às milícias, o desmonte das instituições, ataques à educação e à ciência e uma escalada de violência contra as mulheres com a facilitação do acesso a armas. Além disso, tinha o discurso misógino e racista de Bolsonaro, carregado de violência simbólica”.

Às vésperas de uma nova eleição, o que o governo Bolsonaro tem a apresentar às mulheres é um projeto de enfraquecimento de programas, sobretudo voltados às bandeiras feministas, baseado na moralidade religiosa. “A nossa história de colonização cristã baseada na violência foi e ainda é responsável por parte da construção do pensamento do povo brasileiro. A culpa, o pecado e o castigo são valores repassados há gerações. Não fomos capazes, como sociedade, de dar conta institucionalmente das mazelas sociais de quase 400 anos de escravidão e de uma ditadura militar de 21 anos”, avalia Gazola.

Estudo realizado pelo Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA 2022) do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) evidencia os retrocessos de direitos às mulheres brasileiras.  Ele apontou que o corte de verbas deste ano foi de 33%, ou seja, pouco investimento nos últimos anos, mesmo com orçamento disponível.

Uma catástrofe nacional. É um governo racista e misógino que vem desmontando nossas conquistas democráticas. Ameaça institucionalmente a vida de pessoas negras, indígenas, lésbicas, trans e com deficiências. Pratica uma política econômica neoliberal que aumenta a carga de trabalho que pesa sobre as mulheres, acentua as desigualdades sociais e nos mata de fome”, afirma Gazola sobre o que representa o governo atual para as mulheres.

Para ela, é notório que as mulheres são as primeiras que vivem as consequências de retrocessos dos direitos sociais e quaisquer tipos de violências contra a mulher. “Somos uma sociedade que legitima a violência física como forma de educar, de punir e corrigir. Somos racistas, o machismo mata 10 mulheres por dia e a culpa ainda é atribuída a elas. Somos, na maioria, paternalistas e individualistas na política e o exercício do voto é, quase sempre, uma obrigação ou interesse pessoal e familiar e não uma aposta em um projeto de transformação coletiva.  A educação nunca foi encarada como um projeto de nação que pudesse contribuir para romper com preconceitos. Somos muito conservadores”, pontua Claudia.

Sobre a experiência de gravar para o documentário, Gazola afirma que na época do convite ainda não tinha dimensão do quanto o filme poderia repercutir nela e nas outras pessoas. “Hoje, me sinto novamente tomada por medo e angústia com a proximidade das eleições. A amiga querida que estava com câncer faleceu há dois meses. Sinto que é um privilégio ter participado”,

Os áudios captados online, durante 2021, em entrevistas para o podcast “Pra frente é que se anda”, ganharam imagens produzidas em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Foram ouvidas a arquiteta e integrante do Coletivo Leila Diniz Cláudia Gazola, a professora trans Bia Crispim (em Natal); a jornalista e coordenadora da ONG Bem TV Daniela Araujo e a militante da Associação Brasileira de Lésbicas Rosângela Castro (no Rio de Janeiro); a enfermeira do Grupo Curumim Paula Viana e a fundadora da Articulação Nacional das Comunidades Quilombolas (Conaq) Givânia Maria da Silva (em Pernambuco, respectivamente Recife e Quilombo de Conceição das Crioulas).

SERVIÇO

“Um domingo para nunca mais” (16min). Direção: Hadija Chalupe e Mônica Mourão. Produção: Caraduá e S20 Produções

 

Exibições gratuitas:

21/07, às 19h – Rio de Janeiro

Armazém do Campo. Av. Mem de Sá, 135 – Centro.

 

27/07, às 19h – Brasília

Café Objeto Encontrado. CLN 102, Bloco B, Loja 56 – Asa Norte.

 

11/08, às 19h – Fortaleza

Livraria Lamarca. Av. da Universidade, 2475 – Benfica. Exibição seguida da festa “Tristeza nunca mais!”, com o DJ Estácio Facó.

24/08, às 19h – Natal

Cervejaria Resistência. Rua Leonora Armstrong, 35 – Ponta Negra. Exibição seguida da festa “Tristeza nunca mais!”.

 

27/08, às 18h – São Paulo

Armazém do Campo. Alameda Eduardo Prado, 499 – Campos Elíseos.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo