TRANSPARÊNCIA

Defesa de relatório que inocentou professor do IMD da UFRN acusado de assédio revolta estudantes

Protesto de estudantes durante reunião do Consuni da UFRN I Foto: reprodução

A primeira reunião de 2022 do Consuni (Conselho Universitário), órgão máximo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com funções normativas, deliberativas e de planejamento, foi pautada por um protesto de estudantes. Durante o encontro, realizado na manhã deste terça (26), eles trouxeram denúncias sobre o corporativismo da instituição, que estaria ignorando os casos de assédio sexual e moral denunciados por alunos e servidores. Mas, além dos relatos, o que causou revolta entre as estudantes foi o fato do ex-reitor José Ivonildo do Rêgo pedir a palavra para defender o relatório que inocentou um professor do Instituto Metrópole Digital (IMD), acusado de assédio sexual por uma servidora que, minutos antes, havia prestado depoimento diante dos Conselheiros.

Ivonildo (é o primeiro no topo e à esquerda) participou da reunião de maneira virtual I Imagem: reprodução redes sociais
Ivonildo (é o primeiro no topo e à esquerda) participou da reunião de maneira virtual I Imagem: reprodução redes sociais

O caso teria ocorrido em 2018 e a ex-servidora do IMD contou que fez a denúncia em 2021, logo depois de uma campanha da Controladoria Geral da União veiculada, também, pela própria UFRN. A campanha estimulava servidores e estudantes a denunciar casos de assédio moral e sexual.

Desde então nada aconteceu, o que é uma violência simbólica e institucional. O grande acolhimento de uma vítima de assédio é ter a certeza da punição de seu agressor. Estou aqui para denunciar o machismo e corporativismo institucional. Essa universidade não tem feito nada para responsabilizar os importunadores sexuais. Foram quatro responsabilizações por importunação sexual em dez anos!”, criticou.

Em reportagem anterior, a Agência Saiba Mais havia publicado denúncias mais recentes de diferentes casos de assédio, tanto moral quanto sexual, ocorridos dentro da Escola de Música da UFRN. No depoimento desta terça, a ex-servidora do IMD ainda aponta que o relatório que inocentou o professor, a culpou pelos assédios sofridos.

Fui apalpada pela chefia por três vezes, tive provas materiais, prints de conversas, laudos psicológicos e psiquiátricos da época do ocorrido. Para ele, bastou dizer: não, eu não fiz. Eu ainda fui obrigada a ler na sentença que ‘a denunciante postergou por dois anos a presente acusação e que num caso dessa natureza, a vítima jamais teria interesse em voltar a se encontrar com o agente delituoso, procurando meios de se afastar do mesmo’. Ele era meu chefe! O que acontece nessa universidade e na escola de Música é uma vergonha! E não é de hoje! Enquanto não houver responsabilização, não vai adiantar campanha, nem acolhimento”, criticou.

“Vocês entendem o quão difícil é ingressar numa universidade federal?”

O protesto durante a reunião dos Conselheiros do Consuni foi organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), em parceria com a União Nacional dos Estudantes (UNE). a preocupação dos estudantes é que, sem medidas efetivas, as denúncias continuem sendo abafadas.

“Nós ficamos horrorizados com o caso da Escola de Música, mas mais do que isso, porque depois que postamos essa denúncia, outras dezenas apareceram. Não vou nem pedir desculpas por postergar o início da pauta dessa primeira reunião do Consuni até porque passamos tanto tempo caladas, sem resposta, que o mínimo que podemos fazer é tratar esse assunto com a devida gravidade que ele tem. Vocês entendem o quão difícil é ingressar numa universidade federal? Se você é estudante e vem da classe trabalhadora, é uma luta para conseguir entrar na UFRN, não é fácil entrar para o ensino superior público! Imagine o que é conseguir entrar e ter que se desdobrar entre estágio e bolsa para permanecer aqui, porque continuar também não é fácil com a crise política e econômica que vivemos, e ser violentada dessa maneira! Nós estamos destruindo o sonho de meninas e mulheres de concluir o ensino superior!”, alertou Camila Barbosa, diretora da UNE.

“Essas meninas tiveram que reunir uma coragem sem precedentes para denunciar! Mas, o protocolo da universidade e dessa sociedade é sempre silenciar, invisibilizar o que acontece. Não estamos aqui para colocar a universidade para baixo, mas é preciso fazer uma autocrítica. A UFRN não está de parabéns nada, fazer uma nota sobre isso é o mínimo depois que o assunto já estava exposto em toda a mídia por dias. É assim que queremos construir uma universidade segura para as mulheres que vão ingressar?

Também não acho que devemos formar um GT [Grupo de Trabalho] ou uma comissão simbólica que atue de maneira letárgica, que faça estudos e mais estudos. Essa é uma questão urgente, que está acontecendo agora!”, pontuou.

“Você está ficando louca!”

De acordo com a direção da Universidade, a instituição possui canais de denúncia e meios de apuração. Porém, na visão das estudantes, esses instrumentos são influenciados pelo corporativismo.

Temos uma Ouvidoria que todo mundo aponta como insuficiente, influenciada pelo corporativismo. Por que não estimulamos as denúncias via departamento ou coordenação de curso? A servidora do IMD procurou a coordenação, que disse que ela estava ficando louca, histérica! Esse é o estereótipo atribuído às mulheres que denunciam, mas sabemos muito bem a diferença entre o comportamento problemático de um assédio e um comportamento amigável, não estamos ficando loucas!

Também queremos uma política de formação, porque não adianta tratarmos esses assédios como casos isolados, não há um monstro assediador na Escola de Música ou um caso de mau-caratismo! É um problema de formação docente também! Não sei onde os professores estão com a cabeça quando acham que podem violentar o corpo de uma estudante, mas se eles pensam assim, é porque há uma política institucional que autoriza isso. Se você tem um mestrado, um doutorado, o mínimo que você pode fazer é tratar as estudantes com respeito”, continuou Camila.

Servidores também são vítimas

Uma outra servidora do corpo técnico da Universidade acrescentou que os assédios e intimidações, muito frequentemente, se transformam em perseguição no caso dos servidores da Universidade.

Não podemos ficar alheios, é preciso ir além do que já foi feito até então. Não adianta nos mandar para um aconselhamento, porque isso nada mais é do que passar a mão na nossa cabeça e dizer que nós entendemos errado”, acrescentou a servidora.

Foi depois desse último depoimento que o ex-reitor José Ivonildo do Rêgo pediu direito de resposta, já que teria tido sua gestão citada. Ivonildo chegou a dizer que “o outro lado também tem histórias a contar”, em referência ao caso do IMD. Ao perceber a defesa do relatório pelo ex-reitor, a jovem que havia prestado depoimento durante a reunião minutos antes, se retirou da sala.

Que absurdo! Vocês estão vendo na prática o que acontece na UFRN. Como é que numa reunião dessas, ele pede a palavra para defender o agressor? Quero que isso conste em ata!”, observou uma das estudantes.

O encontro foi encerrado em clima de tumultuo com uma promessa de reunião com o reitor da UFRN, Daniel Diniz. A data, porém, ainda será definida.

Confira o vídeo da reunião:

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