OPINIÃO

Não existe sororidade em BSB

– Não creio que tu namorou ele por tanto tempo! Nove meses é quase um casamento. E no final ele ainda te traiu, né? – zombou a amiga do alto da sua sabedoria de 15 anos de idade, como se experiente fosse na arte de amar, enquanto as duas aguardavam o metrô, sentadas ao meu lado na estação do shopping center, de onde ambas pareciam ter saído depois de passarem a tarde matando aula.

– Pior é isso, amiga! O filho da puta ficou com essa piranha aqui, uma filha da puta horrorosa, acredita? – respondeu a mocinha de igual idade, vítima do mal do orgulho ferido, mostrando na tela do celular o perfil do instagram de uma outra adolescente a quem resolveu direcionar toda sua fúria e seu veneno, sem medir as palavras ou mesmo parar pra pensar no absurdo que estava dizendo.

Foi quando resolvi intervir na conversa, mesmo sabendo que jamais seria ouvida, muito pelo contrário. Não consegui segurar o reflexo incontido que tive em defender quem não estava ali, e que possivelmente havia sido igualmente enganada e ferida, já que apontada como a nova vítima do verdadeiro filho da puta da história, a quem as meninas, talvez movidas pela tal cegueira do orgulho ferido, estavam até se esquecendo de culpar.

E como de homem filho da puta eu entendo muito bem, porque também já fui traída (inclusive pelo meu último namorado, que acabou até engravidando a pobre moça, a quem, na verdade, eu gostaria de agradecer pelo livramento, se tivesse a oportunidade), ousei me intrometer:

– Desculpe atrapalhar a conversa, mas preciso dizer que o filho da puta é o cara, viu? Não a menina. – e continuei tentando convencer em vão que ele é que tinha um compromisso com ela, não a menina, que, aliás, não merecia ser julgada e condenada por outras mulheres por simplesmente ter caído, como ela, na conversa do filho da puta. Enquanto eu falava, as duas se entreolharam e torceram o nariz pra mim, com desdém, sem a menor receptividade ou empatia para escutar ou compreender palavra alguma.

Claramente contrariada com minha observação, a mocinha traída ainda me respondeu com o único argumento que considerou suficiente pra que eu lhe desse razão: “mas olha como ela é feia, tia!” – sentenciou, exibindo foto da menina que eu tanto insistia em defender, mesmo sem saber de quem se tratava direito, afinal minha intenção era semear ali alguma fagulha de sororidade, ainda que no solo árido de um coração partido,

Expliquei (ao vento) que as mulheres não deveriam precisar diminuir outras mulheres para se sentirem melhor consigo mesmas, e que era importante apoiarmos umas às outras sempre, sem atribuir culpas que talvez um dia também possam ser atribuídas a nós injustamente, como nessa situação em que elas estavam preferindo destruir a imagem e a reputação de uma mulher livre e desimpedida que talvez só tivesse sido tão enganada quanto ela pelo mesmo filho da puta.

E aliás, se a tal menina fosse considerada “bonita” segundo os padrões delas, por acaso a dor da mocinha traída seria menor? – perguntei mentalmente enquanto eu era solenemente ignorada pelas duas adolescentes, que se limitaram a enfiar a cara de volta nos próprios celulares, por onde provavelmente estavam me xingando em códigos de emojis via whatsapp, até a chegada do próximo trem.

Entramos no mesmo vagão, ocupando extremos opostos de onde elas me olharam de cima a baixo até que eu saisse na Estação Arniqueiras. Decepcionada com aquela demostração de que não existe sororidade em BSB, desci do trem sem nem olhar pra trás, com receio de que elas soltassem aquele grito de “filha da puta” que parecia ter sido armazenado em barris de ódio durante toda a viagem até ali.

Na verdade, não as julgo por isso, já que vi atitudes semelhantes quando mostrei às minhas amigas uma foto do meu ex-namorado ao lado da atual noiva, poucos meses depois de terminar comigo, no facebook. Muita gente vinha me dizer: “sou mais você”, e por mais lisonjeada que eu tenha ficado com isso, afinal ela é uma moça de 20 e poucos anos, na verdade em nenhum momento senti essa necessidade de autoafirmação, porque sei meu valor, e sei muito bem quem não soube reconhecer esse valor.

E isso não tem nada a ver com a menina com quem meu ex me traiu, gente, que certamente tem seu valor também! Tem a ver somente com o desrespeito do filho da puta que preferiu mentir, me enganar, subestimando inclusive minha inteligência, garantindo até o fim se tratar apenas de uma colega de trabalho com quem resolveu passar a estudar para um concurso. E se eu mostrei a foto do casal às minhas amigas, foi somente para provar que eu não estava errada em desconfiar que ele não não passava mesmo de um filho da puta.

Fato é que a moça, seja ela bela ou fora dos padrões impostos de beleza, mais jovem ou mais experiente, alta ou baixa, não tem qualquer culpa pela dor causada por uma mentira, uma traição que foi do seu, do meu, do nosso ex (quem nunca)… E por isso tudo eu sequer consigo ter raiva ou mágoa de quem nem conheço. No máximo, em alguns raros momentos, tenho pena, pois me compadeço da dor que em breve ela pode sentir, se esse cara insistir em seguir essa vocação que tem para filho da puta…Mas quem sabe um dia eles aprendem a nos valorizar e respeitar, né? Até lá, comecemos por nos valorizar umas às outras!

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