CIDADANIA

No Semiárido potiguar, mulheres são mais afetadas pela paralisação do Programa Cisterna

Por Adriana Amâncio*, especial para a agência SAIBA MAIS

“Para beber, eu pego duas latas de água com a minha cunhada, e para a casa, eu pego no açude, há uns 30 minutos. Tem vezes que a minha cunhada não quer dar, o aperreio é grande sem uma cisterna!“, afirma a agricultora Francisca Oliveira, de 55 anos, que mora na comunidade Sombra, em Angicos, na região Central do Rio Grande do Norte.  Dona Chica, como é conhecida, é uma das quase 7 mil e 800 pessoas no Estado potiguar que ainda esperam por uma cisterna de 16 mil litros, que fornece água para o consumo humano.

Essa espera ficou ainda mais angustiante, pois o  Programa Cisternas, principal política de acesso à água do Semiárido, vem sofrendo cortes drásticos no orçamento. Para se ter uma ideia, em 2017, o orçamento executado foi de apenas R$ 49,1 mi. Três anos antes, em 2014, esse orçamento foi de mais de R$ 572 milhões. Em 2021, a dotação prevista foi a menor dos últimos 10 anos. No ano passado foram entregues apenas 4.305 cisternas, número mais baixo da história. Os dados são do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop), do Ministério da Economia.

Orçamento do Programa de Cisternas 2011 – 2021 / Fonte: Núcleo Agrário do PT.

Enquanto a cisterna não chega, Dona Chica faz cinco viagens por dia até o açude de Sombra. São 5 horas diárias, 150 horas mensais, dedicadas somente a esta atividade. A água do açude não serve ao consumo humano, mas, quando a agricultora não consegue a ajuda da cunhada, que possui uma cisterna de 16 mil litros, “é o jeito tomar do açude mesmo”, se conforma. Após um longo suspiro,  a agricultora completa:

Eu estou doente, não posso pegar peso. Ave Maria! É meu sonho ter minha cisterna, eu tenho fé que vou ganhar”, afirma esperançosa.

O que Dona Chica vivencia hoje remonta a um período histórico, que deixou de ser comum no Semiárido, desde a chegada do  Programa Um Milhão de Cisternas Rurais (P1MC).

Mulheres caminhando com lata d’água na cabeça. Cenas como esta eram protagonizadas pelas “viúvas da seca”, mulheres que ficavam separadas dos maridos, durante os meses de estiagem. Enquanto eles seguiam para as regiões Sul e Sudeste em busca de emprego nas grandes obras e indústrias, elas caminhavam quilômetros com latas d’água na cabeça para abastecer a casa. 

Dona Chica faz cinco viagens por dia para retirar agua do açude / Foto: Acervo pessoal de Dona Chica

Na avaliação da coordenadora do Centro Feministra Oito de Março, Conceição Dantas, o esvaziamento do Programa Cisternas afeta principalmente as mulheres, porque elas são as responsáveis pelo cuidado com a casa.

”A retirada desse direito dificulta o acesso à água de consumo humano, aumenta o trabalho e diminui a autonomia econômica das mulheres, pois sem água é inviável produzir alimentos”.

Conceição Dantas, coordenadora do Centro Feminista 8 de Março

Ela pontua que essa realidade é um retrocesso, levando em conta que a  cisterna é uma das políticas de convivência com o Semiárido, assimilada pelo Governo Federal em 2003. É uma mudança de paradigma, levando em conta a lógica das grandes obras hídricas. 

“O Semiárido era uma região onde a pobreza era atrelada à questão da seca, mas defendemos que é possível conviver com ela, adotando políticas de armazenamento e a cisterna é uma delas”, explica.

Em Currais Novos, agricultora raciona água

A agricultora Iranete Macedo, do Sítio Namorado, município de Currais Novos, no território do Seridó, uma das regiões mais áridas do Rio Grande Norte, depende da água de um poço artesiano, tratada por um dessalinizador. O poço fica há cerca de meio quilômetro da casa da agricultora e serve a toda comunidade. Durante as estiagens severas, conta a agricultora, a vazão do poço diminui e a água fica insuficiente para a comunidade. Quando isso acontece, a saída é buscar a água no açude, que fica distante 3 quilômetros da comunidade e é salgada. 

O marido e os filhos de Dona Iranete costumam buscar água e armazenar em tambores. Também por falta de água, ela cultiva alimentos apenas no período de chuvas. No dia a dia, a agricultora raciona o uso o máximo que pode, o que torna o trabalho doméstico mais cansativo. 

“A minha dificuldade é que eu dependo do marido e dos filhos para buscar água e se acabar, eu fico sem fazer os serviços. Tendo uma cisterna em casa, fica mais fácil, posso fazer tudo sem depender de ninguém”. 

Iranete Macêdo, agricultura 

Um divisor de águas no Semiárido

Com a cisterna, as mulheres têm agua boa perto de casa, poupando esforço físico e tempo / Foto: Eduardo Queiroga

Desde que surgiu, o Programa Cisternas, inspirado no P1MC, implementou quase 1,2 milhão de cisternas. Apenas no Rio Grande do Norte foram implementadas 79.237 tecnologias, de acordo com a publicação Acesso à água para as populações do Semiárido Brasileiro, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Com essa marca, a região virou referência mundial no manejo e captação de água da chuva e no saneamento rural, por meio do abastecimento de populações rurais difusas. 

A política reduziu a mortalidade infantil causada pela ingestão de água inadequada ao consumo humano,  quebrou o clientelismo histórico que se valia da troca da água por voto e reduziu a carga de trabalho das mulheres. A redução dos recursos do Programa, aumenta as desigualdades. 

“Se hoje temos mulheres impedidas de buscar emprego, e porque passam horas em busca de água. É fundamental que o Estado brasilero retome o seu lugar de garantir direitos”, cobra Rafael Neves.

* Adriana Amâncio é jornalista freelancer 

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