O Partido dos homens frustrados
Natal, RN 15 de jun 2024

O Partido dos homens frustrados

19 de julho de 2022
5min
O Partido dos homens frustrados

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Após o ridículo protagonizado ontem pelo despresidente, que reuniu 40 embaixadores para criticar e questionar o sistema eleitoral que o elegeu, comecei a escrever texto sobre mais esse capítulo do golpe que ele sonha, mas não vai conseguir viabilizar. Na minha modesta opinião, golpe se planeja com régua e compasso, não se divulga, mas, enfim.

O fato é que mudei de tema ao ler, aturdido, reportagem do Correio Braziliense sobre o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio de Oliveira. Fazendo um perfil bem amplo do cidadão, a manchete já entrega o que leremos: Ministro da Defesa passou por metamorfose, está até pintando o cabelo, dizem militares. Segundo a matéria: "Está pesado o clima no Ministério da Defesa. Militares que dão expediente por lá, e mesmo os de fora, não escondem o descontentamento com a metamorfose pela qual passou o ministro Paulo Sérgio de Oliveira desde que assumiu o cargo. O gentil general se transformou num bolsonarista radical, com visões golpistas cada vez mais explícitas. A mudança foi tanta, que o general passou até a pintar o cabelo, ressaltam auxiliares. A percepção é de que ele se transformou num daqueles caciques políticos antigos, todos com as madeixas tingidas. Um fardado mais irônico diz: “Só está faltando o bigode a la José Sarney”. Outro militar acrescenta: “Deve ser a intensa convivência com os políticos do Centrão. Contamina”.

Mais da matéria: "O espanto em relação à metamorfose pela qual passou o general Paulo Sérgio é grande, porque ninguém esperava alguém mais radical e bolsonarista do que Braga Netto, que o antecedeu no ministério e será vice de Bolsonaro na chapa à reeleição. Como diz o ditado popular, o poder faz com que as pessoas botem o que têm de pior para fora. É uma pena, pois Paulo Sérgio teve um comportamento tão sensato durante a pandemia do novo coronavírus, acrescenta outro fardado".

Que o ilustre general possivelmente está na barca dos oportunistas, não duvido. Parte dos militares, para além do amor à pátria, viu no desgoverno do capitão expulso do Exército uma forma de ter poder e, melhor ainda, engordar o contracheque. Neste balaio de oportunistas encaixamos gente que se elegeu com o bolsonarismo e se arrependeu (ou entrou em conflito com ele) como Joice Hasselman, Alexandre Frota, João Dória. E gente que navega no bolsonarismo como meio de sobrevivência, como Bia Kicis, Carla Zambelli e atualmente o Centrão.

Porém, o que me chamou a atenção na reportagem, mais com feeling de escritor do que como jornalista, com os militares ouvidos enfatizarem que o general ministro "até pintou o cabelo". Para isso chamar a atenção dos colegas milicos é porque antes não era usual. Até imagino (ah, a imaginação de escritor) os generais fumando e bebendo em seu ócio sagrado contando piadas sujas e politicamente incorretas e ridicularizando "esses homens de hoje que fazem as unhas, usam hidratante e pintam o cabelo", naquela vibe de que "macho de verdade" não se cuida. Aí adere ao bolsonarismo e pronto: lá vai o general pintar a cabeleira de preto!

Na verdade, não é o primeiro. O vice-presidente, general Mourão, aquele que sonha em "embranquecer a família", com seu casamento e dos filhos com gente de pele mais alva que a dele, assumidamente pinta os cabelos com uma tonalidade preta mais artificial que o acaju do técnico de futebol Emerson Leão. Não podemos esquecer do ilustre jurista (ops) André Mendonça, que, além de "terrivelmente evangélico", assim que foi escolhido pelo despresidente para uma cadeira do STF trincou a calvície por um implante capilar com resultados duvidosos.

Eu li há tempos, sem me recordar dos e das autoras, textos que versavam sobre isso: o bolsonarismo é uma espécie de imenso partido de homens frustrados. Com aparência, carreira, currículo, sexualidade, quase tudo. Prato cheio para Freud, Jung e Lacan. Dos filhos do despresidente temos um (Eduardo, o 03) que tem obsessão por armas a ponto de celebrar aniversário com um bolo decorado com um revólver cano curto (o que aliás provocou reações de cunho irônico e também psicanalítico, já que o ilustre deputado tem o apelido de "Dudu Bananinha", inclusive forma com que Boulos e Freixo o chamam). Temos também Carlos, o Carluxo, vereador no Rio de Janeiro que não pisa na Câmara Municipal e que tem obsessão pela vida sexual dos outros e principalmente com o comportamento do ex-aliado Dória, cuja heterossexualidade questiona quase diariamente no Twitter.

Temos também os frustrados profissionais. Como o péssimo aluno e péssimo professor Abraham Weintraub, desministro da Educação de triste memória. Ou o ator medíocre Mário Frias, que ocupou a secretaria de Cultura defendendo "os valores e família", esquecendo que é mais lembrado por ter posado nu para uma revista do que pelos papéis no teatro ou cinema (que jamais deve ter feito).

Com tanto macho frustrado que em vez de estar em terapia se encontra em espaços de poder, não surpreende que Bolsonaro tenha maior aceitação e votos no eleitorado masculino do que com o feminino, onde perde de  lavada para Lula e tem alta rejeição. Homens frustrados se identificam com o bolsonarismo. Precisam igualmente mais de um acompanhamento profissional do que de armas ou clubes de tiro, até porque, armados, são perigosos, como acompanhamos diariamente. Mas, isso é tema para um outro texto. Por ora, para desopilar, podemos rir dos cabelos pintados do ilustre ministro general.

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