OPINIÃO

Uma declaração de amor

Às vezes, quando ainda não tenho uma ideia aferventando na cabeça, costumo folhear livros em busca de inspiração para escrever os artigos para o Saiba Mais. Hoje pela manhã, folheei A Louca da Casa, da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, de quem eu gosto muito, admiro, e sempre, invariavelmente, me ajuda a puxar algum fio narrativo de alguma coisa que cochila displicente dentro de mim. Não tive sucesso dessa vez. Só um pequeno fragmento me chamou a atenção, quando ela diz que nossas memórias são feitas de lembranças, muitas vezes inventadas. Mas não passou disso. E acho que já falei sobre esse tema algumas vezes.

Daí, fui para Janet Malcolm, uma premiada jornalista estadunidense – que também é estudiosa de psicanálise – que eu leio e admiro há anos. Folheei um dos livros dela que tenho por aqui, A Mulher Calada, que investiga diversas veracidades, mitos e oportunismos de biografias sobre a poeta Sylvia Plath e a vida com o marido Ted Hughes, também poeta, que chegou a ser acusado por algumas feministas de ser o responsável pelo suicídio de Plath que, em certo dia numa madrugada de inverno de 1963, com apenas 30 anos, resolveu abrir o gás do fogão, deitar sua cabeça sobre um travesseiro dentro do forno aberto e descansar deste mundo. Ou do seu mundo cheio de perturbações, que seja. Nada. Nenhuma inspiração. Então, o caminho natural foi partir para Cartas de Aniversário, um livro de poemas escrito por Hughes, durante 25 anos, direcionado à Plath, como uma espécie de versão própria sobre a história de amor que acabou em separação, meses antes de sua esposa se matar, por não suportar a separação e de saber que ele estava com Assia Wevil que, tempos depois, estranhamente, também se matou com os mesmos métodos da primeira esposa de Hughes. Não! Achei o tema denso demais e desisti de buscar esse tipo de amparo literário que nos mata a fome de dizer alguma coisa, sem que saibamos exatamente o que queremos dizer. E, resignada, abri um saquinho de salgadinhos de batata para preencher os vazios do estômago. Nem sou muito de salgadinhos, muito menos de salgadinhos de batata, mas admito, esse estava bom.

Então, cá estou. Por esses fios condutores invisíveis do acaso, para falar sobre algo que pesquei – ou quiçá, tenha me fisgado – de um trecho do livro que estou lendo nas horas vagas que me imponho – das leituras obrigatórias – que se chama Poeta Chileno, do escritor chileno, Alejandro Zambra. O livro é um romance ambientado a partir do início do século XXI que traz um pouco da história recente do Chile. Mas é, sobretudo, uma infinita declaração de amor à poesia. Nunca havia lido um livro em prosa e ficção que falasse de maneira tão aconchegante e desavisadamente apaixonada sobre poesia. Pois bem, nesse trecho que me arrebatou o coração, como se um pássaro ou uma mariposa tivessem pousado no meu ombro, uma jornalista norte-americana que se chama Pru, e que visita o Chile e está conversando com uma plêiade de poetas chilenos para fazer uma matéria que será publicada numa revista que está patrocinando a sua viagem, ela entrevista a poeta, Rosabetty Muñoz, moradora de uma ilha chamada Chiloé. Nessa conversa, Pru se sente tão à vontade que acaba invertendo os papeis e, em determinada hora da entrevista é ela quem está respondendo às perguntas feitas pela entrevistada, e acaba confidenciando que viajou para o Chile em meio a uma separação de sua namorada, Jessye. Embora Rosabetty seja muito bem-casada com Juan há milênios, ela diz que separação é mesmo algo difícil, baseada na experiência de um amigo próximo, que se separou recentemente e que a mulher levou a casa e ele ficou apenas com o terreno. E como isso é possível? Questiona Pru. Porque nessa ilha, as pessoas vivem em palafitas. Que nós, brasileiros, sabemos o que é, embora Pru não tivesse a menor ideia. Que são aquelas casas construídas sobre as águas. Nessas palafitas de Chiloé é possível transportar as casas de um lugar para o outro. E isso me tocou, sobretudo quando Rosabetty diz: “É bom saber que sua casa não está grudada na terra. Que serve pra terra e também pro mar. É bom a casa ter patas, todas as casas deveriam ter patas”. E esse trecho me fez dar uma pausa para respirar e pensar.

Quando eu era mais jovem, eu fantasiava que minha casa pudesse ter rodinhas e eu pudesse transportá-la para onde eu quisesse. Dessa maneira, eu não precisaria me separar das coisas que eu mais amava. Muitas vezes em nossas vidas, vivenciamos a metáfora dessa palafita: o que é possível carregar conosco? Levamos os quadros, o fogão e o sofá, e abandonamos o terreno? Ou o contrário: nos desfazemos das paredes e de tudo o que está guardado dentro delas e nos dispomos a ocupar os espaços de outra maneira? Não encontro todas as respostas. E nem tenho a pretensão de. Só sei que, como naquelas memórias inventadas, faz tempo que percebi que não precisamos ser tão somente uma coisa ou outra. Podemos ser, ao mesmo tempo, palafita e terreno.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Jornalista e psicanalista