No auge da pandemia, maioria das babás e cuidadoras continuou trabalhando, aponta pesquisa da UFRN
Natal, RN 21 de jun 2024

No auge da pandemia, maioria das babás e cuidadoras continuou trabalhando, aponta pesquisa da UFRN

21 de agosto de 2022
4min
No auge da pandemia, maioria das babás e cuidadoras continuou trabalhando, aponta pesquisa da UFRN

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Os dados iniciais da pesquisa sobre os impactos da pandemia da covid-19 no emprego doméstico, desenvolvida na UFRN, foi publicada em agosto na Revista da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet). O estudo, realizado entre maio e junho de 2020, momento crítico para os casos de incidência e óbito por covid-19, mostra que babás e cuidadoras de idosos em atividade continuaram, em sua maioria, trabalhando, enquanto as diaristas foram as mais demitidas.

A pesquisa foi realizada em campo com contratantes de trabalhadores domésticos e coletou 1.857 respostas. O artigo publicado mostra os primeiros dados de uma pesquisa mais ampla, que segue em desenvolvimento. O objetivo é compreender as contratações durante a pandemia em comparação ao período que antecedeu o distanciamento social, decretado pelas autoridades sanitárias.

A pesquisadora Luana Junqueira Dias Myrrha, professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DCAA/UFRN) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem), explica que esse grupo estudado (babás e cuidadoras de idosos) representa o segundo mais frequente entre todas as trabalhadoras brasileiras. Luana Junqueira dividi a pesquisa com Silvana Nunes de Queiroz, professora da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do PPGDem, a professora Ana Patrícia Dias Sales, do Departamento de Ciências Sociais (DCS/UFRN), e a estudante do PPGDem Priscila de Souza Silva.

Paralelo á pesquisa de campo, as pesquisadoras identificaram, também, o perfil no trabalho doméstico que, em sua maioria, é composto por um grupo que vivenciou grande vulnerabilidade social, econômica e riscos à integridade física e mental durante a pandemia. De acordo com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), apresentados na pesquisa, no ano de 2018, 6,2 milhões de brasileiros tinham como ocupação o trabalho doméstico. Desse total, 92,7% correspondiam a mulheres e 65% delas eram negras. Atrelado a isso, até o fim de 2019, 51% das trabalhadoras domésticas representavam o papel de principais provedoras do sustento familiar.

O estudo constatou também dois fatores importantes nesses grupos. Um deles é o risco à saúde, visto que, em 2019 e 2020, 46% das trabalhadoras domésticas no país tinham mais de 45 anos, faixa etária em que as comorbidades começam a ser mais presentes. O outro é a importância da renda dessas mulheres para suas famílias, em sua maioria (66,9%) compostas por marido e filhos. As pesquisadoras lembram, que “O trabalho doméstico é uma das ocupações mais antigas e, no Brasil, ainda carrega a herança das relações sociais, culturais e econômicas remanescentes da escravidão”.

A manutenção do profissional no serviço, mas com alteração do transporte, a necessidade de residir na casa do patrão ou de pedir demissão foram dinâmicas frequentes observadas durante o levantamento de dados. Durante a primeira onda da covid-19, momento da pesquisa, foi observado que quase metade (49%) das trabalhadoras domésticas contratadas pelos respondentes da pesquisa teve o direito de praticar o distanciamento, com os recursos necessários. No entanto, as pesquisadoras desconfiam que essas respostas podem ter incidência de questões morais, uma vez que, por terem sido coletadas dos próprios contratantes, a pergunta se refere a uma relação de trabalho, envolvendo a percepção do que é certo ou errado.

De acordo com a pesquisadora Luana Myrrh, houve situações em que a trabalhadora doméstica passou a residir com os patrões, o que limitou suas vivências com seus familiares e, em alguns casos, as expôs a relações de exploração do seu tempo de trabalho e até mesmo a violências. Além disso, “a necessidade do isolamento social, principalmente em 2020, e a permanência das mulheres no ambiente doméstico, onde geralmente também se encontra o possível agressor, aumentou a exposição à violência e dificultou o pedido de ajuda. A diminuição da renda também reduziu o empoderamento das mulheres em seus lares, o que pode ter contribuído para o aumento da violência doméstica para essas trabalhadoras”, completou.

Informações: Assecom UFRN

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