OPINIÃO

A campanha das ´bolhas` 

Cefas Carvalho

A campanha eleitoral começou oficialmente nesta terça-feira dia 16, com os candidatos podendo pedir voto explicitamente e divulgar seus números de campanha, que o eleitor vai digitar na urna eletrônica no dia 3 de outubro. Assim como possivelmente muita gente, acordei com o zap e as redes sociais cheias de artes enviadas por amigos e conhecidos e pelos próprios candidatos.

É normal e saudável que assim aconteça em uma democracia, ainda mais para mim, que além de interessado em política ainda sou jornalista. Mas o fato de receber e ver praticamente só mensagens e imagens de candidatos de meu espectro político – progressista, de esquerda – me levou a repetir sobre o fenômeno atual das chamadas “bolhas”.

Porque verificando minha lista, percebo que tenho contatos de todos os campos políticos, exceção à extrema-direita/fascismo, com a qual não há proximidade ou diálogo possível. Mas a verdade é que bato papo tranquilamente com militantes e filiados a PSDB, DEM, União Brasil etc.

Contudo, não recebi praticamente nenhuma mensagem direta de candidato que não progressista, nem tampouco material de campanha destes apareceu nas minhas redes. Repito: isso aconteceu hoje mesmo eu expandindo meus contatos para além da minha bolha político=ideológica.

Imagino como está sendo a situação para quem assumidamente vive em uma “bolha”, por não ter obrigação profissional ou paciência para sequer dialogar com alguém que, por exemplo, não vote em Lula ou que tenha críticas sistemáticas ao PT.

Claro que é um direito da pessoa viver em uma bolha, seja ela política, social, cultural ou de outra natureza. É algo que contribui para a saýde mental e emocional. Mas em uma campanha eleitoral isso vai trazer algumas contradições e paradoxos.

Uma delas já escrevi aqui neste espaço por várias vezes: essa política de se fechar em uma bolha de esquerda faz com que a pessoa, no fim das contas, acabe militando para a sua própria bolha, que já pensa como ela. Para escrever esse texto contei as artes e vídeos do início de campanha de Lula que recebi de contatos no zap durante duas horas, das 6h às 8h. Foram 42 conteúdos. De 42 pessoas queridas e que admiro, de esquerda, mas que sabem que sou de esquerda e que voto em Lula. Claro que não mandaram para mim especificamente, sei que faço parte de uma lista de transmissão, expediente que também envio meus textos. Mas, certamente essa lista de transmissão das pessoas queridas é formada por pessoas que também votam em Lula e em candidatos progressistas.

Evidente que fazer circular conteúdo progressista e material de campanha é positivo. Mas se o mesmo grupo mandar material para pessoas deste mesmo grupo, na verdade vai parecer que estão todos fazendo campanha. No fundo, não estão. Militar e fazer campanha também é dialogar com o diferente, com o indeciso. A gente zomba dos políticos que beijam bebês e comem pastel e caldo de cana na feira, mas a verdade é que eles estão justamente saindo da bolha deles, se expondo ao ridículo e ao diferente.

Como pergunta sem provocação: as 42 pessoas queridas que me mandaram material de Lula hoje para além disso conversam com o porteiro do prédio onde moram sobre Lula e campanha? Dialogam na fila da padaria? Tentam convencer o encanador que está consertando a pia da cozinha? Comentam no supermercado que as coisas estão caras demais que há anos atrás era diferente? Porque a campanha será isso: convencer os indecisos.

Em tempo: batendo papo com um amigo cientista político, ele disse que um irmão dele, bolsonarista, se fechou em bolha semelhante, só que do lado oposto. Saiu dos grupos da família, dá um gelo no irmão e na mãe progressistas e só dialoga e mandar material para sua bolha de extrema direita. Menos mal. Pois em 2018 Bolsonaro venceu porque conseguiu “furar” a bolha dele.

É hora de furarmos a bolha de esquerda e partir para os indecisos, os céticos e os desencantados. Não estou dizendo que não quero receber material de gente amiga e querida, claro que podem e devem me mandar. Mas, para Lula vencer no primeiro turno ele tem justamente que fazer o que vem tentando: furar as bolhas político-ideológicas.

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